Capítulos 11 ao 14

 

Capítulo XI — Florescerndo

 "Mago Phil, é?". O rapaz a minha frente zombou. "E ainda me acusou de ser invertido!"

Por sorte a senhorinha me acolheu em sua casa, a qual fazia de estalagem, e me ajudou a me livrar das roupas manchadas de sangue. Ouvi pacientemente as orientações dela quanto às minhas “primeiras flores”: não foi surpresa alguma que boa parte consistisse nas mesmas crendices que as mulheres de gerações pretéritas cultivavam, no entanto algumas outras coisas eram úteis, como os tipos de absorvente e os cuidados possíveis, bem como alguns remédios caseiros para as cólicas. Ah, a rotina da mulher em seus anos reprodutivos! Sexo é bom, mas o risco da gestação é o inferno

O rapaz continuava a tagarelar. "Ned me disse que talvez você seja a menina Cassel que desapareceu há alguns dias... Você é filha do Conde Cassel, não é?"

 "Sou, sim, Sir Farsante... por favor, não conte a ninguém", respondi, baixinho, afetando um tom confessional.

"Tarde demais. Ned te reconheceu. E Ted foi ao castelo de seu pai antes mesmo de partirmos para a caçada. Fui tolo em jamais imaginar que uma menina pudesse ser tão poderosa assim." Ned, Ted... ele falava e eu pensando que aquela gente não tinha criatividade alguma para apelidos.

"Então você realmente gosta de meninos, é isso?" Sem nada para fazer até que os criados do meu pai chegassem, não perdi a chance da piada. "E quem são Ted e Ned, afinal?"

"São soldados antigos do meu pai, designados para me escoltar. E sim, você acertou: sou apenas um escudeiro de baixa nobreza. Feliz agora?" Sabendo quem eu era, o jovem Elton já segurava mais as mãos, e eu discretamente percebia ele torcendo os dedos.

Sempre soube que não era bela, e nada melhor do que uma moça mediana ou feia para analisar a beleza alheia. É como se o que nos falta, ou nos é desgraçadamente abundante, por exemplo, a feiúra, aguçasse os nossos sentidos e pudéssemos observar mais atentamente a beleza dos outros.

Sir Farsante não era feio, apenas padecia de uma aparência absolutamente mediana, tão mediana que seria impossível para ele se destacar: nascera naturalmente camuflado na multidão. Longe de possuir o exotismo do Lorde Miúra, a beleza máscula do Lorde Clermont, ou a suavidade masculina sensual de seu irmão Paul, Sir Elton tinha um rosto de traços comuns na região, cabelos e olhos castanhos, quase marrons, o corpo magro, compatível com o de um rapaz de dezoito anos que, sem ter passado fome, também não viveu na mais plena fartura, e tinha um sorriso largo, branco e honesto. Fosse ele um pouco mais vaidoso, poderia ter algum charme, talvez essa luz branda, despretensiosa.

"Sir Farsante..."

 "Maga Phill... toda-poderosa, mas sem pontaria" — rebateu ele, com ironia.

A troca de farpas foi interrompida pela chegada da carruagem de Cassel. Paul irrompeu pela porta da estalagem, os olhos chamejantes de cólera. Ao me ver com o jovem escudeiro sentado ao lado da irmã, sorrindo e trocando brincadeiras, ele logo crispou os punhos e se colocou entre nós dois. Não entendi como ele estava ali, pois ele devia estar em Áurea Lux, terminando o segundo ano da Academia Real de Magia.

 "Phillipa, conversaremos sobre isso em casa"  declarou, autoritário.

Ele ordenou que uma das moças da vila me ajudasse a subir na carruagem e passou a dar instruções aos soldados e aldeões. A maioria dos camponeses era analfabeta, e mesmo os soldados mal sabiam ler. Coube a Sir Oliver Elton redigir um relatório detalhado do ocorrido para enviar ao castelo.

 "Sir Elton Farsante" Cochichei, chamando a atenção do meu parceiro de aventura, e lhe entreguei um lenço com algumas pedras de mana goblin. "Aqui está sua parte. Deve valer algumas moedas."

O rapaz sorriu com timidez ao aceitar o presente.

No interior da carruagem, apenas os dois irmãos. Paul me observava com cuidado: o cabelo curto, as roupas masculinas, a expressão exausta, eu devia estar um lixo.

"O que você fez com o cabelo?"

"Cortei. E daí? Vai crescer de novo."; Não sei porque respondi assim. Algumas vezes parece que meu corpo e minha idade cronológica, a Phillipa Cassel real, se insinuam e se misturam a pessoa sem nome, de meia idade que encarnou, e fico vulnerável.

 "Você deve ter ficado apavorada com aqueles goblins... eu mesmo nunca enfrentei um. Você está bem? Quando o pai disse que você havia sumido, eu quase enlouqueci. Antecipei meus exames e voltei o mais rápido que pude..."

Ele me envolveu com um dos braços. O cheiro de sangue goblin ainda impregnava meus cabelo e a minha pele e fique constrangida. Também estava menstruada. Por outro lado, Paul me tratava como nunca fui tratada pelas minhas irmãs, e como nem o meu pai me tratava, naquele mundo.

"Tive medo, sim... e raiva. Mas também senti alegria. Uma excitação estranha... vontade de caçar mais. De matar mais. De continuar lutando." — As lágrimas desceram sem cerimônia, e repousei a cabeça contra o peito dele.

