Capítulos 11 ao 14
Capítulo XI — Florescerndo
"Mago Phil, é?". O rapaz a minha
frente zombou. "E ainda me acusou de ser invertido!"
Por sorte a senhorinha me acolheu em sua
casa, a qual fazia de estalagem, e me ajudou a me livrar das roupas manchadas
de sangue. Ouvi pacientemente as orientações dela quanto às minhas “primeiras
flores”: não foi surpresa alguma que boa parte consistisse nas mesmas crendices
que as mulheres de gerações pretéritas cultivavam, no entanto algumas outras
coisas eram úteis, como os tipos de absorvente e os cuidados possíveis, bem
como alguns remédios caseiros para as cólicas. Ah, a rotina da mulher em seus anos
reprodutivos! Sexo é bom, mas o risco da gestação é o inferno
O rapaz continuava a tagarelar. "Ned
me disse que talvez você seja a menina Cassel que desapareceu há alguns dias...
Você é filha do Conde Cassel, não é?"
"Sou, sim, Sir Farsante... por favor, não
conte a ninguém", respondi, baixinho, afetando um tom confessional.
"Tarde demais. Ned te reconheceu. E
Ted foi ao castelo de seu pai antes mesmo de partirmos para a caçada. Fui tolo
em jamais imaginar que uma menina pudesse ser tão poderosa assim." Ned,
Ted... ele falava e eu pensando que aquela gente não tinha criatividade alguma
para apelidos.
"Então você realmente gosta de
meninos, é isso?" Sem nada para fazer até que os criados do meu pai
chegassem, não perdi a chance da piada. "E quem são Ted e Ned,
afinal?"
"São soldados antigos do meu pai,
designados para me escoltar. E sim, você acertou: sou apenas um escudeiro de
baixa nobreza. Feliz agora?" Sabendo quem eu era, o jovem Elton já
segurava mais as mãos, e eu discretamente percebia ele torcendo os dedos.
Sempre soube que não era bela, e nada
melhor do que uma moça mediana ou feia para analisar a beleza alheia. É como se
o que nos falta, ou nos é desgraçadamente abundante, por exemplo, a feiúra,
aguçasse os nossos sentidos e pudéssemos observar mais atentamente a beleza dos
outros.
Sir Farsante não era feio, apenas
padecia de uma aparência absolutamente mediana, tão mediana que seria
impossível para ele se destacar: nascera naturalmente camuflado na multidão.
Longe de possuir o exotismo do Lorde Miúra, a beleza máscula do Lorde Clermont,
ou a suavidade masculina sensual de seu irmão Paul, Sir Elton tinha um rosto de
traços comuns na região, cabelos e olhos castanhos, quase marrons, o corpo
magro, compatível com o de um rapaz de dezoito anos que, sem ter passado fome,
também não viveu na mais plena fartura, e tinha um sorriso largo, branco e
honesto. Fosse ele um pouco mais vaidoso, poderia ter algum charme, talvez essa
luz branda, despretensiosa.
"Sir Farsante..."
"Maga Phill... toda-poderosa, mas sem
pontaria" — rebateu ele, com ironia.
A troca de farpas foi interrompida pela
chegada da carruagem de Cassel. Paul irrompeu pela porta da estalagem, os olhos
chamejantes de cólera. Ao me ver com o jovem escudeiro sentado ao lado da irmã,
sorrindo e trocando brincadeiras, ele logo crispou os punhos e se colocou entre
nós dois. Não entendi como ele estava ali, pois ele devia estar em Áurea Lux,
terminando o segundo ano da Academia Real de Magia.
"Phillipa, conversaremos sobre isso em
casa" declarou, autoritário.
Ele ordenou que uma das moças da vila me
ajudasse a subir na carruagem e passou a dar instruções aos soldados e aldeões.
A maioria dos camponeses era analfabeta, e mesmo os soldados mal sabiam ler.
Coube a Sir Oliver Elton redigir um relatório detalhado do ocorrido para enviar
ao castelo.
"Sir Elton Farsante" Cochichei,
chamando a atenção do meu parceiro de aventura, e lhe entreguei um lenço com
algumas pedras de mana goblin. "Aqui está sua parte. Deve valer algumas
moedas."
O rapaz sorriu com timidez ao aceitar o
presente.
No interior da carruagem, apenas os dois
irmãos. Paul me observava com cuidado: o cabelo curto, as roupas masculinas, a
expressão exausta, eu devia estar um lixo.
"O que você fez com o cabelo?"
"Cortei. E daí? Vai crescer de
novo."; Não sei porque respondi assim. Algumas vezes parece que meu corpo
e minha idade cronológica, a Phillipa Cassel real, se insinuam e se misturam a
pessoa sem nome, de meia idade que encarnou, e fico vulnerável.
"Você deve ter ficado apavorada com
aqueles goblins... eu mesmo nunca enfrentei um. Você está bem? Quando o pai
disse que você havia sumido, eu quase enlouqueci. Antecipei meus exames e
voltei o mais rápido que pude..."
Ele me envolveu com um dos braços. O
cheiro de sangue goblin ainda impregnava meus cabelo e a minha pele e fique
constrangida. Também estava menstruada. Por outro lado, Paul me tratava como
nunca fui tratada pelas minhas irmãs, e como nem o meu pai me tratava, naquele
mundo.
"Tive medo, sim... e raiva. Mas
também senti alegria. Uma excitação estranha... vontade de caçar mais. De matar
mais. De continuar lutando." — As lágrimas desceram sem cerimônia, e
repousei a cabeça contra o peito dele.
