Guerras Arcanas - Capítulos 1 ao 4

 

PRÓLOGO

— Ajude-me com este vestido! — ordenou o jovem Senhor a seu criado, este um homem de porte cavaleiresco na casa dos trinta, claramente desconfortável em vestir uma túnica solta sobre a cabeça de seu senhor.

— Ainda assim, vós não pareceis uma donzela, meu Senhor... — murmurou ele.

— Sei bem o que faço, Luce — disse o rapaz, rindo enquanto acomodava um xale sobre os ombros largos. — Fique aqui.

— Nem morto me aproximo daquele bosque! — retrucou o servo, trêmulo. Outra risada escapou do jovem mestre.

— Aquelas velhas feiticeiras não são para se brincar...

Esse Senhor não era outro senão o mais jovem entre os deuses da Criação — o patrono do intelecto humano, da curiosidade, da evolução e, como subproduto, do conflito e da paz. Eternamente jovem, rebelde e caprichoso, era a alegria do Todo-Poderoso e o tormento dos demais deuses.

— Dê-me o cesto. Está na hora.

Luce entregou-lhe uma enorme cesta, abarrotada de frutas raras, flores, tecidos finos, joias, frascos de perfume e fitas delicadas. Era tão pesada que somente um deus poderia carregá-la com tanta leveza.




Respirando fundo, o deus adentrou uma floresta antiga e espessa, tão escura que apenas a luz que emanava de seu próprio corpo lhe mostrava o caminho. Na floresta reinava uma noite eterna. Ali, repousava a Árvore — a única, colossal, com raízes que serpenteavam sob toda a mata. Um lugar sagrado, proibido a todos os machos vivos. Pequenos lagos e arbustos contribuíam para a densidade da mata traiçoeira, mas o deus branco caminhava com uma coragem temerária.

Pássaros negros cruzavam os galhos, cada um de forma e tamanho distintos, bloqueando a luz da lua. O deus caminhava entre os ramos até alcançar o coração do bosque das Mães Ancestrais — entidades arcanas e primordiais, as quais, em sua opinião, se manifestavam tarde demais na vida dos homens.

— Ouvi-me, Mães da Criação. Trago presentes de afeto e reverência. Ouvi-me...

Os pássaros se agitaram. Alguns cantaram, outros grasnaram, e muitos gritaram em fúria.

— Deixe tua oferenda e foge, filho do homem! — disse um pequeno pássaro, emergindo de um galho próximo. — Tu zombas de nós com tua veste de mulher, mas não nos enganas.

— Fico contente em ter arrancado um sorriso de vossas faces, nobres damas — replicou ele, sério. — Mas não sou filho do homem, tampouco nascido de ventre feminino. Ainda assim, não nego o que sou: masculino.

Outros pássaros se aproximaram, observando. Um deles, enorme e de aparência ancestral, desceu ao chão. O deus permaneceu imóvel, cuidando de manter o semblante amistoso.

— Ah, vejam,irmãs, não é um homem qualquer! É o Deus Branco. — A ave, semelhante a um abutre real, encarou-o. O fedor de carne podre era insuportável, mas o deus manteve-se firme —ali, até ele corria perigo.

Ao toque do chamado da ave maior, outras pousaram ao redor e transformaram-se em mulheres de variadas idades e etnias. Recolheram as oferendas. A primeira provação estava vencida.

— És tu a mais antiga entre as Mães? — perguntou ele, ajoelhando-se com humildade calculada.

A grande ave se encolheu até tornar-se uma mulher de pele escura e traços finos, com olhos tão negros quanto suas penas. Um leve sorriso brotou em seu rosto ao sinalizar para que lhe trouxessem uma cadeira.

— És um menino travesso! Gosto disso. O que vens buscar, espinho da Criação?

— Desejo romper a maldição de uma alma que me foi confiada vezes demais. Esta alma, destinada a morrer repetidamente, deve ter uma chance de quebrar seu fado. Peço que vejam a essência dela...

Ele tirou de sua bolsa um pequeno pilão, partiu uma noz e ofereceu à Matriarca.