O coração de Paul pulsava firme, como um tambor antigo ecoando por entre as muralhas do mundo. Ao som daquele ritmo sereno, adormeci.

Marcus Cassel e Dennis Roster haviam iniciado uma busca silenciosa pela jovem fugitiva. Os soldados do Forte de Mudwater contaram sobre um certo “Mago Phil”, que havia exterminado goblins. A descrição do rosto do rapaz — e de sua magia — foi suficiente para convencê-los: tratava-se de Phillipa Cassel.

Paul partiu direto do portal em Ilia para buscar-me naquele vilarejo esquecido, e, quando retornamos ao castelo, todos ficaram estarrecidos com a minha aparência. Eu estava abatida, olheiras profundas, os traços endurecidos por experiências além da infância. Ainda assim, lancei um pequeno alforje sobre a mesa do meu pai, contendo uma dúzia de cristais de mana goblin, e declarei, com a voz mais firme que consegui:

“Ou me deixam treinar como maga de combate… ou me matem agora. Porque, se não for do meu jeito, fugirei outra vez até aperfeiçoar minha magia.”

*

A antiga ama de Phillipa levou até o conde a notícia de que a menina havia sangrado pela primeira vez — agora era, aos olhos do mundo, uma donzela.

“Já?” — Marcus balbuciou, surpreso.

“Ainda levará alguns anos até atingir a idade núbil, Marcus”  respondeu Roster, sorvendo um chá escuro e forte.

“Ela me lembra minha irmã… quando voltou pra casa, depois de tudo. Mia nunca teve treinamento digno, e escolheu fugir. Ela é realmente a cópia de minha irmã e de meu avô, como dizem, quem sai aos seus, não degenera…” A voz de Marcus trai mais do que frustração, trai inveja e rancor. Se eu tivesse sido o bastante ´para Mia... não, ela era grande demais para não ser protagonista da própria vida. Eu preciso fazer com que Marcus veja a realidade.

“O ataque dos goblins, meu lorde, foi o primeiro em quase uma década. E recebemos relatos de outras aparições de monstros ao norte. O império precisará se preparar. Esse fluxo pequeno, porém constante de nortistas que observamos por aqui, certamente vai se intensificar”

“E se treinarmos os dois aqui? Paul e Phillipa. Contratamos tutores, deixamos que estudem juntos sob nossa supervisão. Paul herdará este castelo… e quanto a Lipa, bem, pensaremos depois. Por ora, vamos permitir esse capricho. Precisamos de magos poderosos por estas terras.” Dennis ouviu com cuidado a sugestão do Conde, irmão mais jovem da mulher que ele mais amou na vida, filho de seu padrinho, e concluiu que as dezenas de cartas que ele ajudou Paul a escrever estavam surtindo efeito. Paul estava infeliz na capital, afinal, a vida da baixa nobreza e dos nobres sem dinheiro é dura.

“Nós, velhotes, já não somos grandes magos, de fato…” Marcus é tão fútil! O que gastou para manter o filho na capital, nós poderíamos ter investido aqui! “Procurarei os tutores, tenho certeza que alguns serão úteis ao condado” Às vezes me pergunto se não teria sido melhor eu ter adotado a menina ao invés do Tio. A vida, afinal, era feita de arrependimentos.

*

Naquela mesma noite, Paul entrou silenciosamente no quarto de Phillipa — um hábito antigo. Desta vez, trazia uma bolsa de água quente para aliviar suas cólicas. Deitaram-se sob os cobertores, como tantas vezes no passado. Mas agora, o pescoço dela exalava um aroma floral suave, recém-banhado. Ela se remexia inquieta, talvez tomada por um pesadelo. Ele a envolveu em seus braços e sussurrou uma antiga canção de ninar. Adormeceu também — até acordar, no meio da noite, com uma ereção indesejada.

Seu braço repousava sobre o peito da irmã. Ao mover-se, sentiu sob seus dedos os brotos de seios que cresciam. As curvas do corpo que ele abraçava já não eram as mesmas da infância. E, de súbito, sentiu-se envergonhado. Por que… por que reagia assim?

 

O que ele está fazendo? Isso é uma ereção? Não é nada demais, é natural, afinal, somos adolescentes. Eu devo pedir para parar de dormir comigo. Por outro lado, não é só o coração dele que está batendo mais forte. A mão dele, quando esbarrou no meu peito... que inferno!

Ele se virou para o outro lado!

Ela não é minha irmã de sangue, eu sei disso há muito tempo, é minha prima. Mas isso não torna a situação aceitável. Phillipa não sabia da verdade, e haviam crescido como irmãos. Mesmo na,  Capital por mais que admirasse mulheres — especialmente as mais velhas —, era a lembrança da irmã que lhe aquecia as noites mais frias.

Virou-se de costas, atormentado. Naquela madrugada, Paul entendeu algo que tentava negar: nem ele, nem Phillipa, eram mais crianças.

Sim, ele se virou. Mas eu posso abraça-lo. E o abracei, sentindo o cheiro do sabonete de ervas que as criadas fazem, que o deixam tão cheiroso. Ele está ficando com barba e se tornando um rapaz bonito.

E não seria a última noite que compartilhariam aquele leito. Mas foi a primeira em que reconheceu que ambos haviam mudado.

*

Decidido, Paul recusou-se a retornar à Academia Real de Magia. Permaneceu no castelo, recebendo a mesma educação que Phillipa. Considerando os rumores que chegavam do Norte do Império, fora a decisão mais sensata.