O coração de Paul pulsava firme, como um
tambor antigo ecoando por entre as muralhas do mundo. Ao som daquele ritmo
sereno, adormeci.
Marcus Cassel e Dennis Roster haviam
iniciado uma busca silenciosa pela jovem fugitiva. Os soldados do Forte de
Mudwater contaram sobre um certo “Mago Phil”, que havia exterminado goblins. A
descrição do rosto do rapaz — e de sua magia — foi suficiente para
convencê-los: tratava-se de Phillipa Cassel.
Paul partiu direto do portal em Ilia
para buscar-me naquele vilarejo esquecido, e, quando retornamos ao castelo,
todos ficaram estarrecidos com a minha aparência. Eu estava abatida, olheiras
profundas, os traços endurecidos por experiências além da infância. Ainda
assim, lancei um pequeno alforje sobre a mesa do meu pai, contendo uma dúzia de
cristais de mana goblin, e declarei, com a voz mais firme que consegui:
“Ou me deixam treinar como maga de
combate… ou me matem agora. Porque, se não for do meu jeito, fugirei outra vez
até aperfeiçoar minha magia.”
*
A antiga ama de Phillipa levou até o
conde a notícia de que a menina havia sangrado pela primeira vez — agora era,
aos olhos do mundo, uma donzela.
“Já?” — Marcus balbuciou, surpreso.
“Ainda levará alguns anos até atingir a
idade núbil, Marcus” respondeu Roster,
sorvendo um chá escuro e forte.
“Ela me lembra minha irmã… quando voltou
pra casa, depois de tudo. Mia nunca teve treinamento digno, e escolheu fugir. Ela
é realmente a cópia de minha irmã e de meu avô, como dizem, quem sai aos seus,
não degenera…” A voz de Marcus trai mais do que frustração, trai inveja e
rancor. Se eu tivesse sido o bastante ´para Mia... não, ela era grande demais
para não ser protagonista da própria vida. Eu preciso fazer com que Marcus veja
a realidade.
“O ataque dos goblins, meu lorde, foi o
primeiro em quase uma década. E recebemos relatos de outras aparições de
monstros ao norte. O império precisará se preparar. Esse fluxo pequeno, porém
constante de nortistas que observamos por aqui, certamente vai se intensificar”
“E se treinarmos os dois aqui? Paul e
Phillipa. Contratamos tutores, deixamos que estudem juntos sob nossa
supervisão. Paul herdará este castelo… e quanto a Lipa, bem, pensaremos depois.
Por ora, vamos permitir esse capricho. Precisamos de magos poderosos por estas
terras.” Dennis ouviu com cuidado a sugestão do Conde, irmão mais jovem da
mulher que ele mais amou na vida, filho de seu padrinho, e concluiu que as
dezenas de cartas que ele ajudou Paul a escrever estavam surtindo efeito. Paul
estava infeliz na capital, afinal, a vida da baixa nobreza e dos nobres sem
dinheiro é dura.
“Nós, velhotes, já não somos grandes
magos, de fato…” Marcus é tão fútil! O que gastou para manter o filho na
capital, nós poderíamos ter investido aqui! “Procurarei os tutores, tenho
certeza que alguns serão úteis ao condado” Às vezes me pergunto se não teria
sido melhor eu ter adotado a menina ao invés do Tio. A vida, afinal, era feita
de arrependimentos.
*
Naquela mesma noite, Paul entrou
silenciosamente no quarto de Phillipa — um hábito antigo. Desta vez, trazia uma
bolsa de água quente para aliviar suas cólicas. Deitaram-se sob os cobertores,
como tantas vezes no passado. Mas agora, o pescoço dela exalava um aroma floral
suave, recém-banhado. Ela se remexia inquieta, talvez tomada por um pesadelo.
Ele a envolveu em seus braços e sussurrou uma antiga canção de ninar. Adormeceu
também — até acordar, no meio da noite, com uma ereção indesejada.
Seu braço repousava sobre o peito da
irmã. Ao mover-se, sentiu sob seus dedos os brotos de seios que cresciam. As
curvas do corpo que ele abraçava já não eram as mesmas da infância. E, de
súbito, sentiu-se envergonhado. Por que… por que reagia assim?
O que ele está fazendo? Isso é uma
ereção? Não é nada demais, é natural, afinal, somos adolescentes. Eu devo pedir
para parar de dormir comigo. Por outro lado, não é só o coração dele que está
batendo mais forte. A mão dele, quando esbarrou no meu peito... que inferno!
Ele se virou para o outro lado!
Ela não é minha irmã de sangue, eu sei
disso há muito tempo, é minha prima. Mas isso não torna a situação aceitável.
Phillipa não sabia da verdade, e haviam crescido como irmãos. Mesmo na, Capital por mais que admirasse mulheres —
especialmente as mais velhas —, era a lembrança da irmã que lhe aquecia as
noites mais frias.
Virou-se de costas, atormentado. Naquela
madrugada, Paul entendeu algo que tentava negar: nem ele, nem Phillipa, eram
mais crianças.
Sim, ele se virou. Mas eu posso
abraça-lo. E o abracei, sentindo o cheiro do sabonete de ervas que as criadas
fazem, que o deixam tão cheiroso. Ele está ficando com barba e se tornando um
rapaz bonito.
E não seria a última noite que
compartilhariam aquele leito. Mas foi a primeira em que reconheceu que ambos
haviam mudado.
*
Decidido, Paul recusou-se a retornar à
Academia Real de Magia. Permaneceu no castelo, recebendo a mesma educação que
Phillipa. Considerando os rumores que chegavam do Norte do Império, fora a
decisão mais sensata.
