Quando eu descobri que ser menina, era ser menos do que um menino
Nasci menina, e até uma determinada idade, eu me sentia muito feliz assim. Eu tinha avós maravilhosas, minha avó materna me mimava de todos os jeitos, meus avós homens eram muito legais, o materno então era super carinhoso, falava comigo como se eu fosse "grande". Aprendi a falar e andar muito cedo, eu aprendi a ler sozinha muito cedo, e a observar as pessoas de maneira crítica bem precocemente. Venho de famílias de mulheres fortes, e na minha família paterna então... elas são como titãs, desafiadoras do seu tempo, e eu adorava.
Na minha cabeça, eu poderia fazer o que eu quisesse. Meu pai me levava pro quartel, eu tinha até minha boina da PQD, eu brincava com os meninos e meninas, saía na pancadaria, mesmo sendo baixinha, magrinha, perebenda e com bronquite.
Então minha mãe engravidou. Eu fiquei feliz pois ia ganhar uma irmã no dia do meu aniversário, mas meu pai insistia que seria um menino, pois estava obcecado com a idéia de ter um filho homem, macho! Minha mãe deixou minha festinha de aniversário toda pronta e foi para o hospital, e às 18:00 minha irmã nasceu. Meu pai encerrou a festa, botou todo mundo pra fora e ficou desolado.
No dia seguinte, fomos ao hospital, eu com minha avó, e ele apareceu lá, sozinho, para visitar mamãe e minha irmã. Ele não quis ver a criança, chorou de raiva. Vovó pediu que minha tia me tirasse dali, mas cheguei a ver minha mãe destruída. Eu cheguei a ouvir o que ele disse sobre o bebê ser menina.
Minha mãe voltou para casa, e ele não ajudou em nada. Ela teve os pontos inflamados, e ele não ajudou, a neném chorava no berço e por ele, morria. Eu, com sete anos ajudava, pegando e tirando do berço, ajudando a troçar fraldas, dar banho, até minha avó, que estava assistindo o meu avô, internado, poder dar apoio. Veio o carnaval e ele foi pra putaria e só voltou bem depois.
Eu não queria mais minha irmã, eu estava cansada de não dormir, cansada de pegar e tirar de berço, de trabalhar, pois a minha mãe tava com os pontos infeccionados, eu experimentei, aos sete anos, parte da exaustão que mulheres sentem no pós parto. Eu quis matar minha irmã.
Mas eu tive ódio do meu pai. Na rejeição a minha irmã, eu me senti rejeitada, afinal, eu era menina também, e o confrontei a esse respeito. Ele disse que eu havia nascido primeiro, poderia ter nascido qualquer coisa, que ele teria amado, já o seguinte tinha de ser homem, pois todo homem tem de ter um herdeiro. Eu não era herdeira como um filho homem seria? Não, pois eu não carrego o nome. Eu entendi que, para ele, eu era menos.
Naquele momento eu não me senti tendo de amar meu pai, de conquistá-lo, eu me senti decepcionada com ele.
Então eu e minha irmã éramos erradas, menores, menos merecedoras de qualquer coisa, apenas por ter nascido mulher. Minha mãe ganhava tão bem quanto ele, minhas tias paternas dele tinham a vida delas, elas não eram dependentes, elas não eram inferiores em nada. Que diabos de inferioridade é essa?
De decepcionada eu passei ao rancor.
Minha mãe enlouqueceu um pouco ali. Se sentiu incapaz de satisfazer as demandas do homem que amava, menos fêmea por não produzir um filho homem. De muitas maneiras descontou isso em mim e na minha irmã, e com o final do casamento isso piorou de várias maneiras.
Eu a desprezava por correr atrás do meu pai, por se humilhar, mesmo sem depender financeiramente dele, embora ela mentisse dizendo que dependia, por aceitar apanhar de maneira brutal até na frente das amantes dele. Quando eles se separaram eu me senti aliviada, mas ela logo casou novamente, ao invés de se reconstruir como indivíduo, e passou a atacar a mim e a minha irmã ainda mais.
Ainda assim eu nunca quis ter nascido homem. Tudo o que sei do mundo, eu sei mediado pelo meu corpo, pelas minhas sensações, pelas minhas peculiaridades, sejam confortáveis ou não. Eu não cobiço as experiências de ser homem, mas quero aumentar a amplitude dos meus vôos como mulher. E essa valorização de ser mulher, e uma mulher que pode escolher não casar, pode escolher não ter filhos, pode escolher se separar, ou se dedicar a carreira, eu agradeço as mulheres da minha família, hoje acima de 75 anos e outras octagenárias, e a minha avó paterna, que segurou as pontas da pressão social sobre as filhas.
Mas a dor de perceber que eu era desvalorizada por ser fêmea, essa eu conheci aos sete anos, essa me foi até explicada aos sete anos, como um fato, algo óbvio, que eu deveria aceitar passivamente. Essa dor não foi maior do que a raiva e o medo do mundo lá fora, ainda assim, acho que venci.
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