Ele ajudaria o mestre Roster a juntar talentos e trazer para Cassel e arredores, novos tutores, mentores, e pessoas que queiram oportunidades de crescimento profissional. Ao invés de cobrar impostos, como uma vez Lipa, sugerira, ofereceriam uma parceria de investimento, que poderiam pagar depois, negociando caso a caso.

Por outro lado, a vida dele na academia estava longe de ser maravilhosa, pois ele pertencia a uma camada da nobreza cinzenta, que tinha nome e algumas terras, porém não possuía uma fortuna tão grande quanto a de  alguns meros barões, ou um título tão alto que valesse por si só. Era um estudante aplicado, e realmente talentoso, em inteligência, mana e magia, entretanto, isso não era o suficiente.

Fora da academia ele socializava com aqueles que tinham talento de sobra, e dinheiro de menos, alguns tinham tino empreendedor, e todos uma enorme vontade de viver e fazer diferença no mundo. A cidade era excitante, com seu lado aristocrático extremamente rico e opulento, museus, teatros, lojas e galerias caras, ruas limpas e seguras, bairros de classe burguesa bem arrumados, e uma periferia que ia do apenas pobre ao miserável, porém cheio de vida, parecendo nunca dormir.

Ao contrário de Cassel, a Capital ficava próxima do mar, e a culinária era refletia essa proximidade, bem como a variedade de tipos físicos que o porto próximo trazia. Essa encruzilhada de cores, sabores, classes sociais e idéias também era fonte de notícias, e Paul soube de surtos de monstros acontecendo em todo o império, e especialmente no norte, acima do pescoço do continente.

Se não segurassem a garganta do império, a infestação iria piorar para o sul, ele deduziu, e se perguntou por que o imperador não tomava providências. A notícia da fuga da irmã foi o que faltava para ele decidir tomar a dianteira e proteger a ela e aos seus. Ele não iria maldizer o destino, não, ele era um Cassel, ele daria um jeito de tomar o destino em suas mãos.

Capítulo XII — Crescendo Rápido

Paul e Phillipa iniciaram um rigoroso programa de treinamento prático logo após o degelo. Foi ideia da jovem fortalecer o povo comum para que pudessem, ao menos em parte, enfrentar as ameaças monstruosas por si mesmos. As semanas que passou a cavalo, visitando vilarejos, povoados e fazendas, revelaram-lhe inúmeros problemas urgentes em sua região.

Compreendeu que a vasta maioria da população era analfabeta, sem qualquer noção de higiene básica. Boticários e curandeiros eram raros, e tanto as aldeias quanto as fortalezas eram mal administradas. As terras, mal aproveitadas, tinham potencial para produzir mais e fomentar o comércio local.

Paul sugeriu trazer gente da capital: ex-alunos da Academia que não conseguiram se formar, ou filhos terceiros da baixa nobreza — homens sem herança nem perspectivas nas engrenagens da alta sociedade. Dariam a esses rejeitados a chance de servir e prosperar no condado. “Devemos fazer o melhor com os poucos talentos que pudermos reunir”, propôs o futuro Conde.

“Nós, das regiões mais remotas, temos desconfiança de forasteiros...” advertiu o mordomo, cauteloso.

“Todo mundo é forasteiro em algum lugar, um dia” respondeu Paul, firme.

Phillipa suspeitava que a experiência de seu irmão na capital não fora das melhores. Conhecia o universo de Guerras Arcanas — a Academia transbordava arrogância, humilhação e exclusão. Os Cassel possuíam apenas um condado mediano e um nome ancestral: não havia ouro suficiente para garantir respeito entre as famílias que orbitavam os Reais.

Talvez fosse a visão daqueles dois irmãos treinando juntos, ou a disciplina com que se dedicavam ao povo, mas logo passaram a ser chamados de As Duas Raposas da Casa Cassel — em homenagem à raposa gravada no brasão da família, astuta o bastante para alcançar as uvas mais altas.

No ano seguinte, os ataques de monstros no norte se intensificaram — quanto mais próximo do deserto, pior. No ciclo seguinte, o padrão se agravou ainda mais.

Ainda assim, as raposas conseguiram melhorar significativamente as condições do condado e conter os surtos de criaturas.

Os esquadrões treinados no Castelo Cassel se comportavam como mercenários caçadores, buscando efetividade e saque às carcaças de monstros. Tanto Paul quanto Phillipa desenvolveram feitiços próprios, além de combinações e evoluções de feitiços já conhecidos, que eram letais, ainda que alguns pudessem ser bastante violentos, a contar com a infame bolha de pressão reversa da Raposa, o feitiço de vento que fazia com que os órgãos da vítima fossem sugados para fora por quaisquer orifícios com uma velocidade e violência tão grandes que a morte era instantânea... e bem feia de se ver.

Paul desenvolveu combinações letais de água e terra, e, não obstante não ser um conjurador natural, aprendeu a lançar feitiços assim como a irmã, e sua marca registrada era paralisar o corpo dos monstros, localizando e arrancando os seus cristais de essência de mana. Quanto mais mana ele conseguia manipular, mais monstros ele conseguia matar, ou monstros mais fortes.

Os dois não apenas lutavam com a ferocidade e brutalidade de mercenários, mas falavam e se comportavam como tais, e isso era pior para Phillipa aos olhos do pai e do padrinho, pois Roster tinha esse papel, na prática. Lipa era dura, agressiva, falava palavrões de fazer corar um soldado de infantaria, e não parecia ter medo de nada. Que homem haveria de querê-la como esposa e mãe de seus filhos?

