Como perder um amigo?

 Eu me deixei levar, bêbada, por um amigo mútuo meu e do meu ex-marido, quando percebi, já não sentia mais meus pés no chão. Há um nada sob eles que me agonia. Busco pernas nas quais entrelaçar as minhas e acho mãos autoritárias que as abrem, enquanto quadris pesados se encaixam nos meus.

 A penetração é dura e forte. Ele é grande, mais largo. Não sei se estou excitada, há mais confusão do que qualquer outra coisa. Sinto-o raspando minha carne quando entra em mim, e só então a umidade vem, abundante. A brincadeira acabou e só posso me mover se for para acalentá-lo dentro de mim.

 Alto, forte... a amizade se perdeu na sedução, virou silêncio e febre. Enquanto enterra o rosto no meu pescoço e nos meus cabelos, ele segura minhas mãos. Meu prazer é secundário, a saciedade é imperativa.

 Conforme o suor escorre dos nossos corpos, ele se ergue levemente e me puxa para si, quase de joelhos, e então nos movemos, em forte sincronia.

Seus olhos ficam nublados, perdidos no meu corpo. Solta uma das mãos dos meus quadris e acaricia meus seios, suavemente. Em algum lugar acho forças para me perguntar como consegue fazer isso, pois já não penso mais direito, sou só a junção de nossos corpos. O bater fundo dele dentro de mim, a enorme dilatação que me impõe, a contração que faço com força para senti-lo ainda mais e que percebo arrancar tremores dele.

 Eu gozo. Tonta, ferozmente, como se ele fosse algum animal ou um deus a me estocar a alma. Balbucio que não pare, e ele não pára. Com mais força me prega na cama, e só então se esvai em mim. Gozo de novo, junto. Ele treme suavemente, a musculatura parece cheia de espasmos pequenos, os braços cedem ao peso do corpo, e a ejaculação vem em jatos a me lavar por dentro. Posso sentir em cada canto de mim. Eu não existo. Só existe o gozo.


 O homem forte se transforma de novo no moço que conheço há tantos anos, o amante no amigo, o olhar nublado de prazer em algo triste, um tanto rancoroso, como seu eu tivesse retirado algo dele de íntimo, raro. Traindo pesar se retira de mim e deita ao meu lado fitando o teto. O suor dele exala meu perfume, e ele percebe. Leva o braço ao rosto e observa isso. Se tranca no banheiro e toma um banho completo.

 Mesmo tentando brincar há um distanciamento entre nós que não havia antes. Não consigo entender os homens. Ordenar que tirasse a roupa foi tão fácil, e tirar foi mais ainda. Mal percebi que havia ali um afeto diferente, algo que eu atropelava nas minhas vontades intempestivas, no chamar a qualquer hora do dia ou na noite, e ele sempre presente. Mais jovem do que eu, eu simplesmente passei por cima, como se houvesse apenas desejo, ereção fosse alguma coisa automática, amizade, descomplicada. E talvez fosse, se não fosse eu.  Cobrei um preço alto?

 Ao voltar ele resmunga e tenta se vestir. De joelhos na beira da cama eu brinco, meu jeitão de sempre. “Qual o problema?” Eu espero realmente uma resposta?

Com um resquício de paciência ele se aproxima e me beija, e caímos na cama de novo. Mesma fome, mas uma nova tristeza, uma nova delicadeza.

 Não me importo. Como diz a molecada na rua: perdeu, perdeu. Então que se dane. Sexo sem amor.

 Ele me ergue da felação que me parecia deliciosamente eterna. “Você parece um pouco enlouquecida”. Nem sei se estava, a verdade é que gosto e sempre gostei disso. Não me é protocolar, não é para bancar a gostosa ou para o prazer dele, talvez seja até uma coisa bem egoísta minha.  Não há entrega, mas sim tomar dele o quanto posso, como um eco da primeira vez em que fiz isso, da primeira vez em que me permiti experimentar, explorar, saber como meus lábios adormecem e depois ficam extremamente sensíveis, formigando a qualquer toque, a língua ágil, ansiosa por um paladar específico que o gozo dele por si atrapalha.

 Uma urgência de derrame e ele me coloca de bruços, um travesseiro sob meu ventre, e eu entendo o que quer. Reluto a princípio. É grande e se sou apertada na frente, por trás sou ainda mais. Lambidas, dedos, carícias, lubrificação. A penetração é por demais dolorosa. Gemo de dor e ele de prazer. Tentamos de novo. Agora quem quer sou eu, mas terá de gozar rápido. É tão delicado, que a dor apesar de imensa, é prazeirosa, o movimento sutil, suave, que permite o gozo, em nada me fere. Não quero que me masturbe, quero o gozo de dentro, da posse completa. Se ergue indo mais fundo e nem por isso é bruto de maneira nenhuma. Desliza a mão do meu traseiro ao meu pescoço, me afundando mais na cama, e mais empinada fico... Como ser tão autoritário sem dar uma ordem se quer? Sem nada pedir, sendo suave o tempo inteiro? Mera sintonia de vontades?



 O que parece pouco dura horas de exploração mútua, horas de conhecer as sutilezas do prazer dele. O meu ainda oculto. O meu ainda um bocado protegido.

 Não quero o mundo, não quero o tempo, não quero mais amar. Nada mais de mágoas. Já vibrei com prazeres mais profundos, que tocaram minha alma, mas me cobraram um preço altíssimo. Que o momento se esgotasse em si, eu disse a ele. Se sentiu usado creio eu. Errei, perdi o amigo. E só isso me entristece.

 

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