Figos maduros apodrecem
"Tudo
passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas
farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido
não interessa a ninguém."
Nelson Rodrigues
Uma citação de Nelson Rodrigues é sempre algo que me trás um
sorriso aos lábios. Um sorriso meio cúmplice, pois ele se propôs a dizer o que
não é para ser dito e das piores maneiras possíveis. O Anjo Pornográfico tinha
o olhar atemporal, agudo, cruel, mas também passional que somente os jovens no
coração são capazes de ter.
Esse modo de ver a vida me persegue. Nunca consegui
expulsá-lo de dentro de mim. Ter sido uma menina com problemas respiratórios me
fez ficar mais em casa, e meu temperamento observador não resistia ao hábito
que a família tinha de comentar sobre os problemas uns dos outros, dos vizinhos
e até de si mesmos. Eu gostava de ouvir as conversas, e também de cruzar
informações mentalmente, adorava observar os gestos, as expressões faciais, os
olhares significativos que algumas pessoas trocavam como se partilhassem
segredos ou alguma opinião secreta sobre uma terceira pessoa.
Eu não tenho atração pelo que é proibido, não é isso. Apenas
não gosto de meias-palavras, acho mesmo que não sei lidar bem com elas. Eu vejo
tão bem certas coisas da natureza humana que chego a me assustar, e penso que
devo realmente ser doente!
Uma das coisas atraentes na minha opção religiosa é essa
aceitação da humanidade como um fato complexo. Não existem bem e mal como
entidades antitéticas, nem mesmo como dialética: o bem e o mal não existem, e
apenas o humano existe pleno de fatores tão diversos que apenas duas categorias
são incapazes de abarcar.
No discurso rodrigueano o amor é eivado de sexo e não pode
existir sem desejo. Só há amor erótico, do contrário é amizade e não pode haver
amizade senão entre iguais. Homens e mulheres não são iguais e ponto final.
Essa diferença é definida a priori pela própria biologia e o resto construímos
culturalmente. Seja a atração do lingam pelo yoni, ou o homem com seu X
defeituoso que tornado Y apenas se realiza na posse do segundo X feminino; é o
amor erótico domado pelas convenções sociais que emerge em sua selvageria
atávica.
Um amor que se desentende de si mesmo nesse século XXI,
creio eu. Ainda assim, permanece o fascínio pelo amor infeliz, como perversão.
Outro que amarra a mulher a perversão e o seu prazer concretizado a sua decadência física e moral é Lawrence. D.H Lawrence descreve a mulher como um figo, uma fruta opaca
por fora, mas rubra e suculenta por dentro; o figo seria uma fruta uterina que
se expõe apenas quando maduro demais, apodrece e deixa ver seu interior. A
mulher moderna sinaliza o seu interior como um figo maduro, não mais cuidando
de sua sexualidade como um segredo, e não mais fazendo do segredo o seu
atrativo diante do homem. O homem precisa redefinir o seu desejo diante de uma
mulher que não é mais seu útero, mas sim um corpo inteiro de manifestação
sexual.
O homem de Lawrence se queda perplexo diante do desejo e da
sexualidade feminina, que ele não pode conter, lembrando a si mesmo que “ripe
figs won´t keep”. Ora, mas o que permanece neste mundo? O que é apodrecer sem
se dar a conhecer e sem conhecer? Sem estabelecer formas de prazer? A mulher
comete então adultério em relação a imagem que um dia a comprometeu diante da
sociedade e do homem.
Toda mulher é hoje uma adúltera, um figo maduro. Ainda
assim, resta ao macho um pequeno prazer... o do olhar e do falar, prazer ainda
que incompleto, pois falar da adúltera não é divertido se o adultério não
representa mancha alguma e, se da exposição da infidelidade não se pode exercer
nenhum tipo de controle sobre o outro. A condenação é ineficaz, a sanção
inexistente, a opinião é irrelevante.
No entanto, falar do amor fracassado é ainda interessante,
pois no fundo nos remete a falta que sentimos desse sentimento tão idealizado,
tão cantado, tão modificado ao longo da humanidade.
A chave do controle do homem sobre a mulher não é mais o
controle da sexualidade... é o amor. É impor o poliamor, a polifamília, fazê-la
negar suas necessidades emocionais... essa é sua punição ao grande adultério da
liberdade do corpo feminino.

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