Paul não se importava com as aulas de etiqueta, porém o descaso da moça era um desserviço que ela fazia a si mesma para o futuro. Que moça não se importa com vestidos, romances, doces e chá com as amigas? Que jovem não sonha com um casamento feliz? Fora o gosto por perfumes e cuidado pessoal, Lipa adquiriu uma coleção bizarra de jóias feitas a partir de pedras de essências de monstros, cuja lapidação foi concebida por um alquimista vindo da capital, mais precisamente, um ex bolsista da academia, mago de terra, com intensa mana, obcecado por alquimia. Os dois se tornaram amigos a partir do prazer em descobrir novos materiais.

Até os amigos dela eram os estranhos e enjeitados, como o professor de botânica que se encantou pela idéia de Paul, de estufas para plantas de mana, e que viajou ao norte infestado de monstros para resgatar alguns espécimes.  Isso quando ainda era possível ir até Sollis.

Phillipa tinha quinze anos quando viu as levas de refugiados das províncias mais ao norte crescerem drasticamente, o que a convenceu de que havia uma fenda mágica em algum lugar, provocando aquele caos.

Estufas com plantas  de mana passaram a fornecer matéria-prima para os boticários de toda a província, não apenas de Cassel. As fortalezas antigas foram reformadas, comportando celeiros e estábulos maiores, assim como alojamentos para abrigar pessoas durante o inverno. Vilarejos com qualquer vestígio de talento mágico passaram a receber treinamento rudimentar. Aqueles foram os três anos mais intensos da vida de Phillipa — e os mais recompensadores.

Ela finalmente conheceu as famosas bestas de mana — versões mágicas de animais. Não eram aliadas dos humanos, mas se opunham ferozmente aos monstros, atacando-os sempre que invadiam seus territórios. Aprendeu, da pior forma, que algumas eram tão perigosas quanto os próprios demônios. Ainda assim, raramente se aproximavam dos humanos.

Era a donzela que raramente usava vestidos, que treinava com os cavaleiros e estudava magia. Estava vivendo seu sonho. Mal pensava nos lordes Miura e Clermont — afinal, conhecera-os quando ainda era uma criança.

Sir Oliver Elton era o quarto filho de Sir James Elton, cavaleiro vassalo do Conde Cassel e senhor de Mudwater Keep, ou Forte Mudwater. Filho bastardo de uma seguidora de acampamento, fora criado por Lady Elton e fazia de tudo para conquistar um lugar digno ao lado do fogo da lareira. Infelizmente, nada nunca era o bastante, e ele acabou crescendo entre os moleques da cidadezinha em volta do forte, mal vestido, mal educado, embora bem alimentado de comida e sonhos de um dia desaparecer no mundo como um cavaleiro ou, na pior das hipóteses, um mercenário.

Sir Oliver “Farsante” Elton decidiu juntar-se aos cavaleiros da Casa Cassel após a caçada improvisada aos goblins. A mocinha, pouco mais que uma criança, de cabelos curtos, olhar determinado, e uma beleza forte o atraiu mais do que o mundo distante das terras da Garganta, e no ano seguinte reuniu o pouco que tinha e pediu a Lorde Marcus para juntar-se aos soldados da Casa. Sabia ler e escrever, possuía alguma magia elemental e desejava conquistar um nome nas incursões e batalhas.

Sentiu-se honrado ao rever Lady Phillipa! Ela crescia depressa, tornando-se uma jovem formosa e uma maga formidável. Tinha certeza de que ao lado das Raposas de Cassel, ele próprio se tornaria mais forte. Viu com seus próprios olhos como ajudaram seu pai a restaurar o castelo e expandir suas estruturas, usando apenas recursos locais. Envergonhou-se pelo fato de tão poucos jovens se oferecerem para a vida militar.

Oliver nunca herdaria nada — então por que não seguir uma vida de aventura?

Uma vida que lhe permitisse ver de perto uma garota que usava calças e jaquetas de couro sobre túnicas de montaria, que dispensava adornos e maquiagem, e que andava de cabelos presos em rabo de cavalo ou coque, mergulhada em livros quando não treinava magia ou trabalhava com o pai, o irmão ou os homens recém-chegados do sul.

Ela não se importava com seu toque — ao contrário das outras damas — e sua indiferença aos pudores da nobreza escandalizava muitos dos fidalgos que vinham negociar com os Cassel. Para ele, a moça voluntariosa, corajosa como um guerreiro, terrível como o mago mais lendário, e inteligente como um sábio do templo, era fonte de emoções conflitantes, que ele não sabia definir. Ora se sentia constrangido diante dela, ora sentia raiva, frequentemente se flagrava sentindo carinho, e, pior desejo.

No ano em que completou quinze anos, Elton tomou coragem.

Estavam descansando à sombra de uma macieira, na encosta leste da torre oriental, observando Paul praticar sua magia de Terra — ele se tornava um vanguarda respeitável — quando algum demônio sussurrou em seu ouvido, e ele se declarou. Talvez fosse o vento fresco da primavera. Talvez apenas loucura.

"Eu não sou um cavaleiro de verdade... você sempre me chamou de Sir Farsante... mas, Lady Phillipa, permitiria que eu lhe jurasse fidelidade? Minha espada, minha lealdade, minha vida?"

"Se você fosse um romântico desesperado, como meu irmão... ou um virgem tímido, eu diria que tem uma queda por mim, Oliver — zombou, seus olhos negros brilhando como obsidianas. — Não precisa fazer isso, meu amigo. Confio em você com todo o meu coração."