Ao provar o fruto, a Anciã teve uma visão: uma mulher cuja existência servia apenas de degrau para conquistas alheias. Sempre morria jovem — na infância, adolescência, parto — e agora vivia sua encarnação mais longa, graças à judiciosa intervenção do deus e seu servo.

— Por que se importa tanto com uma única alma, Deus Branco? — questionou uma ave no alto.

— Porque percebi que era o rancor de Morte e Destino contra mim que a mantinha aprisionada. Desejo levá-la a outro mundo, onde possa lutar por seus próprios méritos. Desejo justiça. Todas as almas merecem uma chance de lutar pelos seus próprios desejos, por reconhecimento, e, enfim, repouso.

As aves murmuraram em uníssono.

— E queres de nós o quê? — perguntou a Matriarca, fria.

— Magia. Chamo pelas Mães Ancestrais, anteriores à Criação. Peço que abençoem esta alma feminina com poder e mana suficientes para trilhar sua jornada.

— Nada nos ofereces em troca...

— Ofereço a mim mesmo. Serei humano. Conhecerei o medo da morte. Parte de minha essência ficará neste mundo para que este não se estanque. Deixarei meus poderes. Serei apenas um.

As aves cochicharam entre si.

— Tu sempre foste ousado. E honesto. Ao menos, nunca nos enganaste. Porém, em um outro mundo, ainda que leves parte de seus poderes, a fração do poder de um deus, ainda equivale a divindade. – a velha senhora riu – Não sou Destino, mas espero que você experimente a humanidade de maneira intensa, especialmente a dor, Deus-Menino. Viver a vida dos outros te faz ver a vida como um jogo e um desafio.

Com um gesto, algumas aves entregaram penas negras que, ao tocarem o chão, revelaram-se multicoloridas. A Matriarca arrancou duas de suas próprias, ornadas de ouro e prata.

— Aqui tens, Espinho da Criação. Oito penas para a alma, e esta, minha, para ti. Promete que voltarás a nós vestido como convém a uma dama, e que nos trará histórias de tua morte e renascimento. Não reclames do presente! – um sorriso sardônico se desenhou nos cantos dos lábios da veneranda dama -  Vai, e não olhes para trás.

O deus recolheu as penas, e correu para fora da floresta. Atrás de si, o vento da ave ancestral o empurrou o vento às suas costas, mas ele resistiu à tentação de olhar. E saltou para a luz do dia.

— Conseguiu, meu Senhor? — Luce correu até ele.

— Sim, as velhas foram generosas... além da conta! — ofegou, rindo. — Tire esse vestido de mim! Arre! Correr segurando saias é uma porcaria!

— Alteza... seu cabelo...

O jovem deus, embora com feições de dezoito anos, agora ostentava cabelos de um branco acinzentado.

— Não importa! Consegui o último ingrediente! Agora, prepare-se: iremos até ela, meu irmão!

 

 


 Capítulo I: A Alma Perdida e a Menina Phillipa

— Isso não é real! Não pode ser! Merda, mais um pesadelo?! — Seus pensamentos estavam em desordem, cheios de palavrões e confusão. Acordou num quarto estranho, onde uma criada dormia numa poltrona ao lado da cama. Sua cabeça latejava, o corpo inteiro doía. Mas... aquele não era seu corpo!

Ela não era uma criança!

Dentro de sua mente, fragmentos de duas vidas guerreavam: uma mulher com mais de quarenta anos, endurecida por uma vida difícil — ou talvez várias, se aqueles sonhos vívidos fossem de fato memórias — e uma menina de sete anos.

Lembrava-se de estar dirigindo de volta do trabalho quando fora surpreendida por um tiroteio. A polícia e homens armados se enfrentavam. Depois disso, escuridão. Agora, estava ali, presa no corpo de uma criança, em algo que mais parecia um sonho fantástico.

A criada percebeu que ela havia despertado e chamou os demais. Um homem de cerca de trinta e tantos e um garoto de dez anos entraram correndo.

— Phillipa Cassel! Minha querida, que bom que acordou! — disse o homem, apertando-lhe a mão com ternura.

— Irmã... está bem? — o garoto sentou-se na beirada da cama e a encarou. Ela assentiu em silêncio.