Ele ajudaria o mestre Roster a juntar
talentos e trazer para Cassel e arredores, novos tutores, mentores, e pessoas
que queiram oportunidades de crescimento profissional. Ao invés de cobrar
impostos, como uma vez Lipa, sugerira, ofereceriam uma parceria de
investimento, que poderiam pagar depois, negociando caso a caso.
Por outro lado, a vida dele na academia
estava longe de ser maravilhosa, pois ele pertencia a uma camada da nobreza
cinzenta, que tinha nome e algumas terras, porém não possuía uma fortuna tão
grande quanto a de alguns meros barões,
ou um título tão alto que valesse por si só. Era um estudante aplicado, e
realmente talentoso, em inteligência, mana e magia, entretanto, isso não era o
suficiente.
Fora da academia ele socializava com
aqueles que tinham talento de sobra, e dinheiro de menos, alguns tinham tino
empreendedor, e todos uma enorme vontade de viver e fazer diferença no mundo. A
cidade era excitante, com seu lado aristocrático extremamente rico e opulento,
museus, teatros, lojas e galerias caras, ruas limpas e seguras, bairros de
classe burguesa bem arrumados, e uma periferia que ia do apenas pobre ao
miserável, porém cheio de vida, parecendo nunca dormir.
Ao contrário de Cassel, a Capital ficava
próxima do mar, e a culinária era refletia essa proximidade, bem como a
variedade de tipos físicos que o porto próximo trazia. Essa encruzilhada de
cores, sabores, classes sociais e idéias também era fonte de notícias, e Paul
soube de surtos de monstros acontecendo em todo o império, e especialmente no
norte, acima do pescoço do continente.
Se não segurassem a garganta do império,
a infestação iria piorar para o sul, ele deduziu, e se perguntou por que o
imperador não tomava providências. A notícia da fuga da irmã foi o que faltava
para ele decidir tomar a dianteira e proteger a ela e aos seus. Ele não iria
maldizer o destino, não, ele era um Cassel, ele daria um jeito de tomar o
destino em suas mãos.
Capítulo XII — Crescendo Rápido
Paul e Phillipa iniciaram um rigoroso
programa de treinamento prático logo após o degelo. Foi ideia da jovem
fortalecer o povo comum para que pudessem, ao menos em parte, enfrentar as
ameaças monstruosas por si mesmos. As semanas que passou a cavalo, visitando
vilarejos, povoados e fazendas, revelaram-lhe inúmeros problemas urgentes em
sua região.
Compreendeu que a vasta maioria da
população era analfabeta, sem qualquer noção de higiene básica. Boticários e
curandeiros eram raros, e tanto as aldeias quanto as fortalezas eram mal
administradas. As terras, mal aproveitadas, tinham potencial para produzir mais
e fomentar o comércio local.
Paul sugeriu trazer gente da capital:
ex-alunos da Academia que não conseguiram se formar, ou filhos terceiros da
baixa nobreza — homens sem herança nem perspectivas nas engrenagens da alta
sociedade. Dariam a esses rejeitados a chance de servir e prosperar no condado.
“Devemos fazer o melhor com os poucos talentos que pudermos reunir”, propôs o
futuro Conde.
“Nós, das regiões mais remotas, temos
desconfiança de forasteiros...” advertiu o mordomo, cauteloso.
“Todo mundo é forasteiro em algum lugar,
um dia” respondeu Paul, firme.
Phillipa suspeitava que a experiência de
seu irmão na capital não fora das melhores. Conhecia o universo de Guerras
Arcanas — a Academia transbordava arrogância, humilhação e exclusão. Os
Cassel possuíam apenas um condado mediano e um nome ancestral: não havia ouro
suficiente para garantir respeito entre as famílias que orbitavam os Reais.
Talvez fosse a visão daqueles dois
irmãos treinando juntos, ou a disciplina com que se dedicavam ao povo, mas logo
passaram a ser chamados de As Duas Raposas da Casa Cassel — em homenagem
à raposa gravada no brasão da família, astuta o bastante para alcançar as uvas
mais altas.
No ano seguinte, os ataques de monstros
no norte se intensificaram — quanto mais próximo do deserto, pior. No ciclo
seguinte, o padrão se agravou ainda mais.
Ainda assim, as raposas conseguiram
melhorar significativamente as condições do condado e conter os surtos de
criaturas.
Os esquadrões treinados no Castelo
Cassel se comportavam como mercenários caçadores, buscando efetividade e saque
às carcaças de monstros. Tanto Paul quanto Phillipa desenvolveram feitiços
próprios, além de combinações e evoluções de feitiços já conhecidos, que eram
letais, ainda que alguns pudessem ser bastante violentos, a contar com a infame
bolha de pressão reversa da Raposa, o feitiço de vento que fazia com que os
órgãos da vítima fossem sugados para fora por quaisquer orifícios com uma
velocidade e violência tão grandes que a morte era instantânea... e bem feia de
se ver.
Paul desenvolveu combinações letais de
água e terra, e, não obstante não ser um conjurador natural, aprendeu a lançar
feitiços assim como a irmã, e sua marca registrada era paralisar o corpo dos
monstros, localizando e arrancando os seus cristais de essência de mana. Quanto
mais mana ele conseguia manipular, mais monstros ele conseguia matar, ou
monstros mais fortes.
Os dois não apenas lutavam com a
ferocidade e brutalidade de mercenários, mas falavam e se comportavam como
tais, e isso era pior para Phillipa aos olhos do pai e do padrinho, pois Roster
tinha esse papel, na prática. Lipa era dura, agressiva, falava palavrões de
fazer corar um soldado de infantaria, e não parecia ter medo de nada. Que homem
haveria de querê-la como esposa e mãe de seus filhos?