Ela tocou-lhe o rosto, roçando de leve os lábios com a ponta dos dedos.

"Na próxima semana, renovaremos os sigilos de proteção. Conto contigo. E direi a Paul que passará a me acompanhar também dentro do castelo."

Apontou para o irmão.

"Que tal praticar com ele? Ajudei você a amplificar sua mana, não foi? Acho que você já pode enfrenta-lo."

A moça o aceitou como cavaleiro, e aceitou seu afeto, apenas se reservou o direito de não retribuir da mesma maneira. De qualquer maneira, ele a seguiria, e sonharia. Oliver se levantou e ergueu seu escudo, sorrindo para Paul, que o atingiu com um feitiço de água que o lançou longe. Ele ficaria mais forte.


 


 

Capítulo XIII – A Raposa e o Inverno

“Phillipa, o Clérigo Samson comentou comigo que teu domínio sobre os elementos fogo e ar está impecável, e que teu progresso com magia espiritual e luz é impressionante. Está choramingando que você deveria deixar Cassel e seguir para o Templo Sagrado...” apesar dos elogios, Lipa sabia que Roster sempre detestara sua própria magia espiritual.

“Agradeço, professor. Segui à risca seus conselhos e dominei dois elementos por completo antes de me aventurar nos demais” disse ela, curvando-se com respeito. Roster, agora com os cabelos grisalhos e semblante cansado, parecia ter envelhecido dez anos em apenas três.

“Quer aperfeiçoar a terra e água agora, hein?” ele estreitou os olhos, vasculhando-lhe o rosto com atenção. “ Você é gananciosa, sua danada! Teu pai ainda não desistiu da ideia de te casar. E agora que Paul atingiu a maioridade, ele está sondando pretendentes. O condado está estável, se comparado ao caos do norte, mas não temos ouro: você e seu irmão convenceram o velho a investir tudo nos projetos. Marcus quer alianças com dotes e influência.”

“Paul atrairá boas candidatas. É jovem, bonito, um mago poderoso e já provou ser um senhor competente” respondeu , desviando do assunto com habilidade.

“E você, por outro lado...” Roster apontou para uma cadeira. “Vamos ao ponto: ainda é virgem?”

“O quê?! Claro que sim! Nem sequer beijei alguém!”  a surpresa foi tamanha que quase caiu da cadeira.

“O apelido de “raposa” em uma mulher gera interpretações bem vis” Ele ergueu uma sobrancelha com ar grave.

“Mentes ociosas são oficinas do diabo, Mestre. Que fofoca infame... vou descobrir os culpados e me vingar!”  E não era bravata. Ela seria perfeitamente capaz disso. Ao mesmo tempo, Phillipa também sabia que vinha se tornando mais confortável em sua pele adulta — e ansiosa pelos prazeres do corpo que tanto apreciara em sua vida anterior.

“Damas nobres não devem permitir que homens se aproximem, nem andarem junto deles, muito menos serem tocadas.”

“Quer dizer... como eu faço? Pelos deuses! Eu treino com eles, trabalho com eles! E não seja hipócrita: as pessoas fazem sexo. Diga a papai que eu sei que as criadas dispensadas após alguns meses de serviço são as que prestaram favores íntimos a ele! Não sou burra. Apenas fico feliz que o senhor seja um boticário amador competente o suficiente para não termos meia dúzia de bastardos correndo por estes corredores!”

A expressão no rosto de Dennis era de horror profundo. A moça convivera tanto entre adultos que atentara para os assuntos adultos até demais, concluiu, sentindo vergonha da falta de cuidado dele e dos outros em relação a esse detalhe da educação dela. Meninas e meninos deviam ser criados separados, porém Marcus se recusou a se casar novamente, preferindo uma vida solteira de prazeres silenciosa. Ora, quem o conhecia superficialmente o tomava por um homem quieto e desinteressado, mas na realidade várias criadas foram demitidas por terem se animado demais com a perspectiva vã de um dia serem tomadas como esposas.

“Lady Phillipa, eu vi seu nascimento, mas juro que você tem, no mínimo, minha idade... e uma mente mais suja que as latrinas do castelo! Esse seu comportamento afasta os bons homens, os bons partidos! De onde tira essas ideias?”

“Cresci sozinha aqui, vagando pelos salões, cercada por homens. Como posso ser inocente e ingênua, se quero proteger essa virgindade que tanto valorizam? Se fosse mesmo uma donzela doce, já teria caído nas mãos de algum canalha.”

Após um breve duelo de olhares, Roster cedeu. De certa maneira, ela tinha razão. Marcus e ele mesmo talvez pudessem ser encaixados nessa categoria vasta da canalhice masculina. Uma vez solteiro por muito tempo e acomodado em seus hábitos e prazeres, ele somente se imaginava casado na hipótese de precisar de uma pessoa para cuidar dele na velhice. No momento, havia assuntos mais urgentes a tratar: as notícias sombrias vindas do norte.

Reunidos com Marcus, Paul, outros nobres e líderes regionais — inclusive alguns barões e condes das redondezas —, Roster leu em voz alta o relatório enviado pela coroa. Um portal havia sido localizado nas Cordilheiras do Demônio, na fronteira com o deserto de Veridium — ou Deserto de Pollux, como era chamado por aqueles que não reconheciam posse imperial.

