Guerras Arcanas = Capítulos 15 ao 18


Capítulo XV - O tempo que passou depressa demais



Caçar monstros para proteger vilarejos e fazendas, produzir armaduras adequadas ao clima extremo do norte, treinar camponeses, preparar artefatos, implorar à coroa por mais suprimentos para a legião que viria — e que certamente devoraria as reservas de inverno da propriedade. Reunir informações, preparar poções e medicamentos, além de montar pequenos kits de farmácia. As conversas entre o Conde Cassel e o Duque Starling eram cansativas e maçantes.

Nem todas as Casas da Garganta se entregaram aos preparativos, mas aquelas que compreenderam o perigo uniram forças e fizeram o que podiam. Esperava-se que a legião cruzasse o portal de Ilia após o fim da geada, o que era aceitável, já que os verdadeiros sulistas lidavam bem com o frio. O problema surgiria quando ultrapassassem o Vale Consagrado e adentrassem as terras de Sollis — a primeira propriedade do norte —, onde até mesmo o inverno era ameno. Com o avanço da campanha, enfrentariam um calor úmido e sufocante, exigindo certa adaptação.

Os nortistas haviam se tornado hostis à nobreza central e ao imperador, devido à longa ausência de auxílio. Marcus ainda mantinha boa reputação no norte por ter recebido refugiados e mantido contato com algumas casas aliadas, que eram parentes distantes.

A surpresa veio quando, um mês antes da primeira noite da geada, o portal de Ilia brilhou intensamente e permaneceu ativo por quase dois dias inteiros, permitindo que mil homens, cavalos e carroças cruzassem rumo ao sul — mais de três meses antes do previsto.

O tempo não apenas voava, como também os malditos sulistas decidiram fazer tudo ao seu próprio modo, ignorando os costumes do norte. Estavam prestes a receber um choque em questão de dias!

Nesse ínterim, o Conde Cassel esqueceu toda a hierarquia e repreendeu o próprio Duque por meio de um artefato de comunicação, exigindo que parasse imediatamente para que fosse possível encontrar acomodações para seus homens. A tensão escalava rapidamente para um ódio mútuo.

A legião foi dividida em unidades e alojada em fortalezas ao longo da estrada até o Castelo Cassel, que, sendo o maior da região, acabou recebendo quatrocentos homens e todo o equipamento, transferindo seus próprios habitantes para a vila além dos muros.

Ren Reinfeld deixou a sala de conferência para clarear a mente. Haviam chegado a Cassel havia três dias, e o Conde e o Duque estavam em pé de guerra. O jovem Lorde Cassel era ainda pior que o pai, apesar da pouca idade. Do alto do arco que ligava dois pavilhões, Ren observava as atividades frenéticas no pátio central, onde pessoas organizavam equipamentos, carroças e cavalos — e reconhecia que o Conde tinha toda a razão em estar irritado.

Ficou agradavelmente surpreso com o castelo: uma verdadeira fortaleza, grande o suficiente para abrigar tanta gente, com uma muralha de pedra e uma cidade, fora e por dentro dela, além de um fosso seco largo e profundo. Apesar dos canhões modernos, os muros dos Cassel eram esculpidos com sigilos mágicos, e o próprio local fora erguido sobre uma mina de cristais de mana abandonada, tudo ali pulsava, monstros ou homens teriam dificuldades de vencer aquele lugar, desde que bem usado por grandes guerreiros ou magos. O brasão com a raposa e as uvas adicionava um ar de deboche a um edifício outrossim austero, a raposa desafiava os outros com seu jeito debonaire.

O ar era frio e cortante, e o céu de um azul penetrante. Como cavaleiro juramentado à Casa Sterling, era melhor manter-se atento e fazer o melhor para servir a seu senhor, portanto observava tudo, em seus mínimos detalhes. O som de cascos chamou sua atenção, e ele viu um grupo de soldados — ou seriam caçadores? — puxando uma carroça coberta por uma lona. O cavaleiro à frente possuía uma figura esguia e carregava apenas uma clava e uma espada curta. O grupo entrou no pátio, e aquele soldado mais baixo retirou o capacete — um modelo estranho, típico do norte — e puxou o capuz. Ren ficou hipnotizado ao ver uma jovem de roupas masculinas dando ordens a tantos homens. De onde estava, conseguiu ver o conteúdo da carroça: partes de monstros.

A jovem franziu o cenho ao notar a aglomeração no pátio e entrou no pavilhão do Conde. Como se despertasse de um sonho, Ren apressou-se para o edifício e correu até a sala de conferência, chegando a tempo de ver a mulher abrir uma das portas e marchar em direção ao Conde e a Lorde Paul. Ela lançou um olhar aos demais homens presentes — inclusive ao Duque Sterling — e declarou:

“Chegaram antes. E imundos. Mas disso já se esperava.” A jovem de cabelos escuros, tirou as luvas, e as pendurou no grosso cinto de couro.

“Quem é essa garota, Conde?”, zombou Sterling.

Paul instintivamente levou a mão à adaga.

“Calma.”  A mulher tocou o ombro do jovem e escolheu ignorar o lorde sulista, se virando para o Conde Cassel. “Pai, terminei a última caçada antes da geada, como combinado” Olhou de soslaio para o sulista muito alto e um tanto rude, antes de continuar. “No retorno, ordenei aos castelos que examinassem e limpassem esses sulistas antes do inverno. Vou me retirar. Ainda estou fedendo a sangue de monstro.” Bufou baixinho, impaciente.