Paul não se importava com as aulas de
etiqueta, porém o descaso da moça era um desserviço que ela fazia a si mesma
para o futuro. Que moça não se importa com vestidos, romances, doces e chá com
as amigas? Que jovem não sonha com um casamento feliz? Fora o gosto por
perfumes e cuidado pessoal, Lipa adquiriu uma coleção bizarra de jóias feitas a
partir de pedras de essências de monstros, cuja lapidação foi concebida por um
alquimista vindo da capital, mais precisamente, um ex bolsista da academia,
mago de terra, com intensa mana, obcecado por alquimia. Os dois se tornaram
amigos a partir do prazer em descobrir novos materiais.
Até os amigos dela eram os estranhos e
enjeitados, como o professor de botânica que se encantou pela idéia de Paul, de
estufas para plantas de mana, e que viajou ao norte infestado de monstros para
resgatar alguns espécimes. Isso quando
ainda era possível ir até Sollis.
Phillipa tinha quinze anos quando viu as
levas de refugiados das províncias mais ao norte crescerem drasticamente, o que
a convenceu de que havia uma fenda mágica em algum lugar, provocando aquele
caos.
Estufas com plantas de mana passaram a fornecer matéria-prima
para os boticários de toda a província, não apenas de Cassel. As fortalezas
antigas foram reformadas, comportando celeiros e estábulos maiores, assim como
alojamentos para abrigar pessoas durante o inverno. Vilarejos com qualquer
vestígio de talento mágico passaram a receber treinamento rudimentar. Aqueles
foram os três anos mais intensos da vida de Phillipa — e os mais
recompensadores.
Ela finalmente conheceu as famosas
bestas de mana — versões mágicas de animais. Não eram aliadas dos humanos, mas
se opunham ferozmente aos monstros, atacando-os sempre que invadiam seus
territórios. Aprendeu, da pior forma, que algumas eram tão perigosas quanto os
próprios demônios. Ainda assim, raramente se aproximavam dos humanos.
Era a donzela que raramente usava
vestidos, que treinava com os cavaleiros e estudava magia. Estava vivendo seu
sonho. Mal pensava nos lordes Miura e Clermont — afinal, conhecera-os quando
ainda era uma criança.
Sir Oliver Elton era o quarto filho de
Sir James Elton, cavaleiro vassalo do Conde Cassel e senhor de Mudwater Keep,
ou Forte Mudwater. Filho bastardo de uma seguidora de acampamento, fora criado
por Lady Elton e fazia de tudo para conquistar um lugar digno ao lado do fogo
da lareira. Infelizmente, nada nunca era o bastante, e ele acabou crescendo
entre os moleques da cidadezinha em volta do forte, mal vestido, mal educado,
embora bem alimentado de comida e sonhos de um dia desaparecer no mundo como um
cavaleiro ou, na pior das hipóteses, um mercenário.
Sir Oliver “Farsante” Elton decidiu
juntar-se aos cavaleiros da Casa Cassel após a caçada improvisada aos goblins.
A mocinha, pouco mais que uma criança, de cabelos curtos, olhar determinado, e
uma beleza forte o atraiu mais do que o mundo distante das terras da Garganta,
e no ano seguinte reuniu o pouco que tinha e pediu a Lorde Marcus para
juntar-se aos soldados da Casa. Sabia ler e escrever, possuía alguma magia
elemental e desejava conquistar um nome nas incursões e batalhas.
Sentiu-se honrado ao rever Lady
Phillipa! Ela crescia depressa, tornando-se uma jovem formosa e uma maga
formidável. Tinha certeza de que ao lado das Raposas de Cassel, ele próprio se
tornaria mais forte. Viu com seus próprios olhos como ajudaram seu pai a
restaurar o castelo e expandir suas estruturas, usando apenas recursos locais.
Envergonhou-se pelo fato de tão poucos jovens se oferecerem para a vida
militar.
Oliver nunca herdaria nada — então por
que não seguir uma vida de aventura?
Uma vida que lhe permitisse ver de perto
uma garota que usava calças e jaquetas de couro sobre túnicas de montaria, que
dispensava adornos e maquiagem, e que andava de cabelos presos em rabo de
cavalo ou coque, mergulhada em livros quando não treinava magia ou trabalhava
com o pai, o irmão ou os homens recém-chegados do sul.
Ela não se importava com seu toque — ao
contrário das outras damas — e sua indiferença aos pudores da nobreza
escandalizava muitos dos fidalgos que vinham negociar com os Cassel. Para ele,
a moça voluntariosa, corajosa como um guerreiro, terrível como o mago mais
lendário, e inteligente como um sábio do templo, era fonte de emoções
conflitantes, que ele não sabia definir. Ora se sentia constrangido diante
dela, ora sentia raiva, frequentemente se flagrava sentindo carinho, e, pior
desejo.
No ano em que completou quinze anos,
Elton tomou coragem.
Estavam descansando à sombra de uma
macieira, na encosta leste da torre oriental, observando Paul praticar sua
magia de Terra — ele se tornava um vanguarda respeitável — quando algum demônio
sussurrou em seu ouvido, e ele se declarou. Talvez fosse o vento fresco da
primavera. Talvez apenas loucura.
"Eu não sou um cavaleiro de verdade...
você sempre me chamou de Sir Farsante... mas, Lady Phillipa, permitiria
que eu lhe jurasse fidelidade? Minha espada, minha lealdade, minha vida?"