O aumento nos ataques de monstros se devia àquele portal. Cassel situava-se numa região estratégica conhecida como o “pescoço” ou “garganta” do continente, historicamente ocupada pelos vassalos do “Raposa Cassel”, antigos nobres que respondiam diretamente à coroa. Agora, a própria coroa os havia abandonado, ordenando que se defendessem sozinhos.

Vilarejos, pequenas cidades e até casas nobres ao norte foram devastadas ou depauperadas. Em algumas localidades, apenas herdeiros estudando na capital escaparam da extinção de suas linhagens.

Aqueles que seguiram as políticas de Cassel ainda prosperavam, mesmo diante da seca e do perigo. Mas, se a maré monstruosa os alcançasse, tudo estaria perdido.

A coroa, enfim, decidiu agir: enviaria uma legião para fechar o portal e caçar monstros.

“Quem comandará essa legião, meu senhor?” perguntou o Barão Poiret.

“Duque Donovan Sterling. A Tempestade de Neve em pessoa” Conde Marcus respondeu, e Phillipa sentiu a tensão no ar. Alguns convidados engoliram a risada de escárnio.

“O Grão Duque?  Aquele homem vem de terras geladas. Não nego o valor de sua casa em combate, mas o norte não é lugar para homens de neve”  resmungou o mordomo Johnson.

“Há mais” — continuou Marcus, “Ele trará mil homens, e a coroa espera que forneçamos batedores, caçadores e mantimentos. Sim, ele trará suprimentos, mas preveem uma campanha longa.”

A mente de Phillipa disparou. A heroína do prólogo era uma Sterling. Aquilo mudava tudo. Qual deveria ser sua decisão? E se alterasse toda a saga de seu mundo original?

“Se esse portal realmente existe — e existe —, ele precisa ser fechado. Todos sabemos que o frio não mata monstros. Se escaparem de nós, chegarão ao centro do império. Temos mil homens treinados para ceder? Claro que não. Teremos que fazer o melhor com o que temos. Ainda há tempo para planejar. Ainda é primavera. Eles só chegarão no início do degelo, temos um ano pela frente”.  Paul, como sempre, era sensato. Os nobres murmuraram entre si.

“Sugiro adiarmos esta reunião até amanhã. Aproveitem nossa hospitalidade. Hoje teremos um jantar, para que sejamos todos como família novamente” anunciou Marcus, com seu sorriso charmoso.

Naquela noite, Phillipa teve de vestir um vestido. Todos estavam trajados com esmero, como em cenas de livros e filmes. Sentiu-se deslocada. Lelia Poiret seguia Paul como uma sombra pegajosa — enquanto os rapazes a evitavam como se ela fosse uma praga. Entendeu que seu pai planejava vender o irmão em troca de um bom dote e acesso ao litoral.

Ruim em dançar, Phillipa distraiu os convidados com truques de magia: borboletas flamejantes, chuva de luzes. Demonstrava poder, sem revelar sua verdadeira natureza.

Quando os convidados começaram a se embriagar, ela escapou do salão, escoltada por Oliver. O coração em tumulto — o momento decisivo dos prequels estava se aproximando. Ela poderia escolher qualquer caminho a partir daquele momento.

“Minha senhora?” Sir Elton segurou sua mão no corredor escuro.“Está perturbada. Posso ajudá-la?”

“Não, Oliver. Infelizmente, não há nada que possa fazer. Só preciso de um banho quente e descanso” Phillipa crescera, agora com quase 1,70m, esguia e atlética, muito distante das belezas frágeis dos romances. Ela não despertava instintos protetores. Tornara-se uma mulher que escondia medos e fraquezas, que odiava mostrar vulnerabilidade.

“Lady Lelia vai se arrepender de vir pra cá. Este castelo não é como a cidade, nem como os litorais. Não há festas, nem bailes. É um lugar severo”  comentou ele, desacelerando os passos.

“Paul não gosta dela. Você acha aqui tedioso?” Claro que, comparado à cidades grandes, a cidade de Cassel é tediosa.

“Pelo contrário! Estamos sempre ocupados, aprendendo, criando. Fora das muralhas, a vila cresceu. Há tavernas, lojinhas, até apresentações de bardos!” Ele cutucou o braço dela. “Você é que nunca olha ao redor.”

Chegaram à porta de seus aposentos. Ela se pôs na ponta dos pés e lhe deu um beijo no rosto.

“Obrigada, eu precisava ouvir isso.” Mentiras gentis, às vezes são gostosas de ouvir.

“E, hum... você quase nunca usa vestido. Está linda.”

“Poderia soltar o laço do espartilho? Não alcanço, e não quero chamar uma criada. É só afrouxar. Eu cuido do resto.”

“Aqui mesmo?” Ainda bem que o corredor era escuro, ou ela veria seu rosto em chamas.

“Não vai querer fazer isso dentro do meu quarto, vai, Sir Atrevido?” disse, virando-se.

Ele já fizera aquilo em bordéis — abrir corpetes —, mas Phillipa não era uma prostituta, nem uma criada apaixonada. Era Phillipa Cassel. E ele tinha uma paixão doída por ela desde os doze anos. Tremeu ao tocar nos laços, até que conseguiu soltá-los.

“Obrigada, Oliver. Até amanhã.”

Ela sabia o que causava nele? Era tratada como um dos rapazes, mas todos sabiam que ela era uma mulher. Quando ainda era plana e infantil, disfarçava. Mas agora, prestes a fazer dezesseis, passava mais tempo entre homens que mulheres, num mundo onde damas eram segregadas.

