A Lua e o testemunho da vida
Há cinquenta anos, os americanos partiram para a lua, determinados a serem os primeiros a pisar na sua superfície, numa conquista da ciência americana, mas também coroando um momento na trajetória da humanidade.
Eles chegaram ali como resultado da história de todos os homens que existiram antes de deles, de todo o conhecimento acumulado, de todas as guerras, de todas músicas, amores, conquistas, doenças, de tudo de humano.
Querendo, ou não, a pegada na areia lunar é de um homem, depois de centenas de anos, a nacionalidade dele ser americana, deixará de ser relevante.
Eu conheci uma pessoa que não acreditava, até o dia da sua morte, que o homem tinha ido a lua. Para Dona Auryce, aquilo era um show dos americanos para enganar a todos, pois Deus jamais permitiria que um homem se aproximasse da lua: lá era morada de Nossa Senhora, onde um Dragão e São Jorge da Capadócia lutavam eternamente. Eu achava estranho, achava que ela estava brincando comigo, mas não, a senhora idosa realmente acreditava nisso.
Conheço pessoas que não acreditam em naves espaciais, laboratórios espaciais, ou sondas explorando o espaço. Acham que e impossível, uma brincadeira de hollywood, para tirar dinheiro dos outros, e que a terra realmente é plana. Acredito que não se importam realmente com nada dessas coisas, o mundo vai até onde podem se locomover, seja por que meio for, e não vale a pena questionar nem como o meio de transporte foi desenvolvido, sua realidade é um dado, algo posto! Não devemos levantar dúvidas, suscitar questões, fazer com que tenham de pensar de maneira crítica sobre qualquer assunto. O pensamento reflexivo lhes causa horror.
Um museu que queima é apenas algo inútil, um penduricalho que quebrado e que não vale a pena consertar, diante de outras necessidades. Essas pessoas não entendem a utilidade científica de um museu de história natural, por exemplo. Se uma igreja medieval some, mal suspiram um lamento, mas e daí? Ao fim e ao cabo tanto faz.
Ciência, arte, as mudanças políticas, sociais, tecnológicas que testemunham durante a vida não lhes causam reflexão alguma. Por isso o homem não foi a lua: eles não conseguem ir, mentalmente, a lugar algum, e não conseguem conceber algo diferente.
Lembro de Dona Margarida, parada na porta do quarto dos rapazes, olhando eles usando o primeiro computador da casa deles, um "possante 586", no início dos anos 90. Ela, com mais de setenta anos, olhando aquela máquina e pensativa. Abracei a velha e perguntei o que ela estava matutando, e ela me disse "o que mais haverei de ver?".
Nasceu no início dos anos 20 em Belém, de família classe média alta, teve boa educação, mas casou e estudou técnica de enfermagem, e acabou criando sozinha os filhos, depois da viuvez, vindo para o Rio de Janeiro. Ela viu a guerra, quando criança, o Estado Novo, a transferência da capital para Brasília, o regime militar e a democratização; de mulher do lar, foi trabalhar, ser independente, responsável por si mesma, falou que o primeiro rádio da rua dela foi o da casa dela, em Belém, que televisão era coisa de gente rica aqui no Rio, geladeira nem todo mundo tinha em Belém, e aqui no Rio era coisa cara, e que ficou maravilhada com o primeiro ar condicionado, carros eram bens inacessíveis. Telefone não era comum, e eu mesma peguei a época em que um telefone valia o mesmo que um carro, uma linha telefônica era como um bem! Ela ouviu a transmissão da ida do homem a lua, viu depois na TV e demorou a crer! Ela, que viajou ao Rio num Ita, viu o avião ligar o país. E o filho dela agora usava um tal de aparelho celular (era a época dos celulares modelo tijolo). Quando mais jovem ela sabia que computadores ocupavam andares e salas de edifícios, e agora, bem no quarto dos netos, tinha um... o que mais ela haveria de ver?
Ao contrário de Dona Auryce, a Dona Margarida aceitava que os tempos traziam mudanças, pois ela precisou acompanhar os tempos e mudar com eles. Essa fala dessa senhora me acompanha desde os meus vinte e poucos anos, não como um balanço dos anos vividos, mas como uma expectativa pelo que ainda quero viver.
Aos cinquenta anos do primeiro homem na lua, a humanidade pensa em ir a Marte e em novas expedições a Lua, dessa vez para construir bases, com a perspectiva de explorar científica e econômicamente o satélite. Eu sei que demorará algumas décadas até parte desses projetos se completar, e eu já tenho cinquenta anos, e isso me agonia, pois eu queria estar presente, eu queria testemunhar, poder me maravilhar, reter essa memória eu mesma. Eu queria ver! Ver os próximos cinquenta anos, a terra redonda, a lua, marte, as profundezas do mar, as máquinas mais fantásticas...