Da conversa, deduziu que estivera inconsciente por semanas: fora encontrada caída ao pé de um barranco e somente agora abriu os olhos. Ninguém sabia se fora empurrada ou caíra sozinha. Mas uma coisa era certa: ela era a filha mais nova do Conde Marcus Cassel.

O menino chamava-se Paul, seu irmão mais velho e herdeiro do título de Conde. A mãe deles havia falecido, e, apesar da juventude, Marcus recusara-se a casar de novo.

— Não pode ser! Eu estou no universo de Mage Wars (Guerras Arcanas)! Isso só acontece em novelinhas baratas! Estou em um Isekai? Mas... eu sou fã dessa série desde criança! Calma... onde eu tô na linha do tempo? Será que sou protagonista da primeira trilogia? Uma rebelde? Uma maga renegada? Tem algum Cassel no prólogo? Não joguei os games... mas ajudei meus amigos com o “lore”... vou descobrir!

Phillipa fingiu ter perdido parte da memória. Queria sair do quarto, ver o mundo ao redor, tentar se localizar nos eventos daquela fantasia.

Na vida anterior, fora a filha mais velha de uma família destruída. Criara a irmã sozinha, apenas para vê-la seguir a própria vida. Jamais tivera um irmão que lhe segurasse a mão, tampouco pai ou criados.

O corpo que agora habitava lembrava-lhe sua infância: frágil, doentia. Detestava aquele corpo. Queria acordar num leito de hospital real, e não nesse mundo de fantasia brutal.

Paul levou-a ao jardim. A mansão de verão era ampla, fresca, com janelas largas e portas de madeira clara. Os móveis funcionais lembravam casarões do sul da França, mas além do jardim ouvia-se o clangor das espadas. Soldados treinavam no pátio do outro lado do muro.

— Este não é nosso lar. É a mansão do Barão Poiret. Não sabíamos o que fazer, então ele nos ofereceu abrigo até podermos retornar à propriedade Cassel. Mas ele desceu para o litoral e não esperou que acordasse — explicou Paul, pensativo.

Ela resolveu plantar uma semente. Precisava entender o lugar dos Cassel no mundo.

— Não me lembro da nossa casa, irmão... mas não quero ficar aqui — mentiu. — Lembro que estava com uma menina loira da minha idade. Ela começou a me dizer coisas cruéis. Corri, e ela atrás de mim... me empurrou. Não lembro o nome dela. Por favor, não conte ao papai... estou com medo.

Paul ficou pálido. Sabia exatamente quem era: Lelia Poiret, filha do barão. Uma peste mimada, a sombra de Paul, que desde cedo nutria desprezo por Phillipa.

— Deixe isso comigo, irmã. Prometo que sairemos daqui o quanto antes.

De fato, começaram os preparativos para a viagem de volta à propriedade da Casa Cassel, nas terras altas do planalto central.

Enquanto arrumavam as malas, Phillipa murmurava consigo mesma: "Vou colaborar... por ora. Até entender se estou no inferno, num sonho, ou numa realidade paralela."

Capítulo II: Castelo de Pedras e Sombras


Phillipa esperava retornar a uma mansão de nobres, mas à medida que a comitiva avançava, os campos cultivados e os pastos murados davam lugar a estruturas defensivas. Aquelas terras férteis, cercadas por muros que se estendiam de acordo com o relevo, estavam sob constante vigilância. Não havia ali mera residência aristocrática, mas um reduto fortificado.

No alto de uma colina, dominando as terras abaixo, erguia-se o Castelo Cassel. De tamanho mediano, porém robusto, ostentava uma imponência sóbria. De um lado, um fosso seco o protegia; do outro, um precipício ameaçador. A fortaleza possuía sua própria nascente, celeiros, arsenal e pátio de cavalaria e aposentos para civis e soldados.

O calor do segundo mês do verão tornava a viagem um suplício, e Phillipa jurou nunca mais deixar aquelas terras naquela estação. Após dez dias, cruzaram a ponte levadiça e adentraram os portões triplos — ferro, madeira e aço combinados. Acima, o brasão da Casa Cassel estampava o tambor da guarda: um disco onde uma raposa comia um cacho de uvas.