Claro que os soldados a observavam — e temiam. Paul, Roster, e os tutores faziam questão de lembrar que ela era intocável. E mais: Phillipa podia destruí-los com magia antes que chegassem perto. Para matá-la, teriam de traí-la de muito perto. Apenas dois sabiam usar os elementos que ela não dominava: seu irmão... e ele, Oliver, o saco de pancadas da Raposa Jovem.

E Oliver amava cada hematoma. Cada osso quebrado. Cada dor. Como uma oferenda sagrada.

 

 Capítulo XIV – Quase irmãos

A visita dos Poiret era uma amolação para Paul. Viu Phillipa escapar do salão escoltada por Oliver e lutou para conter a careta agonia. Lelia o aborrecia com suas caras e bocas, seus modos supostamente tímidos, a mão sobre a boca quando ria, afetando acanhamento, suas bochechas rosadas por qualquer coisa que ele dissesse.

Paul não era virgem, ele teve sua primeira experiência carnal com uma mulher num prostíbulo da capital assim que fez dezesseis anos. Seu pai lhe mandou dinheiro, para que reunisse alguns amigos mais próximos e fossem beber e se fazerem homens, como seu pai lhe disse pela esfera de comunicação. Era uma espécie de rito de passagem para os rapazes da academia, a visita aos prostíbulos de alta classe da cidade.

Ele contou isso à Phillipa que ficou visivelmente irritada, reclamando que ele podia ir para “puteiro” mas ela tinha de permanecer virgem. A simples menção à virgindade dela o incomodou, pois isso significava que outro homem a tomaria para si, eventualmente. Ainda teve de suportar o senso de humor ácido da garota, que fazia chacota dele, dizendo “ai, agora meu irmão virou homem...” e ria debochada.

Havia pouco mais de um ano que a relação dos dois mudara drasticamente. Era a preparação para a geada, e já tinham terminado a última caçada, sentindo o cansaço no corpo e na alma. Os dias escureciam mais cedo, e o frio anunciava que a temida geada chegaria logo, a qualquer momento, então as vilas, a cidade dentro e fora da muralha, até o castelo, se recolheu em silêncio à espera do vento e da neblina que congelariam o mundo.

Como faziam, desde crianças, Paul se alojou no quarto de Phillipa, armado de comidas e bebidas, para esperar a primeira noite de geada. Afanou cerveja da cozinha para beberem juntos, uma amarga e escura, bem alcóolica, perfeita para a noite fria.

Enquanto Lelia falava com ele no salão, ele lembrava, da irmã correndo de pijamas da cama até a janela, da voz dela o chamando para ver a geada chegando. Os dois levemente alcoolizados e felizes. A noite de geada era negra acinzentada, brilhante, e a luz dos cristais de mana se refletiam nos cabelos e nos olhos de Phillipa.

Paul a tomou nos braços, a jogou na cama e a prendeu sob si, ofegante.

"Paul, eu sei que você é homem, mas você é meu irmão". Ela afastou o peito dele, séria, uma expressão confusa no rosto de moça.

"Não sou." a respiração ofegante, o olhar fixo nos olhos dela, a assustaram.

"Não é o quê?". Phillipa riu nervosa.

"Não sou seu irmão." Não havia melhor maneira para dizer, então a verdade saiu em meio ao desejo, na quietude do inverno, como uma confissão bruta e desajeitada.

Ela o afastou e se sentou, o rosto mais confuso ainda, tremendo.

"Então quer dizer que sou realmente filha ilegítima? É por isso que mamãe me odiava? É por isso que papai é distante?". Ele não podia imaginar que a mulher dentro da moça tinha criado laços com aquelas pessoas, mas não o suficiente para se importar com questões como legitimidade.

"Quer dizer que você é minha prima, Phillipa. Você é filha da irmã mais velha do meu pai, Mia Cassel. Com quem, eu não sei. Ele e mamãe te adotaram e ela morreu pouco depois de você nascer, segundo eu investiguei. Eu sei disso há anos. Portanto, sim, eu sou homem, e não, eu não sou seu irmão de sangue."

Ele esperava que ela gritasse, chorasse, fosse brigar com o pai deles, mas ela apenas murmurou um palavrão e ficou um longo tempo o olhando. Aqueles olhos escuros como dois poços sem fundo. Então ela tirou a camisa do pijama e expôs seus seios, que ainda haviam de crescer mais, pois era adolescente. Ficou de pé na cama, e abaixou a calça do pijama e a jogou no chão, e se sentou na cama, defronte a ele.

Foi ela quem estendeu os braços para ele e os envolveu em volta do seu pescoço, e ela quem o beijou, com carinho a princípio e depois com uma lascívia que ele nunca havia imaginado possível. Ela o ajudou a tirar a blusa e as calças, e não se intimidou diante do seu corpo de homem, ao contrário, ela o olhou com desejo, verdadeira gula.

A pele dela era macia, a carne era macia, ao contrário do que se imaginaria de uma moça tão ativa. Ela cheirava a flores, a baunilha, e havia algo indólico talvez. O hálito dos dois se misturava, saliva, suor, umidade íntima.

Ele fez menção de penetrá-la e ela o parou.

“Não, eu ainda preciso me manter virgem, eu acho.” A voz dela tremia de desejo, e ela pediu que ela a lambesse nas partes íntimas. Ele hesitou, mas então abriu as pernas dela, e iluminou pra vê-la bem de perto, queria estudar aquela moça mulher, e tatear o prazer dela.

