Varinhas, coelhos, melhores amigos




Homem tem uma relação complicada com vibrador. Gozado, né? Para eles é "consolo". Consolo de quê? Olham com uma certa suspeita a mulher hetero, desejável, que usa aparelhos para masturbação, que são, verdade seja dita, na média dos orgasmos proporcionados, mais eficientes do que eles. 

O que diabos eles farão com aquele penduricalho, tão valorizado pelo papai e pela mamãe, que "carrega" o nome da família? Ah, me poupe!O ego masculino é enorme, mas é de cristal.

Um vibrador não broxa, não enche o saco, não tem cueca pra lavar, não trai e é mais higiênico, de maneira que você não vai contrair doença venérea a partir dele (no máximo um fungo, se não limpar o troço direito). E se ficar velho, troca por um novo. Vibrador não tem ciúmes, você pode ter vários modelos, e um não vai reclamar do outro. Claro que eles não cuidam de você na hora da doença... mas a maioria esmagadora dos homens também não! (Confira os hospitais de câncer...). Também não partilham as tarefas domésticas, mas... a maioria dos homens também não; nem dividem as despesas ou "te dão um filho" - ora, e por acaso a mulher tá atrás de macho para dividir despesa ou quer filho que, no final das contas, ela é quem vai cuidar? 

Sexo é bom, com homem, mas o vibrador tem seu valor, mesmo durante uma relacionamento satisfatório, e dá até para usar junto com o parceiro, com criatividade. 

Mas se os sujeitos nascidos com genitália externa se valorizam tanto, se identificam, ou sei lá que bosta, com o tal do pinto, imagina o nó na cabeça que devem sofrer quando ouvem de uma mulher que eles não são imprescindíveis ao prazer dela, aliás, que o aparelho é até mais eficaz, tipo, produz orgasmo com mais eficácia.

É que vibrador não inutiliza o homem, o homem bacana e empenhado num relacionamento bom, que satisfaz a ambos, mentalmente, emocionalmente, e sexualmente, porém o orgasmo não depende do homem, mas da mulher. O orgasmo feminino é um mistério para o homem, e a maioria não está interessado em participar, muito menos em conhecer, e o tema é complicado pra cacete.

Do ponto de vista da masturbação e do orgasmo feminino, esse tal de vibrador está por aí desde o século XIX, e eram considerados equipamentos médicos, usados inclusive em consultórios médicos, como tratamento para os "nervos das mulheres", tratamento sério e respeitado.

Mas, claro que a sociedade patriarcal sempre arruma um jeito de sacanear a gente. Até o diabo do equipamento estava na mão do médico homem. Afinal, eles se cansavam de manipular buceta o dia inteiro, né? Aquilo não existia exatamente para a mulher, mas era um instrumento de trabalho. Assim que se torna um instrumento de prazer... fudeu, virou putaria, substituto de piroca, do macho, consolo, então tem de ser restrito, proscrito, e as mulheres que usam são vítimas de todos os pejorativos possíveis.

Quanto a siririca... gente, a genitália externa é, básicamente, uma bomba de encher pneu de bicleta: algumas bombadas e pronto. Já a gente não consegue ver a bichinha lá embaixo, demanda toque, a princípio o troço é em braille, pois você não é educada para se tocar ou se deixar ser tocada, e muitas mulheres, eu inclusive, tem problemas com a chegada ao orgasmo, perde o ritmo próxima ao clímax, e... perde o diabo do clímax. Nós demoramos mais a gozar, mas podemos ter um plateau mais longo, uma sensação de prazer mais prolongada, do que o esguicho proporciona, né? Só que vai coordenar isso? Já o vibrador... ó invenção boa da porra! 

E através dele a mulher pode aprender a se conhecer, a se reconhecer. Tira os pelos da buçanha, não para o macho, mas para si mesma, por exemplo (no meu caso, eu odeio a sensação de melecação da monstruação, então depilar é a liberdade de passar lenço, dar uma lavadinha, trocar o absorvente, e eu imediatamente me sinto numa propaganda de sabonete, limpa, livre, leve e solta!).  Bota um espelho na frente de si mesma, e brinca com o vibrador mais básico, ora, bolas!

O clitóris é maior do que aquele trocinho ali em cima que, mesmo você bancando a flanelinha, o desgraçado não consegue achar na chupada!  Ele tem sensibilidades diferentes ao redor da vulva. Aprender a contrair e relaxar o assoalho pélvico, e a vagina, também dá outras sensações.

Lamento, mas os machos da espécie não tem ereção para essa ginástica, e sexo tântrico demanda que você dê atenção ao outro, enquanto esse momento não é para o outro. O tempo da mulher com o vibrador, é dela. Não é solidão, não é falta de macho, não é infelicidade. É um tempo ótimo, diferente daquele passado com o parceiro.

Por outro lado, se o parceiro é um cara chato, que não te satisfaz como ser humano, mesmo sendo eficiente para proporcionar orgasmos, realmente, o custo benefício, pode não compensar. Se a mulher é financeiramente independente, tem amigos, vida intelectual rica, é emocionalmente estável... o homem tem de ser mais do que seu pau, pois orgasmo, apenas, não garante.

E aí chegamos a um outro benefício do vibrador: você dá ao sexo o valor que ele tem, e isso pode fazer com que você não se apaixone por piroca, não ache que fulano é o homem da sua vida, o cara que te fez mulher, te fez gozar múltiplo, que é o máximo. O príncipe não vira sapo, mas vira apenas um cara normal. Assim como biscoito, vai um, vem dezoito. Não há razão para brigar por homem, não há razão para se achar mulher através do homem, pois o prazer não está no pau do cara, nem no vibrador, na verdade, está na sua genitália, está na sua cabeça, está na mulher. O sexo ganha uma dimensão ainda importante, mas a mulher se apodera dele para si, e pode amar com lucidez.

Foda-se essa pirraça masculina, mulher é inteira. Então deixa os meninos falando besteira, merda, ofendendo, pois é o ego de cristal quebrando, diante de um outro ser humano inteiro.

E viva o vibrador, a masturbação feminina, o conhecimento do nosso corpo e da nossa sexualidade.



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