Dark Season 2 Review and Spoilers
Terminei a segunda tempora da Dark. Essa é uma série de televisão alemã, direcionada também ao mercado internacional, distribuída pela Netflix. Apesar de ser bem complicada, ela teve uma segunda temporada, e terá uma terceira, isto é, será uma obra fechada.
Vários produtos culturais já lidaram com o tempo, algum de seus aspectos, como tema central. Desde Back to the Future a Groudhog Day, de Tunel do Tempo a Travellers, de Slaughterhouse 9 do Kurt Vonnegut, a A máquina do tempo do H G Wells, e muitos outros que eu não listei.
A tentação de olhar Dark pela ação, mapeando cronologicamente, relacionando os personagens é grande. Mas, se ao final da primeira temporada, o sujeito não percebeu que os personagens estão em loop temporal, que opera como um equivalente de uma lógica circular (tautologia), ele não deveria começar a ver a segunda. Algo que explica a si mesmo, entenderam?
O fato é que a série nem se interessa em explicar alguma ciência por trás da viagem no tempo, de loops temporais, ou multiversos; pode até haver uma balela para os geeks se divertirem, mas é absolutamente irrelevante.
O foco é o Tempo, como sendo o nome verdadeiro de Deus. É o tempo que define a existência do universo, a vida e a morte. Que dá significado a existência, quando dá sentido a vida, isto é, determina uma direção: do início, de um momento germinativo, por exemplo, a um momento de término, de decomposição e reentrada na compostagem da massa de onde outras vidas serão geradas. E essa é a obsessão do personagem viajante Adam, na segunda temporada; romper o ciclo e destruir o tempo, dar ao universo a oportunidade de demolir a limitação que ele impõe a vida, embora ele não tenha de verdade uma certeza do efeito que isso trará. Apesar de ter horror a contemplar a morte, ele abraça a incerteza, uma incerteza corajosa e criativa, um afã sofrido, de recriar o mundo.
Inclusive afirmado na frase retirada da Tábua Esmeralda, Sic mundus creatus est.
Edição original em latim, do texto da Tábua Esmeralda. (Chrysogonus Polydorus, Nuremberg 1541):
"É verdade, sem mentir, certo e mui verdadeiro, que aquilo que está embaixo é como o que está acima, e aquilo que está acima, é como o que abaixo, operem milagres de uma única coisa. E como todas as coisas foram e vieram da mesma e pela mediação da mesma: então, todas as coisas tiveram sua origem nessa única coisa por adaptação.
O sol é o seu pai, e a lua a sua mãe, o vento carregou-lhe no ventre, e foi a terra sua ama. O pai de toda a perfeição em todo o mundo está aqui. Sua força ou poder é inteiro, se convertido na terra. Separai a terra do fogo, o sutil do grosseiro, docemente com grande indústria. Ele ascende da terra aos céus, e novamente desce a terra, e recebe força das coisas superiores e inferiores. Por esse meio você terá a glória de todo o mundo, e assim, toda a obscuridade fugirá de você.
A sua força está acima de toda força, pois ele conquista toda coisa sutil e penetra toda coisa sólida, assim foi criado o seu mundo. Dessas são e vem admiráveis adaptações, de cujos meios aqui estão.
De alguma maneira o personagem Adam parece buscar ser Hermes trimegisto, daí a fixação em três ciclos, dele conhecer a forma como o mundo foi feito, da energia que é sutil e bruta ao mesmo tempo, ilustrada pela matéria escura, e a gana de controlar essa matéria, esse filosofia, e dominar a realidade.
Ao final, a luta de Adam, que é existencial, e que ele julga mais nobre do que a dos outros personagens, nada faz do que aumentar a tragédia dos outros personagens presos no loop.
As pessoas presas no loop, que tem consciência desse fato, demonstram profundo sofrimento, vivem numa solidão imensa, e cada intervenção dos viajantes não parece aliviar o sofrimento. Na verdade, os viajantes também sofrem e misturam suas vidas às das pessoas de cada fase temporal. As interações entre as pessoas tem o objetivo, na verdade, de nos fazer refletir e causar empatia.
Por exemplo, quando Hannah, a mãe do Jonas vai a 1953 tentar resgatar Ulrich, seu amante, ela pergunta se ele a ama, e ele responde que sim, apressadamente, de maneira que ela percebe que é mentira, que ele nunca pensou em largar a esposa e os filhos para assumi-la, que ele pensa apenas na família, e queria apenas que ela o ajudasse. Com raiva, ela o abandona lá, em 1953, se mostrando incapaz de qualquer solidariedade, rancorosa, cruel, que não amava o esposo ou o filho, apenas o amante, e se viu absolutamente rejeitada emocionalmente, e usada para sexo.
Até esse momento, essa viagem não pareceu ter grande consequência para o fluxo dos acontecimentos, mas faz com que nos perguntemos quem é essa mulher, de onde ela vem, qual a sua relação com o filho, Jonas, e se ela terá algum papel posteriormente. A atitude dela, cruel, é também fruto do amor não retribuído e usado.
Temos Noah, tão sinistro jovem quanto mais velho. O Noah mais velho se permitindo dúvida, que descobrimos que amou um dia.
Descobrimos Magnus, irmão de Mikkel e tio de Jonas, e Franziska, amiga deles ainda vivos, num tempo alternativo. Muitas novidades.
Vimos que, apesar de em 2019 o tempo ser exíguo, é possível fazer bom uso do tempo passado, e ir ao tempo futuro.
Pensando assim, um viajante tem o tempo que quiser, e se quiser pode criar vários loops!
A primeira e segunda temporadas perguntam onde e em que ano o viajante está. A terceira temporada perguntará: em que universo/dimensão.
Torço para saber se em alguma dimensão não exista mais tempo, ver como os autores fantasiam um universo assim...
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