Meu amigo D,
Numa das raras vezes em que conversei com meu pai depois da separação
dele e da minha mãe, ele pegou algumas fotos de mim quando criança e colocou em
seqüência cronológica. Eram poucas fotos, pois ele rasgou ou queimou quase
todas depois que fomos embora. Ele me disse que eu era uma criança que, apesar
da bronquite, sorria muito facilmente, que eu era inteligente, esperta,
brincalhona, mas que de um dia para o outro eu parei de rir.
Ele estava certo e eu lembro quando aconteceu. Foi quando eu
comecei a vê-lo espancar minha mãe, (a amante dele estava na porta da nossa
casa) ele começou a me bater muito, e o que havia de pior numa relação familiar
fez parte da minha realidade. Antes disso, mesmo as maldades da minha família
não me afetavam tanto. Eu fui brutalizada pela vida.
O que ele não percebeu foi que a menina risonha e
brincalhona se escondeu dentro de mim. Eu era inteligente o bastante para criar
outros recursos. Dentre eles a minha fértil imaginação, a minha capacidade de
leitura e percepção do mundo...
Eu cresci para dentro muito antes do que para fora. Mas o
fiz torta, como podia.
Uma das pessoas mais importantes da minha vida foi um
ex-namorado que tive. Me ajudou a resgatar uma parte de mim que eu mesma
sufocava que é a minha sexualidade. Através dele eu me assumo hoje um ser
visceralmente sexual. Não que ele tenha criado isso em mim, ele apenas me
ajudou a liberar certas prisões que eu tinha.
Desde que aprendi a ler, e olha que me alfabetizei sozinha,
eu leio material erótico. Exatamente, leio pornografia. De Cassandra Rios, a
livretos pornôs rapinados das empregadas domésticas do conjunto habitacional,
ao Fórum da Ele e Ela, soft porn, e o que você imaginar, sem contar os
clássicos do erotismo! Eu não tinha
exatamente idéia sobre o que era sexo, para que era, mas sabia que era bom,
sabia que era relacionado aos órgãos genitais, que muito se falava e fazia mas
não se devia falar e fazer em público, e que meninos e meninas faziam.
Masturbação é natural em crianças e é claro que eu me
masturbava, e com cinco anos para seis ficava me masturbando com um amiguinho
da minha idade escondida na escada do prédio da minha avó, ou com amiguinhas.
Lesbianismo era algo que eu não entendia, e eu preferia meninos. Esse negócio
de roçar pintinho era muito bom! Meninos eram mais interessantes apesar de
muito faladores.
Duchas de chuveiros... banheiras... desde pequena. A minha erotização da infância, como diz meu amigo Peter
Pan, existe porque a Sininho aqui, era uma criança que tinha uma visão de mundo
erotizada. E não há outra explicação.
Ao introjetar valores morais da minha avó essas coisas se
tornaram muito contraditórias para mim, e ao mesmo tempo eu me sentia feia
demais, e como uma pessoa erotizada demais eu era, e sou, amante da beleza. Foi
um tormento para mim.
O que não me impediu de explorar o sexo, e de gostar de
sexo, apesar de não me permitir gozar e de me envolver com pessoas que nunca
tiveram um terço da minha fome de experiência. Não falo de experiência como promiscuidade, mas de sensação
física, de exploração das possibilidades físicas e na minha opinião isso pode
ser feito até numa relação estável.
O final do meu casamento, representou essa
libertação, um ponto de ruptura com tudo da minha vida.
Casamento, valores, pudores, rompi com meu sonho
de família feliz e normal pelo qual eu lutava com unhas e dentes e pelo qual eu
até apanhei. Estava em crise da bipolaridade, oscilando furiosamente sem parar
e acho que tomei algumas das piores decisões que poderia ter tomado na minha
vida. Incluindo ficar com aquele homem.
Até aquele momento ele foi o melhor sexo da minha vida, e o
meu grande amor, tão grande que se tornou dificílimo abrir mão de alguém que
significa tanto. Mas acredito ter ido além. Como eu disse no meu blogue, eu me
tornei um ser despersonalizado para ele, e isso eu aprendi a não admitir.
Quando sexo é só meter e ainda assim o cara já não tem mais aquela puta ereção,
é melhor repensar o sexo. Ou é para duas pessoas ou é para ninguém... De jeito nenhum.
Cada vez mais percebo que meus limites são latos, amplos. Há
coisas que eu não quero que façam comigo, mas não tenho problemas de impingir
aos outros se me pedem. Vou relaxando com questões relativas ao prazer. Quer
que urine ou defeque sobre você? Sem problemas! Quer massagem prostática? Eu
aprendo. Sonhas ser enrabado? Na verdade eu tenho o sonho secreto de possuir um
homem com um vibrador, então podemos providenciar. Quer se exibir para outros
casais? Oba! Me ver com outro homem? Podemos pensar... só não me peça para lhe
permitir outra mulher! Eu tendo a olhar
as coisas com reticências... cumplicidade... como uma grande brincadeira entre
pessoas que se amam e que querem entender uma a outra, dar prazer, se comunicar
através do prazer.