Phillipa sorriu pensando em como uma imagem tão engraçada podia ser distintiva de uma família nobre. Ao menos aquela raposa havia conseguido comer as uvas da vinha mais alta, ao invés de sair derrotada e falando mal das uvas, dizendo-as azedas. Certamente os Cassel se julgavam uma Casa que privilegiava a inteligência em detrimento da força bruta.

Todavia essa idéia contrastava com o castelo e com as outras fortificações menores que se espalhavam pela região: vilarejos murados, torres de vigia, ruínas de castelos antigos. O condado não era um lar: era um bastião militar.

As paredes externas do castelo tinham poucas aberturas. Mesmo os prédios internos, de pedra e madeira, ostentavam janelas pequenas com grades e venezianas robustas. Mas havia conforto: construído sobre uma antiga mina de pedras mágicas, o castelo fora adaptado com sigilos que regulavam temperatura e luz, aproveitando os resquícios de mana nos veios esgotados.

Ali, a família Cassel sobrevivera a muitas guerras, conflitos e ataques de monstros. Apesar da decadência, ainda mantinham vassalos prósperos e fama de honra e bravura.



Nos corredores, tapeçarias ilustravam batalhas entre humanos e monstros, confrontos entre deuses e os Ancestrais — figuras humanoides envoltas em runas e símbolos arcanos. Phillipa reconhecia os brasões: eram os mesmos do Mage Wars. Sentia um êxtase contido. Aos sete anos, era capaz de ler aquela língua, graças à mente da garota que agora habitava. E ela faria bom uso disso.

— Irmão... onde fica a biblioteca? — perguntou, após o jantar.

Paul e Marcus se entreolharam, surpresos. Riram baixinho.

— Lipa, querida, queres... ler? — Marcus quase não conteve o riso.

— Sim, pai. Fui tão negligente assim em meus estudos? — Ela tentou parecer a criança mais doce do mundo, sem saber se funcionaria.

— Não sei se o mestre Roster vai aceitar você tão cedo, mas posso te levar à sala de aula — respondeu Paul, também divertido.

Aquela noite trouxe-lhe um pesadelo: goblins a perseguiam e a esquartejavam. Mas ela não acordava: reiniciava, renascia... e morria outra vez.

Na manhã seguinte, recusou a comida e exigiu ver Paul. Ele estava no pátio, duelando com outros escudeiros. Ao vê-la, deixou a espada e foi ao seu encontro.

— Você odeia livros, Lipa. Só falava em virar santa ou princesa nas lendas... o mestre Roster disse que você mal sabia as primeiras letras!

"Pois saiba, pirralho, que esta nova Phillipa tem um doutorado no outro mundo..." — pensou ela, mordendo a língua para não dizer em voz alta.

Paul, de cabelos castanho-mel dourado e olhos verde-claros, parecia não ter nenhum traço em comum com sua irmã. Phillipa, por outro lado, era pálida, de olhos escuros e cabelo preto como tinta, com feições finas e intensas que lhe davam um ar enigmático. As criadas diziam que lembrava os parentes da falecida avó, oriundos de além dos desertos do Norte.

Chegaram à biblioteca. Paul e a criada empurraram a pesada porta de carvalho. Lá dentro, sob uma das poucas janelas da torre interna, um homem de meia-idade lia concentrado.

— Paul! Veio cedo hoje — disse o mestre Roster, levantando o olhar... e franzindo a testa ao ver Phillipa. — Imagino que esteja cuidando de sua irmã...

— Bom dia, mestre Roster. Phillipa gostaria de conversar sobre alguns livros — disse Paul, saindo rápido para deixá-los a sós.

— Bom dia, mestre. Peço perdão por qualquer negligência nos estudos. Suplico por uma segunda chance, para corrigir meus erros. — Ela curvou-se, mas sem tirar os olhos do homem.

— Já disse a teu pai: você não tem talento para os livros. Moças devem aprender a cozinhar, costurar, bordar...

— Que bom que o senhor sabe mais dessas coisas que eu. Tenho apenas sete anos, e achei que poderia aprender ao menos letras e números, para servir bem ao futuro marido que meu pai escolher. — O olhar de Phillipa queimava.

— Hmph. Então sente-se. — Ele atirou um tomo aleatório sobre a mesa.