"Se você fosse um romântico
desesperado, como meu irmão... ou um virgem tímido, eu diria que tem uma queda
por mim, Oliver — zombou, seus olhos negros brilhando como obsidianas. — Não
precisa fazer isso, meu amigo. Confio em você com todo o meu coração."
Ela tocou-lhe o rosto, roçando de leve
os lábios com a ponta dos dedos.
"Na próxima semana, renovaremos os
sigilos de proteção. Conto contigo. E direi a Paul que passará a me acompanhar
também dentro do castelo."
Apontou para o irmão.
"Que tal praticar com ele? Ajudei você
a amplificar sua mana, não foi? Acho que você já pode enfrenta-lo."
A moça o aceitou como cavaleiro, e
aceitou seu afeto, apenas se reservou o direito de não retribuir da mesma
maneira. De qualquer maneira, ele a seguiria, e sonharia. Oliver se levantou e
ergueu seu escudo, sorrindo para Paul, que o atingiu com um feitiço de água que
o lançou longe. Ele ficaria mais forte.
Capítulo XIII – A Raposa e o Inverno
“Phillipa, o Clérigo Samson comentou
comigo que teu domínio sobre os elementos fogo e ar está impecável, e que teu
progresso com magia espiritual e luz é impressionante. Está choramingando que
você deveria deixar Cassel e seguir para o Templo Sagrado...” apesar dos
elogios, Lipa sabia que Roster sempre detestara sua própria magia espiritual.
“Agradeço, professor. Segui à risca seus
conselhos e dominei dois elementos por completo antes de me aventurar nos
demais” disse ela, curvando-se com respeito. Roster, agora com os cabelos
grisalhos e semblante cansado, parecia ter envelhecido dez anos em apenas três.
“Quer aperfeiçoar a terra e água agora,
hein?” ele estreitou os olhos, vasculhando-lhe o rosto com atenção. “ Você é
gananciosa, sua danada! Teu pai ainda não desistiu da ideia de te casar. E
agora que Paul atingiu a maioridade, ele está sondando pretendentes. O condado
está estável, se comparado ao caos do norte, mas não temos ouro: você e seu
irmão convenceram o velho a investir tudo nos projetos. Marcus quer alianças
com dotes e influência.”
“Paul atrairá boas candidatas. É jovem,
bonito, um mago poderoso e já provou ser um senhor competente” respondeu ,
desviando do assunto com habilidade.
“E você, por outro lado...” Roster
apontou para uma cadeira. “Vamos ao ponto: ainda é virgem?”
“O quê?! Claro que sim! Nem sequer
beijei alguém!” a surpresa foi tamanha
que quase caiu da cadeira.
“O apelido de “raposa” em uma mulher
gera interpretações bem vis” Ele ergueu uma sobrancelha com ar grave.
“Mentes ociosas são oficinas do diabo,
Mestre. Que fofoca infame... vou descobrir os culpados e me vingar!” E não era bravata. Ela seria perfeitamente
capaz disso. Ao mesmo tempo, Phillipa também sabia que vinha se tornando mais
confortável em sua pele adulta — e ansiosa pelos prazeres do corpo que tanto
apreciara em sua vida anterior.
“Damas nobres não devem permitir que
homens se aproximem, nem andarem junto deles, muito menos serem tocadas.”
“Quer dizer... como eu faço? Pelos
deuses! Eu treino com eles, trabalho com eles! E não seja hipócrita: as pessoas
fazem sexo. Diga a papai que eu sei que as criadas dispensadas após alguns
meses de serviço são as que prestaram favores íntimos a ele! Não sou burra.
Apenas fico feliz que o senhor seja um boticário amador competente o suficiente
para não termos meia dúzia de bastardos correndo por estes corredores!”
A expressão no rosto de Dennis era de
horror profundo. A moça convivera tanto entre adultos que atentara para os
assuntos adultos até demais, concluiu, sentindo vergonha da falta de cuidado
dele e dos outros em relação a esse detalhe da educação dela. Meninas e meninos
deviam ser criados separados, porém Marcus se recusou a se casar novamente,
preferindo uma vida solteira de prazeres silenciosa. Ora, quem o conhecia
superficialmente o tomava por um homem quieto e desinteressado, mas na
realidade várias criadas foram demitidas por terem se animado demais com a
perspectiva vã de um dia serem tomadas como esposas.
“Lady Phillipa, eu vi seu nascimento,
mas juro que você tem, no mínimo, minha idade... e uma mente mais suja que as
latrinas do castelo! Esse seu comportamento afasta os bons homens, os bons
partidos! De onde tira essas ideias?”
“Cresci sozinha aqui, vagando pelos
salões, cercada por homens. Como posso ser inocente e ingênua, se quero
proteger essa virgindade que tanto valorizam? Se fosse mesmo uma donzela doce,
já teria caído nas mãos de algum canalha.”
Após um breve duelo de olhares, Roster
cedeu. De certa maneira, ela tinha razão. Marcus e ele mesmo talvez pudessem
ser encaixados nessa categoria vasta da canalhice masculina. Uma vez solteiro
por muito tempo e acomodado em seus hábitos e prazeres, ele somente se
imaginava casado na hipótese de precisar de uma pessoa para cuidar dele na
velhice. No momento, havia assuntos mais urgentes a tratar: as notícias
sombrias vindas do norte.
Reunidos com Marcus, Paul, outros nobres
e líderes regionais — inclusive alguns barões e condes das redondezas —, Roster
leu em voz alta o relatório enviado pela coroa. Um portal havia sido localizado
nas Cordilheiras do Demônio, na fronteira com o deserto de Veridium — ou
Deserto de Pollux, como era chamado por aqueles que não reconheciam posse
imperial.
