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Mostrando postagens de agosto, 2019

Triste dia dos pais.

Pai é uma palavra que soa estranha na minha voz. Ora soa falsa, ora amarga. Mãe é uma palavra cujo significado só melhorou um pouco quando eu me tornei uma. Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente. Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades. No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele di...

Figos maduros apodrecem

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"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém." Nelson Rodrigues Uma citação de Nelson Rodrigues é sempre algo que me trás um sorriso aos lábios. Um sorriso meio cúmplice, pois ele se propôs a dizer o que não é para ser dito e das piores maneiras possíveis. O Anjo Pornográfico tinha o olhar atemporal, agudo, cruel, mas também passional que somente os jovens no coração são capazes de ter. Esse modo de ver a vida me persegue. Nunca consegui expulsá-lo de dentro de mim. Ter sido uma menina com problemas respiratórios me fez ficar mais em casa, e meu temperamento observador não resistia ao hábito que a família tinha de comentar sobre os problemas uns dos outros, dos vizinhos e até de si mesmos.  Eu gostava de ouvir as conversas, e também de cruzar informações mentalmente, adorava observar os gestos, as expressões faciais, os olhares...

Dona M e os cachorros

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Dona M adora músicas românticas, mas ela não crê no amor. Não, de jeito nenhum. Homem nenhum presta, pontifica do alto dos seus 70 anos, e todo homem trai. Trai, porque homem é bicho, está com você mas pensando na outra. E és uma burra se iludindo ser a única! Resta a mulher aceitar a traição ou a solidão. É escolher o que ela achar menos doloroso, ou mais ou menos (des)honroso. O amor verdadeiro da mulher é os filhos. Homem trai nem que seja para não passar por viado diante de outros homens, e ela imagina um homem falando para o outro "aí, cara, não vai pegar não? por causa da namorada? aí, agora é viado?". De certa maneira, o respeito não está na fidelidade conjugal, mas em não trazer doença pra casa, não fazer filhos fora de casa e nem ter um relacionamento que seja estável o bastante para dar azo a divisão de bens com a outra. E nada disso a mulher precisa saber, pois o bom marido mantém a esposa na mais feliz ignorância. Ela se arrepende de ter abandonado o marid...