Ela leu o título em voz alta:

“Sobre Magia Elemental e Criação de Sigilos: Comentários sobre as Cinco Bestas Primordiais, por Mestre Sterling.”

— A infanta sabe ler o título, pelo menos! — Roster riu e voltou à leitura.

"Certo, tenho sete anos, mas se eu fingir ser um prodígio, dane-se esse velho!" — pensou ela.

— Isso não serve, mestre Roster. Esperava mais de um tutor. Se for assim com Paul, pobre dele: crescerá medíocre. Onde está o currículo básico? Livros por níveis? Exercícios? Crianças precisam de mestres interessados nelas!

— Você está mal da cabeça, menina. — O mestre caiu na gargalhada. — Muito bem. Vamos ver se vale o esforço. Responda-me:

Quantos elementos há no sistema mágico?

— Em qual escola? Na de Pollux, são quatro: terra, água, fogo e ar. Na de Veridium, somam-se luz e trevas como elementos. E há ainda duas outras: espaço e espírito, reconhecidas pela Escola dos Santos Ancestrais.

— Estamos no Império de Pollux, sua debochada. Como organizamos esses elementos?

— Os quatro primários são ensinados na Academia de Alta Magia. Os outros quatro, nos Templos dos Novos Deuses.

— Besteira! Ninguém ensina magia espiritual...

—  Ah, sim, que sei eu? Não me ensinaram nada! Vejamos...Apenas canalizam mana pelos elementos para efeitos similares? — E ela lhe mostrou a língua.

Roster ficou em silêncio. Jamais ensinara essas distinções aos filhos dos Cassel. Aquilo vinha de estudo próprio? Ele engoliu seco.

— Mana é igual a magia?

— Claro que não. Mana está em tudo. Alguns nascem com afinidade e capacidade de atrair mana. Magia é controlar esse fluxo e manifestar desejo em realidade, usando mana.

— ... — O mestre olhou-a, como se visse um espectro.

— Mas este corpo frágil é um péssimo condutor. Preciso melhorar minha saúde e resistência para usar magia — disse ela, com seriedade.

— Talvez... eu aceite você como pupila junto de Paul. Peça ao mordomo Johnson que venha falar comigo.

Ela curvou-se, correu até a porta, e sorriu vitoriosa ao encontrar o irmão e a criada esperando do lado de fora.

Capítulo III: Ecos

Phillipa passou os dias seguintes em silêncio estudioso, alternando entre o pátio da biblioteca e as lições que agora lhe eram ministradas por um Roster mais cauteloso e intrigado. Para ele, a menina que antes não conseguia distinguir o alfabeto agora parecia uma aprendiz iluminada por alguma revelação divina — ou talvez amaldiçoada por ela.

O que ele jamais imaginaria, é que aquela mente de criança continha duas vidas, duas vozes — e um medo crescente.

A cada noite, os sonhos pioravam. Não eram apenas visões de monstros ou perseguições. Eram memórias. Ela se via em outros corpos, morrendo de formas distintas: afogada, envenenada, apedrejada por multidões, morta no parto, na febre, na guerra. Morria jovem, sempre jovem. Morria ajudando alguém, salvando outro, sendo degrau para a ascensão de outrem. Sua vida, invariavelmente, não era sua.

Ao acordar suando frio na madrugada da sexta noite, ouviu a voz de sua mente adulta:

“Quantas vezes você já morreu, Phillipa? E quantas vezes mais vai morrer antes de isso terminar?”

Começou a escrever em pequenos pedaços de papel escondidos sob o colchão. Desenhava sigilos, mapeava o castelo, registrava tudo que se lembrava sobre o universo de Mage Wars. Sabia que precisava recuperar mais do que conhecimento: precisava de poder. E a única fonte de poder naquele mundo era a magia.

Certa manhã, após um pesadelo particularmente cruel — onde era queimada viva por aldeões —, Phillipa decidiu visitar o antigo calabouço abandonado no subsolo do Castelo Cassel, que dava acesso às antigas minas de cristais de mana que um dia enriqueceram sua família. O lugar era evitado por todos: diziam que a mana ali era turbulenta, e que fantasmas antigos rondavam suas colunas rachadas. Mas Phillipa sabia algo que os demais ignoravam: aquela mina de cristais de mana era um antigo ponto de intersecção entre este mundo e os domínios mágicos dos Ancestrais.

