Triste dia dos pais.
Pai é uma palavra que soa estranha na minha voz. Ora soa falsa, ora amarga. Mãe é uma palavra cujo significado só melhorou um pouco quando eu me tornei uma.
Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente.
Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades.
No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele disse que ele não estava. Eu joguei fora o número.
Mas até que essa decisão simbólica demorou.
Ao completar quinze anos, eu pedi para almoçar com ele. Eu não teria festa, nada. Meu presente foi um vestido, comprado numa confecção na avenida Brasil, a Samby´s, da pilha de roupas com pequenos defeitos. Lembro disso pois pedi uma roupa melhor, e ela disse que não tinha dinheiro, então eu catei um vestido polo verde água, uma cor que eu odeio, mas era o melhor que tinha.
Eu fiquei esperando e ele não veio. Não almocei. Esperei. Tentei telefonar. Ninguém atendeu. Fiquei ali até a festinha da minha irmã do meio, um bolinho no play (ela faz aniversário no mesmo dia que eu, ela fazia 8 anos). Fui dormir. Só consegui falar com ele dias depois. Ele havia esquecido.
Aos dezoito joguei o telefone fora.
Anos depois, eu me formei. O convidei a colação de grau a pedido da minha tia, irmã dele. Ele também não foi. Também não o convidei para o meu casamento, nem o notifiquei do nascimento do meu filho. Não creio, sinceramente que ele se importasse.
Nova família, nova vida, não é?
Teria sido mais fácil se eu tivesse uma mãe legal. Mas não foi esse o caso. Minha mãe resolveu infernizar a minha vida, e a da minha irmã. Mas principalmente a minha. Enquanto a minha irmã mais nova sofria sem entender direito, eu sofria sabendo, ouvindo exatamente a razão da maldade.
Minha mãe constituiu nova família, um marido e uma filha, e nós éramos as intrusas. Ela só seria feliz sem a gente ali. Ela poderia nos manter a míngua, bater, pisar, humilhar, abusar, e sempre dizia: seu pai é um nada, não liga pra vocês, vocês vão correr pra onde? vocês não tem pai, por isso não pode nada.
Até meus dezessete anos, minha avó era viva e eu me refugiava na casa dela, mas então ela morreu. E eu fiquei sozinha.
"Quem vai te querer?"
Eu olhava para minha irmã com desespero, raiva, pena, vontade de sumir. Ela não tinha material para escola, como eu não tive. Não tinha uniforme completo, como eu não tive. Usava as mesmas roupas horríveis, enquanto a bebê de três anos usava a grande novidade, roupas de grife da Xuxa. A gente não podia tomar banho quente direito, pois gastava mais gás de aquecedor, se comesse muita fruta, incomodava.
Assim que eu pude, minha prima me arrumou um emprego com carteira assinada numa fábrica, e eu fui trabalhar de dia e estudar a noite. Ganhava pouco, e ia dividindo como podia, tentando viver de algum jeito.
Mas minha meia irmã por parte de mãe tinha do bom e do melhor, ela tinha pai. Meu pai tinha filhos, uma família, e assim que pode, vendeu o que tinha de bens para a companheira, de sorte que, se ele morresse, eu e minha irmã não tivéssemos direito a nada. Aliás, minha mãe fez o mesmo.
Não é o dinheiro em si, mas o ato: como isso sacramenta que eles escolheram que nós não somos da família.
Minha irmã tem uma personalidade diferente da minha; ela tenta se infiltrar, sendo desejada ou não, mesmo nessa situação, conseguir um trocado aqui e outro ali, mesmo não sendo tratada igual, mesmo havendo desrespeito, ela optou por sobreviver de maneiras que são, a meu ver reptilianas. Já eu lembro de ter tido um dia uma família e um lugar, então eu não tolero táticas e subterfúgios.
Quando criança, e até minha vida adulta, eu senti tudo isso como culpa, como se eu tivesse sido culpada pela perda, pelo rompimento, pelo abandono. Isso se expressou em relacionamentos abusivos, em uma auto estima baixa, em depressão grave, tentativa de suicídio, absoluta desconfiança nas pessoas, isolamento, dificuldade de manter relacionamentos de qualquer natureza (afinal, quem vai me querer? as pessoas vão embora a qualquer momento, não é?), inclusive em desapego da vida.
Não consigo me aproximar mais do meu pai, não quero a proximidade da minha mãe tóxica. Não há como reescrever o passado, não há como melhorar sem que haja o reconhecimento dos erros, dos danos causados, de fazer algo de diferente. Ainda assim, vale a pena? Farei cinquenta anos ano que vem, e essa orfandade de pais vivos dói hoje como doía a quase quarenta anos. Como eu disse uma vez, quando eles morrerem talvez eu tenha uma certa paz, de poder dizer que meus pais morreram, e não que apenas me rejeitaram (e rejeitam).
Há edificações que são impossíveis de recuperar, cicatrizes que aleijam, infecções que sempre voltam retroviroses. O máximo que se pode fazer é seguir em frente, mas a culpa eu não carrego, a culpa e responsabilidade é deles, pois sei que a responsabilidade pela minha relação com meu filho é minha.
Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente.
Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades.
No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele disse que ele não estava. Eu joguei fora o número.
Mas até que essa decisão simbólica demorou.
Ao completar quinze anos, eu pedi para almoçar com ele. Eu não teria festa, nada. Meu presente foi um vestido, comprado numa confecção na avenida Brasil, a Samby´s, da pilha de roupas com pequenos defeitos. Lembro disso pois pedi uma roupa melhor, e ela disse que não tinha dinheiro, então eu catei um vestido polo verde água, uma cor que eu odeio, mas era o melhor que tinha.
Eu fiquei esperando e ele não veio. Não almocei. Esperei. Tentei telefonar. Ninguém atendeu. Fiquei ali até a festinha da minha irmã do meio, um bolinho no play (ela faz aniversário no mesmo dia que eu, ela fazia 8 anos). Fui dormir. Só consegui falar com ele dias depois. Ele havia esquecido.
Aos dezoito joguei o telefone fora.
Anos depois, eu me formei. O convidei a colação de grau a pedido da minha tia, irmã dele. Ele também não foi. Também não o convidei para o meu casamento, nem o notifiquei do nascimento do meu filho. Não creio, sinceramente que ele se importasse.
Nova família, nova vida, não é?
Teria sido mais fácil se eu tivesse uma mãe legal. Mas não foi esse o caso. Minha mãe resolveu infernizar a minha vida, e a da minha irmã. Mas principalmente a minha. Enquanto a minha irmã mais nova sofria sem entender direito, eu sofria sabendo, ouvindo exatamente a razão da maldade.
Minha mãe constituiu nova família, um marido e uma filha, e nós éramos as intrusas. Ela só seria feliz sem a gente ali. Ela poderia nos manter a míngua, bater, pisar, humilhar, abusar, e sempre dizia: seu pai é um nada, não liga pra vocês, vocês vão correr pra onde? vocês não tem pai, por isso não pode nada.
Até meus dezessete anos, minha avó era viva e eu me refugiava na casa dela, mas então ela morreu. E eu fiquei sozinha.
"Quem vai te querer?"
Eu olhava para minha irmã com desespero, raiva, pena, vontade de sumir. Ela não tinha material para escola, como eu não tive. Não tinha uniforme completo, como eu não tive. Usava as mesmas roupas horríveis, enquanto a bebê de três anos usava a grande novidade, roupas de grife da Xuxa. A gente não podia tomar banho quente direito, pois gastava mais gás de aquecedor, se comesse muita fruta, incomodava.
Assim que eu pude, minha prima me arrumou um emprego com carteira assinada numa fábrica, e eu fui trabalhar de dia e estudar a noite. Ganhava pouco, e ia dividindo como podia, tentando viver de algum jeito.
Mas minha meia irmã por parte de mãe tinha do bom e do melhor, ela tinha pai. Meu pai tinha filhos, uma família, e assim que pode, vendeu o que tinha de bens para a companheira, de sorte que, se ele morresse, eu e minha irmã não tivéssemos direito a nada. Aliás, minha mãe fez o mesmo.
Não é o dinheiro em si, mas o ato: como isso sacramenta que eles escolheram que nós não somos da família.
Minha irmã tem uma personalidade diferente da minha; ela tenta se infiltrar, sendo desejada ou não, mesmo nessa situação, conseguir um trocado aqui e outro ali, mesmo não sendo tratada igual, mesmo havendo desrespeito, ela optou por sobreviver de maneiras que são, a meu ver reptilianas. Já eu lembro de ter tido um dia uma família e um lugar, então eu não tolero táticas e subterfúgios.
Quando criança, e até minha vida adulta, eu senti tudo isso como culpa, como se eu tivesse sido culpada pela perda, pelo rompimento, pelo abandono. Isso se expressou em relacionamentos abusivos, em uma auto estima baixa, em depressão grave, tentativa de suicídio, absoluta desconfiança nas pessoas, isolamento, dificuldade de manter relacionamentos de qualquer natureza (afinal, quem vai me querer? as pessoas vão embora a qualquer momento, não é?), inclusive em desapego da vida.
Não consigo me aproximar mais do meu pai, não quero a proximidade da minha mãe tóxica. Não há como reescrever o passado, não há como melhorar sem que haja o reconhecimento dos erros, dos danos causados, de fazer algo de diferente. Ainda assim, vale a pena? Farei cinquenta anos ano que vem, e essa orfandade de pais vivos dói hoje como doía a quase quarenta anos. Como eu disse uma vez, quando eles morrerem talvez eu tenha uma certa paz, de poder dizer que meus pais morreram, e não que apenas me rejeitaram (e rejeitam).
Há edificações que são impossíveis de recuperar, cicatrizes que aleijam, infecções que sempre voltam retroviroses. O máximo que se pode fazer é seguir em frente, mas a culpa eu não carrego, a culpa e responsabilidade é deles, pois sei que a responsabilidade pela minha relação com meu filho é minha.
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