O aumento nos ataques de monstros se
devia àquele portal. Cassel situava-se numa região estratégica conhecida como o
“pescoço” ou “garganta” do continente, historicamente ocupada pelos vassalos do
“Raposa Cassel”, antigos nobres que respondiam diretamente à coroa. Agora, a
própria coroa os havia abandonado, ordenando que se defendessem sozinhos.
Vilarejos, pequenas cidades e até casas
nobres ao norte foram devastadas ou depauperadas. Em algumas localidades, apenas
herdeiros estudando na capital escaparam da extinção de suas linhagens.
Aqueles que seguiram as políticas de
Cassel ainda prosperavam, mesmo diante da seca e do perigo. Mas, se a maré
monstruosa os alcançasse, tudo estaria perdido.
A coroa, enfim, decidiu agir: enviaria
uma legião para fechar o portal e caçar monstros.
“Quem comandará essa legião, meu senhor?”
perguntou o Barão Poiret.
“Duque Donovan Sterling. A Tempestade de
Neve em pessoa” Conde Marcus respondeu, e Phillipa sentiu a tensão no ar.
Alguns convidados engoliram a risada de escárnio.
“O Grão Duque? Aquele homem vem de terras geladas. Não nego
o valor de sua casa em combate, mas o norte não é lugar para homens de neve” resmungou o mordomo Johnson.
“Há mais” — continuou Marcus, “Ele trará
mil homens, e a coroa espera que forneçamos batedores, caçadores e mantimentos.
Sim, ele trará suprimentos, mas preveem uma campanha longa.”
A mente de Phillipa disparou. A heroína
do prólogo era uma Sterling. Aquilo mudava tudo. Qual deveria ser sua decisão?
E se alterasse toda a saga de seu mundo original?
“Se esse portal realmente existe — e
existe —, ele precisa ser fechado. Todos sabemos que o frio não mata monstros.
Se escaparem de nós, chegarão ao centro do império. Temos mil homens treinados
para ceder? Claro que não. Teremos que fazer o melhor com o que temos. Ainda há
tempo para planejar. Ainda é primavera. Eles só chegarão no início do degelo,
temos um ano pela frente”. Paul, como
sempre, era sensato. Os nobres murmuraram entre si.
“Sugiro adiarmos esta reunião até
amanhã. Aproveitem nossa hospitalidade. Hoje teremos um jantar, para que
sejamos todos como família novamente” anunciou Marcus, com seu sorriso charmoso.
Naquela noite, Phillipa teve de vestir
um vestido. Todos estavam trajados com esmero, como em cenas de livros e
filmes. Sentiu-se deslocada. Lelia Poiret seguia Paul como uma sombra pegajosa
— enquanto os rapazes a evitavam como se ela fosse uma praga. Entendeu que seu
pai planejava vender o irmão em troca de um bom dote e acesso ao litoral.
Ruim em dançar, Phillipa distraiu os
convidados com truques de magia: borboletas flamejantes, chuva de luzes.
Demonstrava poder, sem revelar sua verdadeira natureza.
Quando os convidados começaram a se
embriagar, ela escapou do salão, escoltada por Oliver. O coração em tumulto — o
momento decisivo dos prequels estava se aproximando. Ela poderia escolher
qualquer caminho a partir daquele momento.
“Minha senhora?” Sir Elton segurou sua
mão no corredor escuro.“Está perturbada. Posso ajudá-la?”
“Não, Oliver. Infelizmente, não há nada
que possa fazer. Só preciso de um banho quente e descanso” Phillipa crescera,
agora com quase 1,70m, esguia e atlética, muito distante das belezas frágeis
dos romances. Ela não despertava instintos protetores. Tornara-se uma mulher
que escondia medos e fraquezas, que odiava mostrar vulnerabilidade.
“Lady Lelia vai se arrepender de vir pra
cá. Este castelo não é como a cidade, nem como os litorais. Não há festas, nem
bailes. É um lugar severo” comentou ele,
desacelerando os passos.
“Paul não gosta dela. Você acha aqui
tedioso?” Claro que, comparado à cidades grandes, a cidade de Cassel é tediosa.
“Pelo contrário! Estamos sempre
ocupados, aprendendo, criando. Fora das muralhas, a vila cresceu. Há tavernas,
lojinhas, até apresentações de bardos!” Ele cutucou o braço dela. “Você é que
nunca olha ao redor.”
Chegaram à porta de seus aposentos. Ela
se pôs na ponta dos pés e lhe deu um beijo no rosto.
“Obrigada, eu precisava ouvir isso.”
Mentiras gentis, às vezes são gostosas de ouvir.
“E, hum... você quase nunca usa vestido.
Está linda.”
“Poderia soltar o laço do espartilho?
Não alcanço, e não quero chamar uma criada. É só afrouxar. Eu cuido do resto.”
“Aqui mesmo?” Ainda bem que o corredor
era escuro, ou ela veria seu rosto em chamas.
“Não vai querer fazer isso dentro do meu
quarto, vai, Sir Atrevido?” disse, virando-se.
Ele já fizera aquilo em bordéis — abrir
corpetes —, mas Phillipa não era uma prostituta, nem uma criada apaixonada. Era
Phillipa Cassel. E ele tinha uma paixão doída por ela desde os doze anos.
Tremeu ao tocar nos laços, até que conseguiu soltá-los.
“Obrigada, Oliver. Até amanhã.”
Ela sabia o que causava nele? Era
tratada como um dos rapazes, mas todos sabiam que ela era uma mulher. Quando
ainda era plana e infantil, disfarçava. Mas agora, prestes a fazer dezesseis,
passava mais tempo entre homens que mulheres, num mundo onde damas eram
segregadas.
