Dona M e os cachorros

Dona M adora músicas românticas, mas ela não crê no amor. Não, de jeito nenhum. Homem nenhum presta, pontifica do alto dos seus 70 anos, e todo homem trai.

Trai, porque homem é bicho, está com você mas pensando na outra. E és uma burra se iludindo ser a única! Resta a mulher aceitar a traição ou a solidão. É escolher o que ela achar menos doloroso, ou mais ou menos (des)honroso. O amor verdadeiro da mulher é os filhos.

Homem trai nem que seja para não passar por viado diante de outros homens, e ela imagina um homem falando para o outro "aí, cara, não vai pegar não? por causa da namorada? aí, agora é viado?".

De certa maneira, o respeito não está na fidelidade conjugal, mas em não trazer doença pra casa, não fazer filhos fora de casa e nem ter um relacionamento que seja estável o bastante para dar azo a divisão de bens com a outra. E nada disso a mulher precisa saber, pois o bom marido mantém a esposa na mais feliz ignorância.

Ela se arrepende de ter abandonado o marido por traição, alega ter trocado uma vida boa por pura decepção amorosa, quando homem é tudo igual. Bom, mas ela tem mil outras histórias e contradições.

O ponto desse papo é como essa idéia dela reforça que homem tem de trair e ser necessariamente promíscuo para ser de fato masculino, macho, homem com H. E, para ser um bom homem, tem de fazer isso "direito". Que essa marca de masculinidade é afirmada diante da mulher e de outros homens, e que devemos aceitar isso, isto é, perpetuar.

Gerações de mulheres repetindo consciente ou inconscientemente esse mesmo discurso, e os materializando nos relacionamentos.

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Ela fala isso sempre que vê casos de mulheres traídas em programas de fofocas de sub celebridades, nos programas de mundo cão na TV, nas novelas, que são os produtos culturais que consome com um afinco obsessivo.

Dona M não é exceção. A bem da verdade, eu vou a um salão ao lado do meu conjunto de prédios, frequentado por uma pequena horda de senhorinhas, idosas a ponto de eu achar que envelheço por osmose, que tem exatamente o mesmo discurso e hábitos bastante semelhantes. Os programas que elas assistem são povoados por pessoas humildes, de todas as idades, mas que tem frequentemente em comum a falta de educação, cultura e baixo nível social. Portanto, embora haja um componente geracional forte, sinto que a mentalidade dessas senhoras, se perpetua em novas gerações, ainda que de formas disfarçadas.

Ser mulher não é fácil, mas ser homem e não repetir padrões, tentar ser você mesmo, se definir de acordo com valores que não sejam aqueles de "ter de trair", "ter de brigar", "não poder chorar", etc, deve ser complicado.

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