Com Paul fora em viagem com o pai e a criada distraída no pátio de costura, ela fugiu. Se esgueirou pela toque da guarda até o calabouço, e, sentindo o fluxo de mana, encontrou um alçapão, um dentre os tantos que levavam ao subsolo. Desceu pelos degraus escavados na pedra, até a entrada de um túnel iluminado fracamente por restos de cristais de mana, pequenos demais para serem mineirados, e o seguiu, até um salão onde um pequeno lado, pouco mais que uma poça, coletava água de estalactites, faiscando com o brilho esparso dos cristais.

Ali dentro, sozinha, ela sentiu a presença. Algo adormecido. Algo que a reconheceu.

— Olá, minha menina — sussurrou uma voz antiga, que não vinha de lugar nenhum.

Phillipa gelou. O ar ficou pesado. O chão tremeu levemente sob seus pés descalços.

— Quem... está aí?

Uma brisa gélida soprou. E uma pena — negra com reflexos prateados — caiu diante dela.

Ao tocá-la, imagens a invadiram: o jovem deus, vestido como donzela, ajoelhado no bosque; o pacto com as Mães Ancestrais; a entrega das penas mágicas; o compromisso de acompanhá-la em carne humana.

Ela caiu de joelhos, arfando.

— Ele... me escolheu? Por quê?

A resposta veio em forma de sensação: não fora escolhida por compaixão, mas por justiça. Era hora de quebrar o ciclo. Ela não mais serviria como o alicerce da glória alheia. Ela ergueria seu próprio destino, porém aquela não seria apenas sua história, mas a história dos dois.

Ao abrir os olhos, a pena havia desaparecido. Mas algo dentro dela havia despertado, com determinação.

Subindo novamente ao castelo, suja e ofegante, Phillipa ignorou as reprimendas da criada. Subiu as escadas correndo e trancou-se em seu quarto. Abriu o estojo de anotações e traçou, pela primeira vez, seu próprio sigilo — simples, imperfeito, mas carregado de propósito.

Naquela noite, dormiu sem sonhos.


Capítulo IV – Vozes

Guerras Arcanas era uma série de fantasia que começou a ser escrita no período entre guerras na Europa. Esquecida pelas massas, à sombra de trabalhos mais famosos de fantasia, foi recuperado nos anos setenta do século vinte como base para um roteiro de filme de fantasia genérico que, surpreendentemente, alcançou grande sucesso. Ao contrário das outras séries de alta fantasia, seus elementos de violência e sexualização, pareciam perfeitos para essa nova era, a que precedia a virada do milênio, e rapidamente multiplicaram-se livros, filmes, seriados de animação em estilo japonês e jogos baseados nesse universo.

Sem finais felizes ou o maniqueísmo clássico das séries de fantasia para jovens, isto é, vilões odiosos, heróis amados, ou arcos de crescimento ou redenção, Guerras Arcanas frequentemente reproduziam lutas de poder e destruição, sexo e intriga, regadas a misoginia exacerbada.

O gosto por fantasia e soft porn fez da mulher que Phillipa foi, na encarnação anterior, uma grande fã daquele universo complexo, e uma excelente consultora para os amigos que jogavam online, afinal, o conhecimento dos livros e filmes podia ser usado para achar itens, armas, entre outras coisas nos cenários e “quests”. Como via de mão dupla, ela, que nunca havia sido uma jogadora, aprendera por alto o que eram estatísticas de jogo, habilidades, progressão de níveis, expedições em grupo, e os papéis designados a cada membro de uma companhia. Supôs que, agora que havia sido acolhida naquele novo mundo, tais conceitos se tornariam mais naturais.

Mas o desencanto logo se fez presente — não nas aulas com o Mestre Roster, que já exigiam bastante, mas no regime de treinamento que ele lhe impunha. Ela compreendia que o rigor de Paul era necessário: boa alimentação, sono regrado, exercício físico e prática de artes marciais. Roster, o mestre impiedoso — chamado por muitos de Flagelo dos Alunos —, traçou para ela uma rotina semelhante, assegurando, porém, que também se dedicasse aos “ofícios femininos”, sob a vigilância inflexível da governanta.