Mas para mim as práticas não valem de nada se não houver um
olhar diferente, uma demora no toque, cheiro, língua, paladar, enfim, se não
for uma experiência da existência do parceiro nesse mundo, se não for vida, e
não apenas exercício de meter e esporrar.
Por isso é também muito amor, é uma expressão afetiva
fundamental.
Sou uma doida que se sente um pouco Lori Lamby, imaginando
como é um prazer adulto, um tesão infantil e sempre um pouco pedófilo pois está
sempre se descobrindo. Não sabe como é, então imagina, e é a sua imaginação que
incomoda e seduz. Eu teria sido a vítima perfeita de um pedófilo! Como sou a
parceira perfeita do homem que ainda estou por encontrar, que queira a aventura
de uma vida inteira.
Afinal, eu amo poder falar sobre o que não se fala e não se
faz, rir sobre o inconfessável e não ter vergonha nenhuma. Não é bom poder
dividir um olhar risonho e cúmplice? É o meu jeito de brincar com coisas um
pouco mais sérias e destituí-las de poder.
Sempre quis um parceiro para olhar o céu, falar bobagens,
pensar coisas diferentes, andar por aí, ou não fazer nada, alguém para ficar ao
meu lado nas brigas, e brigar comigo também, para fazer amor como se isso fosse
uma arte de viver e o mais puro dos divertimentos, e dividir momentos difíceis
e fáceis. É o sonho de qualquer pessoa solitária, e para mim ainda mais
difícil, já que a mediocridade passou longe de mim desde o minuto em que eu
nasci!
Lori ou Juliette, às vezes um bocado Justine (que sempre
acaba fodida, literalmente!), com momentos da Vênus de Sacher... minhas
princesas nunca chegaram perto dos estúdios Disney! Sininho hás
lost her hope, and boys don´t believe in fairies no more… will she die? Acho que sim, acho que assim como parei de sorrir em algum
ponto da minha infância, está chegando o momento em que eu não irei mais sorrir
por dentro. A gente cansa.
Enquanto isso, penso que posso ser como uma menina esperando
ser educada sobre o prazer, me colocando aberta para toques diferentes, ou uma
adolescente sobre um pênis que me abre as carnes no aprendizado dessa doce
integração, então uma mulher que se recria diariamente em múltiplos papéis
inclusive afetivos.
Porque temos de ser uma coisa ou outra? Eu me sinto tantas
vezes todas essas coisas ao mesmo tempo! Uma pluralidade intensa, densa e
passional. Talvez eu seja dodói...
Queria então ter nascido bonita, como uma expressão física
clara e evidente disso que eu considero tão maravilhoso. Além do quê a beleza é
um atributo que facilita muito a vida de qualquer um, e das mulheres
principalmente... não sejamos hipócritas, certo?
Ainda bem que a pele, maior órgão do corpo humano, sente do
mesmo jeito, os olhos tem a mesma capacidade de ver, o potencial de sentir está
ali. Talvez as pessoas sintam de maneira diferente até, mas o potencial é
sempre o mesmo.
Eu cresci muito cedo para dentro, com um olhar que não se
acanhou de se dirigir para fora, para o mundo e para os outros. Nunca deixei de
interrogar sobre a natureza do desejo do meu outro, ainda que a natureza humana
e psicologismos não fossem exatamente o meu interesse. É o que jaz nas veias de
quem está ao meu lado, aquela individualidade, a centelha única que me excita.
Aquele mundo perfeito em sua singularidade.
Somos cada um de nós, animais em extinção certa e
inexorável! Procriamos na inconsciente tentativa de burlar esse fato brutal.
Quando vejo as pessoas ao meu redor, eu vejo universos inteiros que nascem e
morrem, e acho fascinante. O que é o sexo e o amor senão a comunhão entre esses
mundos, o esbarrar de planetas, sensações que afetam, quem sabe, cursos de
vidas tão singulares?
Somos céu brilhante e pipas voando soltas em domingos de
sol. Somos vento forte em dias de tempestade. Somos o que fica e o que é
passageiro. Simples poeira que explode em orgasmos.
Eis como eu enxergo o prazer de viver: na comida que você
faz, nas coisas que eu faço, nos castelos de princesa, em pontes e mil ciências
humanas, nos poemas, nos compêndios, nas finanças, no que quer seja... prazer
se houver prazer.
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