Claro que os soldados a observavam — e
temiam. Paul, Roster, e os tutores faziam questão de lembrar que ela era
intocável. E mais: Phillipa podia destruí-los com magia antes que chegassem
perto. Para matá-la, teriam de traí-la de muito perto. Apenas dois sabiam usar
os elementos que ela não dominava: seu irmão... e ele, Oliver, o saco de
pancadas da Raposa Jovem.
E Oliver amava cada hematoma. Cada osso
quebrado. Cada dor. Como uma oferenda sagrada.
A visita dos Poiret era uma amolação
para Paul. Viu Phillipa escapar do salão escoltada por Oliver e lutou para
conter a careta agonia. Lelia o aborrecia com suas caras e bocas, seus modos
supostamente tímidos, a mão sobre a boca quando ria, afetando acanhamento, suas
bochechas rosadas por qualquer coisa que ele dissesse.
Paul não era virgem, ele teve sua
primeira experiência carnal com uma mulher num prostíbulo da capital assim que
fez dezesseis anos. Seu pai lhe mandou dinheiro, para que reunisse alguns
amigos mais próximos e fossem beber e se fazerem homens, como seu pai lhe disse
pela esfera de comunicação. Era uma espécie de rito de passagem para os rapazes
da academia, a visita aos prostíbulos de alta classe da cidade.
Ele contou isso à Phillipa que ficou
visivelmente irritada, reclamando que ele podia ir para “puteiro” mas ela tinha
de permanecer virgem. A simples menção à virgindade dela o incomodou, pois isso
significava que outro homem a tomaria para si, eventualmente. Ainda teve de
suportar o senso de humor ácido da garota, que fazia chacota dele, dizendo “ai,
agora meu irmão virou homem...” e ria debochada.
Havia pouco mais de um ano que a relação
dos dois mudara drasticamente. Era a preparação para a geada, e já tinham
terminado a última caçada, sentindo o cansaço no corpo e na alma. Os dias
escureciam mais cedo, e o frio anunciava que a temida geada chegaria logo, a
qualquer momento, então as vilas, a cidade dentro e fora da muralha, até o
castelo, se recolheu em silêncio à espera do vento e da neblina que congelariam
o mundo.
Como faziam, desde crianças, Paul se
alojou no quarto de Phillipa, armado de comidas e bebidas, para esperar a
primeira noite de geada. Afanou cerveja da cozinha para beberem juntos, uma
amarga e escura, bem alcóolica, perfeita para a noite fria.
Enquanto Lelia falava com ele no salão,
ele lembrava, da irmã correndo de pijamas da cama até a janela, da voz dela o
chamando para ver a geada chegando. Os dois levemente alcoolizados e felizes. A
noite de geada era negra acinzentada, brilhante, e a luz dos cristais de mana
se refletiam nos cabelos e nos olhos de Phillipa.
Paul a tomou nos braços, a jogou na cama
e a prendeu sob si, ofegante.
"Paul, eu sei que você é homem, mas
você é meu irmão". Ela afastou o peito dele, séria, uma expressão confusa no
rosto de moça.
"Não sou." a respiração ofegante, o olhar fixo nos olhos dela, a assustaram.
"Não é o quê?". Phillipa riu nervosa.
"Não sou seu irmão." Não havia melhor maneira para dizer, então a verdade saiu em meio ao desejo, na quietude do inverno, como uma confissão bruta e desajeitada.
Ela o afastou e se sentou, o rosto mais
confuso ainda, tremendo.
"Então quer dizer que sou realmente
filha ilegítima? É por isso que mamãe me odiava? É por isso que papai é
distante?". Ele não podia imaginar que a mulher dentro da moça tinha criado
laços com aquelas pessoas, mas não o suficiente para se importar com questões
como legitimidade.
"Quer dizer que você é minha prima,
Phillipa. Você é filha da irmã mais velha do meu pai, Mia Cassel. Com quem, eu
não sei. Ele e mamãe te adotaram e ela morreu pouco depois de você nascer,
segundo eu investiguei. Eu sei disso há anos. Portanto, sim, eu sou homem, e
não, eu não sou seu irmão de sangue."
Ele esperava que ela gritasse, chorasse,
fosse brigar com o pai deles, mas ela apenas murmurou um palavrão e ficou um
longo tempo o olhando. Aqueles olhos escuros como dois poços sem fundo. Então
ela tirou a camisa do pijama e expôs seus seios, que ainda haviam de crescer
mais, pois era adolescente. Ficou de pé na cama, e abaixou a calça do pijama e
a jogou no chão, e se sentou na cama, defronte a ele.
Foi ela quem estendeu os braços para ele
e os envolveu em volta do seu pescoço, e ela quem o beijou, com carinho a
princípio e depois com uma lascívia que ele nunca havia imaginado possível. Ela
o ajudou a tirar a blusa e as calças, e não se intimidou diante do seu corpo de
homem, ao contrário, ela o olhou com desejo, verdadeira gula.
A pele dela era macia, a carne era
macia, ao contrário do que se imaginaria de uma moça tão ativa. Ela cheirava a
flores, a baunilha, e havia algo indólico talvez. O hálito dos dois se
misturava, saliva, suor, umidade íntima.
Ele fez menção de penetrá-la e ela o
parou.
“Não, eu ainda preciso me manter virgem,
eu acho.” A voz dela tremia de desejo, e ela pediu que ela a lambesse nas
partes íntimas. Ele hesitou, mas então abriu as pernas dela, e iluminou pra
vê-la bem de perto, queria estudar aquela moça mulher, e tatear o prazer dela.