Eles chegaram ali como resultado da história de todos os homens que existiram antes de deles, de todo o conhecimento acumulado, de todas as guerras, de todas músicas, amores, conquistas, doenças, de tudo de humano.
Querendo, ou não, a pegada na areia lunar é de um homem, depois de centenas de anos, a nacionalidade dele ser americana, deixará de ser relevante.
Eu conheci uma pessoa que não acreditava, até o dia da sua morte, que o homem tinha ido a lua. Para Dona Auryce, aquilo era um show dos americanos para enganar a todos, pois Deus jamais permitiria que um homem se aproximasse da lua: lá era morada de Nossa Senhora, onde um Dragão e São Jorge da Capadócia lutavam eternamente. Eu achava estranho, achava que ela estava brincando comigo, mas não, a senhora idosa realmente acreditava nisso.
Conheço pessoas que não acreditam em naves espaciais, laboratórios espaciais, ou sondas explorando o espaço. Acham que e impossível, uma brincadeira de hollywood, para tirar dinheiro dos outros, e que a terra realmente é plana. Acredito que não se importam realmente com nada dessas coisas, o mundo vai até onde podem se locomover, seja por que meio for, e não vale a pena questionar nem como o meio de transporte foi desenvolvido, sua realidade é um dado, algo posto! Não devemos levantar dúvidas, suscitar questões, fazer com que tenham de pensar de maneira crítica sobre qualquer assunto. O pensamento reflexivo lhes causa horror.
Um museu que queima é apenas algo inútil, um penduricalho que quebrado e que não vale a pena consertar, diante de outras necessidades. Essas pessoas não entendem a utilidade científica de um museu de história natural, por exemplo. Se uma igreja medieval some, mal suspiram um lamento, mas e daí? Ao fim e ao cabo tanto faz.
Ciência, arte, as mudanças políticas, sociais, tecnológicas que testemunham durante a vida não lhes causam reflexão alguma. Por isso o homem não foi a lua: eles não conseguem ir, mentalmente, a lugar algum, e não conseguem conceber algo diferente.
Lembro de Dona Margarida, parada na porta do quarto dos rapazes, olhando eles usando o primeiro computador da casa deles, um "possante 586", no início dos anos 90. Ela, com mais de setenta anos, olhando aquela máquina e pensativa. Abracei a velha e perguntei o que ela estava matutando, e ela me disse "o que mais haverei de ver?".
Nasceu no início dos anos 20 em Belém, de família classe média alta, teve boa educação, mas casou e estudou técnica de enfermagem, e acabou criando sozinha os filhos, depois da viuvez, vindo para o Rio de Janeiro. Ela viu a guerra, quando criança, o Estado Novo, a transferência da capital para Brasília, o regime militar e a democratização; de mulher do lar, foi trabalhar, ser independente, responsável por si mesma, falou que o primeiro rádio da rua dela foi o da casa dela, em Belém, que televisão era coisa de gente rica aqui no Rio, geladeira nem todo mundo tinha em Belém, e aqui no Rio era coisa cara, e que ficou maravilhada com o primeiro ar condicionado, carros eram bens inacessíveis. Telefone não era comum, e eu mesma peguei a época em que um telefone valia o mesmo que um carro, uma linha telefônica era como um bem! Ela ouviu a transmissão da ida do homem a lua, viu depois na TV e demorou a crer! Ela, que viajou ao Rio num Ita, viu o avião ligar o país. E o filho dela agora usava um tal de aparelho celular (era a época dos celulares modelo tijolo). Quando mais jovem ela sabia que computadores ocupavam andares e salas de edifícios, e agora, bem no quarto dos netos, tinha um... o que mais ela haveria de ver?
Ao contrário de Dona Auryce, a Dona Margarida aceitava que os tempos traziam mudanças, pois ela precisou acompanhar os tempos e mudar com eles. Essa fala dessa senhora me acompanha desde os meus vinte e poucos anos, não como um balanço dos anos vividos, mas como uma expectativa pelo que ainda quero viver.
Aos cinquenta anos do primeiro homem na lua, a humanidade pensa em ir a Marte e em novas expedições a Lua, dessa vez para construir bases, com a perspectiva de explorar científica e econômicamente o satélite. Eu sei que demorará algumas décadas até parte desses projetos se completar, e eu já tenho cinquenta anos, e isso me agonia, pois eu queria estar presente, eu queria testemunhar, poder me maravilhar, reter essa memória eu mesma. Eu queria ver! Ver os próximos cinquenta anos, a terra redonda, a lua, marte, as profundezas do mar, as máquinas mais fantásticas...
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