A cada toque bem sucedido, Phillipa gemia e se arqueava de prazer, molhada de um suco agridoce que ele sentia na ponta da língua, escorrendo suave de seus vales íntimos. Ela colocou um travesseiro sob as nádegas e fechou as pernas, pedindo que ele acomodasse a verga entre as pernas dela, na racha úmida, assim, presa, ele deslizou para frente e para trás, e a viu gozar, e ele mesmo quase gozou. No entanto, ela, sua raposa matreira, arfante, novamente o fez se deitar, e se sentou no rosto dele enquanto abocanhou sua verga, e o chupou de uma maneira tão devotada, que nenhuma das putas da capital jamais fizera.

Ela engoliu seu suco, enquanto arqueava de prazer, e ao ver o rosto dela, Paul, tonto do gozo intenso, enxergou uma fêmea feroz, indomável, que ele amava desesperadamente. Ela tomou um gole de cerveja e se deitou ao lado dele, os dois com o coração batendo forte.

“E agora, irmão? O que fazemos?” Ela ainda tremia.

“Eu não sei. Sei que eu queria fazer isso há muito tempo. Eu te amo, Phillipa”

“Seu bobo, você sempre me disse isso.”

“Agora que você sabe a maneira que eu te amo, você pode me responder da mesma forma?”

“aham, sempre”+. E ela enfiou o nariz no pescoço dele,

Os meses que se seguiram foram de alegria e prazer. Eles fizeram em todos os lugarem imagináveis e inimagináveis da propriedade, e até fora dela, assim que o tempo amornou. Eram como duas raposas selvagens no cio, ora se acariciando e acasalando, ora trocando mordidas, enciumados um do outro, especialmente com o retorno das patrulhas, tanto a possessividade de Paul, como a postura íntima dos dois, passou a causar incômodo em algumas pessoas.

A memória dos últimos meses devia ter trazido um sorriso aos lábios de Paul, que Lelia interpretou como sendo para algo que ela tinha dito. O jovem assentiu, e logo arrumaria um jeito de se desvencilhar da moça, por quem ele nutria um desprezo de longa data, desde que ela empurrou Phillipa de uma ribanceira há oito anos.

Antes que ele pudesse escapar para seu quarto, o pai o interceptou e o levou para sua saleta.

“Filho, agora que você está noivo, é hora de parar. Lelia é uma boa moça e será a senhora desse castelo, você deverá respeitá-la como condessa”. Marcus tinha bebido um pouco além da conta.

“Parar com o quê? E Lelia é boa em quê? A única mulher que eu vejo governando esse castelo ao meu lado é Phillipa, essa sim, tem competência para isso!”

“Paul, em algum momento sua irmã vai se casar e irá embora, e você terá de viver aqui, sozinho. Você tem sido... quero dizer... eu tenho recebido reclamações que você e sua irmã... são muito íntimos. É claro que eu não acredito em nada disso, afinal você é um rapaz honrado, e ela é sua irmã.”

“Não sou”. Ele se jogou na poltrona diante do pai e cruzou as pernas, olhando o pai diretamente nos olhos, o verde dourado da íris, cintilando de desafio.

“Como assim? Não é o quê?”

“Não sou irmão dela, e o senhor sabe disso melhor do que eu! Se o senhor não tivesse adotado a Phillipa, ela talvez fosse filha de mãe solteira, mas eu não me importaria, afinal, fora o nome, nossa Casa não tem dinheiro mesmo. Aliás, só estamos vendo nossos cofres se enchendo por causa dela e de mim, portanto, nada mais justo do que nós decidirmos a nossa vida.”

Marcus olhava para o filho como quem via um estranho. Um estranho que entrara em sua casa, se apossara do corpo do seu menino perfeito, se sentara na sua poltrona e danara a desfiar insanidades na sua cara. Ele baixou a cabeça e massageou as têmporas, respirando fundo, buscando calma e sabedoria para solucionar uma questão que ele jamais imaginou que fosse enfrentar.

“Paul, eu te trato como homem adulto, te dou autoridade e autonomia, porque, até o momento, eu julgava que você merecia. Confiei que você imporia algum freio à sua irmã, e eu realmente errei ao fazer isso”. Marcus sustentou o olhar do filho, se reclinando na sua cadeira “Você, um rapaz que mal aprendeu a ser homem em casa de vida fácil, não conseguiu se controlar diante da irmã, e isso faz de quem o indecente? Você ou ela? Não vê que ela é quem sairá como a pilantra?

“Eu a quero, pai. Sempre quis. Nunca escondi.”

“Então foi você quem começou? Desde quando você sabe que não é irmão de sangue dela?”

“Desde que mamãe morreu. O senhor errou em fazer a proposta de casamento ao barão Poiret sem me perguntar. Eu tenho esse ano de noivado para me livrar daquela criatura insuportável.”

“E eu para casar Phillipa e tirá-la de perto de você. Ela ainda é virgem? Um casamento com alguém que tenha título depende de sangue.”

“O senhor está me tentando a fazer uma besteira, pai. Eu sumo com ela no mundo, e vocês nunca mais nos acham!”

Paul se levantou bruscamente e saiu da sala, deixando o pai atônito a se recompor, afinal, ainda tinha convidados a entreter. Ele, por outro lado, precisava do conforto da amante, com a urgência dos condenados.

Em meio às sombras do Castelo Cassel, aquele foi o melhor inverno da vida de Paul.

 

 

 

 

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