A cada toque bem sucedido, Phillipa
gemia e se arqueava de prazer, molhada de um suco agridoce que ele sentia na
ponta da língua, escorrendo suave de seus vales íntimos. Ela colocou um
travesseiro sob as nádegas e fechou as pernas, pedindo que ele acomodasse a
verga entre as pernas dela, na racha úmida, assim, presa, ele deslizou para
frente e para trás, e a viu gozar, e ele mesmo quase gozou. No entanto, ela,
sua raposa matreira, arfante, novamente o fez se deitar, e se sentou no rosto
dele enquanto abocanhou sua verga, e o chupou de uma maneira tão devotada, que
nenhuma das putas da capital jamais fizera.
Ela engoliu seu suco, enquanto arqueava
de prazer, e ao ver o rosto dela, Paul, tonto do gozo intenso, enxergou uma
fêmea feroz, indomável, que ele amava desesperadamente. Ela tomou um gole de
cerveja e se deitou ao lado dele, os dois com o coração batendo forte.
“E agora, irmão? O que fazemos?” Ela
ainda tremia.
“Eu não sei. Sei que eu queria fazer
isso há muito tempo. Eu te amo, Phillipa”
“Seu bobo, você sempre me disse isso.”
“Agora que você sabe a maneira que eu te
amo, você pode me responder da mesma forma?”
“aham, sempre”+. E ela enfiou o nariz no
pescoço dele,
Os meses que se seguiram foram de
alegria e prazer. Eles fizeram em todos os lugarem imagináveis e inimagináveis
da propriedade, e até fora dela, assim que o tempo amornou. Eram como duas
raposas selvagens no cio, ora se acariciando e acasalando, ora trocando
mordidas, enciumados um do outro, especialmente com o retorno das patrulhas,
tanto a possessividade de Paul, como a postura íntima dos dois, passou a causar
incômodo em algumas pessoas.
A memória dos últimos meses devia ter
trazido um sorriso aos lábios de Paul, que Lelia interpretou como sendo para
algo que ela tinha dito. O jovem assentiu, e logo arrumaria um jeito de se
desvencilhar da moça, por quem ele nutria um desprezo de longa data, desde que
ela empurrou Phillipa de uma ribanceira há oito anos.
Antes que ele pudesse escapar para seu
quarto, o pai o interceptou e o levou para sua saleta.
“Filho, agora que você está noivo, é
hora de parar. Lelia é uma boa moça e será a senhora desse castelo, você deverá
respeitá-la como condessa”. Marcus tinha bebido um pouco além da conta.
“Parar com o quê? E Lelia é boa em quê?
A única mulher que eu vejo governando esse castelo ao meu lado é Phillipa, essa
sim, tem competência para isso!”
“Paul, em algum momento sua irmã vai se
casar e irá embora, e você terá de viver aqui, sozinho. Você tem sido... quero
dizer... eu tenho recebido reclamações que você e sua irmã... são muito
íntimos. É claro que eu não acredito em nada disso, afinal você é um rapaz
honrado, e ela é sua irmã.”
“Não sou”. Ele se jogou na poltrona
diante do pai e cruzou as pernas, olhando o pai diretamente nos olhos, o verde
dourado da íris, cintilando de desafio.
“Como assim? Não é o quê?”
“Não sou irmão dela, e o senhor sabe
disso melhor do que eu! Se o senhor não tivesse adotado a Phillipa, ela talvez
fosse filha de mãe solteira, mas eu não me importaria, afinal, fora o nome,
nossa Casa não tem dinheiro mesmo. Aliás, só estamos vendo nossos cofres se
enchendo por causa dela e de mim, portanto, nada mais justo do que nós
decidirmos a nossa vida.”
Marcus olhava para o filho como quem via
um estranho. Um estranho que entrara em sua casa, se apossara do corpo do seu
menino perfeito, se sentara na sua poltrona e danara a desfiar insanidades na
sua cara. Ele baixou a cabeça e massageou as têmporas, respirando fundo,
buscando calma e sabedoria para solucionar uma questão que ele jamais imaginou
que fosse enfrentar.
“Paul, eu te trato como homem adulto, te
dou autoridade e autonomia, porque, até o momento, eu julgava que você merecia.
Confiei que você imporia algum freio à sua irmã, e eu realmente errei ao fazer
isso”. Marcus sustentou o olhar do filho, se reclinando na sua cadeira “Você,
um rapaz que mal aprendeu a ser homem em casa de vida fácil, não conseguiu se
controlar diante da irmã, e isso faz de quem o indecente? Você ou ela? Não vê
que ela é quem sairá como a pilantra?
“Eu a quero, pai. Sempre quis. Nunca
escondi.”
“Então foi você quem começou? Desde
quando você sabe que não é irmão de sangue dela?”
“Desde que mamãe morreu. O senhor errou
em fazer a proposta de casamento ao barão Poiret sem me perguntar. Eu tenho
esse ano de noivado para me livrar daquela criatura insuportável.”
“E eu para casar Phillipa e tirá-la de
perto de você. Ela ainda é virgem? Um casamento com alguém que tenha título
depende de sangue.”
“O senhor está me tentando a fazer uma
besteira, pai. Eu sumo com ela no mundo, e vocês nunca mais nos acham!”
Paul se levantou bruscamente e saiu da
sala, deixando o pai atônito a se recompor, afinal, ainda tinha convidados a
entreter. Ele, por outro lado, precisava do conforto da amante, com a urgência
dos condenados.
Em meio às sombras do Castelo Cassel, aquele foi o melhor inverno da vida de Paul.

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