Com o declínio do verão e a chegada dos ventos outonais, Phillipa enfim encontrara equilíbrio na nova rotina — que, para uma donzela prestes a completar oito primaveras, era até leve.

Estava mais saudável, mais disciplinada. A preocupação de Roster residia no comportamento da menina: seu hábito de mergulhar com fervor em um único assunto, para logo abandoná-lo em favor de outro. No entanto, tamanha era sua fome por conhecimento que logo alcançou o irmão, e ambos passaram a estudar os antigos alfabetos arcanos — inscrições sagradas exigidas para os exames de admissão na Academia de Magia e no Templo do Conhecimento.

Roster silenciava seus temores quanto ao futuro da menina, pois conhecia a verdade que pairava como uma sombra: Marcus não pretendia enviá-la a lugar algum. Seu plano era ungi-la esposa assim que atingisse a idade apropriada.

Não se podia dizer que Marcus Cassel desprezava a filha — tal julgamento seria injusto. A verdade é que tanto ele quanto sua falecida esposa, Lady Emilia, dedicaram amor mais profundo ao primogênito, Paul, em quem depositaram todas as esperanças da linhagem. Era, portanto, quase miraculoso que Phillipa jamais houvesse cultivado inveja ou rancor — mesmo sendo tratada por muitos no castelo como uma sombra irrelevante.

Três anos antes do fatídico acidente que quase ceifou sua vida, Lady Emilia enfrentara outro aborto. Foi então que a tristeza envenenou-lhe o espírito. A melancolia tornou-se praga viva, e ela não conseguia encarar a filha mais nova sem que lágrimas e fúria se manifestassem em igual medida.

Paul, sensível à tensão do lar e envenenado pelos cochichos traiçoeiros dos criados, passou a tratar a irmã com crueldade — chegando às agressões físicas e verbais, reproduzindo os mesmos insultos que ouvira daqueles que deveriam zelar pelo lar.

Marcus, cego de amor por Emilia — apesar do casamento arranjado —, e também cego pelo orgulho que tinha do filho, nada via. Coube a Roster, seu mais fiel amigo, fazê-lo enxergar a verdade após a morte da esposa — consumida por sua angústia e pela enfermidade que se seguiu ao aborto.

— Ela não é minha filha bastarda, Dennis! Nunca tive amante! — bradou ele, olhos rubros, o rosto marcado por noites insones e lágrimas incontidas.

— E tampouco é filha sua. Você sabe disso tão bem quanto eu. A loucura de Emilia, esse comportamento obsessivo... estava no sangue! Eu te roguei para que não criasses a filha de sua irmã! – Roster argumentou, igualmente frustrado.

— Phillipa é tudo o que restou de Mia. Se ela não desejasse a criança, teria se desfeito dela. Mas procurou a mim. Isso significa que a amava. Como eu poderia rejeitar a menina? Ninguém jamais soube quem era o pai. Quando ela fugiu, partiu o coração de nossos pais — ela era a primogênita, esperavam casá-la com um nobre de alta estirpe... e eu era apenas o irmão mais novo.

— Sua irmã era um espírito indomável. Amei-a como poucos nesta vida. Às vezes lamento não ter tomado a menina para mim...

— Não. Nós lhe demos legitimidade — e uma chance de alcançar um bom casamento.

Ao ouvir a conversa dos dois homens escondido nos umbrais do estúdio, Paul finalmente compreendeu a extensão de sua crueldade com a irmã — prima —, uma alma inocente, vítima apenas das circunstâncias. Percebeu como se deixara guiar por boatos maldosos, julgando seu pai injustamente como um libertino e marido desalmado, quando, na verdade, Marcus era um homem devotado: esposo fiel, pai amoroso, irmão leal.

Desde aquele dia, Paul tornou-se o guardião inabalável de Phillipa, tentando reparar os anos de frieza paterna. Agora, vislumbrando o brilho do talento da irmã, empenhava-se com fervor para convencer Marcus a permitir que Phillipa seguisse os próprios estudos — rumo à glória que merecia.


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