Ela fez uma reverência ao pai e, ao sair, murmurou ao nobre de maior hierarquia:

“A garota é Phillipa Cassel, filha do Conde. Uma das Raposas.”

Lorde Paul deu um beijo na irmã e a deixou ir.

Essa foi a apresentação de Phillipa ao Duque Sterling.

 


Mais tarde Ren flutuava mansamente numa das piscinas das salas de banho do castelo, ouvindo o Grão Duque e Sir Karl conversando. Mentalmente, revisava os acontecimento dos últimos meses.

“Ren, o que acha desse povo?”, perguntou Sterling, visivelmente incomodado enquanto mergulhava nas águas quentes da torre oeste. Todos, desde o mais humilde recruta até o próprio duque, haviam sido forçados a lavar as roupas e a tomar banho.

“Eles levam a higiene pessoal muito a sério”, respondeu Karl, resmungando. Tinha perdido a barba e parte do cabelo, e, orgulhoso que era da aparência rude de cavaleiro veterano, não ficou nada feliz com suas rugas e a pele flácida exposta.

“O médico do Conde e o boticário exigem exames e banhos antes que qualquer um seja alojado em castelos ou fortalezas. É uma precaução contra doenças, e com razão. Já que chegamos antes do previsto, recomendo que sigamos as regras locais, alteza”. aconselhou Ren, relaxando nas águas quentes, o corpo inteiro submerso após ter sido igualmente tosado e barbeado. Eles podiam parar de conversar um pouco para eu relaxar. A calva brilhante de Karl, e os cabelos ondulados de Sterling haviam sido domados pela tesoura cruel do barbeiro dos Cassel, Quanto a ele, não se importava tanto, ou talvez o homem tenha ficado com dó e, ao menos se preocupou em cortar de maneira digna.

“Como conseguem tanta água quente? Fontes termais?”  Sterling demonstrava mais inveja do que curiosidade, e até tinha razão, pois, apesar da fama, Ninho dos Corvos era grande e desprovido de tais confortos.

“Mana. O castelo e outras localidades estão sobre antigas minas de pedras de mana. A energia residual é canalizada para prover utilidades como água quente” Era fácil sentir a mana fluindo ao seu redor, e imaginava se os soldados comuns também percebiam aquilo. A sensação era maravilhosa, como se seus canais de mana estivessem relaxando e se ampliando, sendo limpos e purificados.

“Aquela pirralha megera... é uma maga? Os filhos do Conde têm a idade dos meus próprios filhos!” continuou o duque, deixando os membros se soltarem na água, como se fosse uma criança grande. Ele não me engana, ele está tentado a aceitar a proposta do Conde! E se ele a enviar para o Sul, como noiva de um de seus filhos?

“Há muitas histórias sobre ela. Sim, é uma maga. Lorde Paul é um mago de batalha, apesar de ter abandonado a Academia em favor de um treinamento mais prático. Ouvi os criados e soldados elogiando lady Phillipa como uma maga poli-elemental, que já caçava goblins aos doze anos”. Impossível um mago experiente não notar como a aura dela vibra! É densa, multicolorida, tem uma fragrância peculiar...

“Mulheres foram feitas para serem protegidas, delicadas, belas. Não há propósito em torná-las magas ou cavaleiras. O destino natural de uma mulher é casar e gerar filhos” recitou Sterling, como se fosse o mais óbvio dos preceitos.

“Ren, meu amigo, você gostaria de uma mulher feia e masculinizada como esposa?”, provocou Karl com um sorriso debochado. “Eu gosto das minhas mulheres bem docinhas!”. Olhando para essa boca com dentes faltando e para o rosto pelancudo, ninguém imaginaria o que Karl realmente aprecia na parte de prazer dos acampamentos de campanha...

“Nem sei dizer se ela é bonita ou não... estava coberta de gosma de monstro...”

"É bela, estúpido, e pare de falar bobagens." Ela tem o rosto fino e traços longos e afilados, uma expressão séria, e olhar sempre cansado. A pele um pouco mais morena, com a palidez típica de quem tem magia escura, e os cabelos quase pretos, fartos, abundantes. Não é baixinha e nem frágil, e tem quadris largos, seios médios, que cabem nas mãos. Tenho certeza que ele observou alguns desses detalhes, assim como eu. Observou que, não obstante ela ser apenas uma mocinha, ela olha para os outros com olhos adultos e até maduros. Ela me fez sentir fome, ansiedade, o cheiro dela parecia o acompanhar, por exemplo, até ali, naquele salão, era como uma nuvem.

As piscinas ocupavam dois andares na torre ocidental, separadas por cortinas espessas. Antes que pudesse completar seu pensamento, viram a silhueta de um homem e uma mulher saindo da piscina ao lado. O homem ofereceu um robe à mulher e ambos passaram por eles.

Para desconforto geral, tratava-se de Paul e Phillipa, os cabelos longos da jovem escorrendo sobre os ombros, e os olhos gélidos dos irmãos fixando a todos com frieza glacial.

“Meu senhor, nunca vi irmãos tomarem banho juntos assim. Acha que eles...” Karl não conteve a suspeita.

“Dizem que desde crianças dormem no mesmo quarto. Não se preocupe, Sir Karl, Lorde Paul irá se casar com Lilia Poiret no próximo verão.,” Então o cheiro dela estava forte porque ela estava ali... Ren engoliu a saliva, antes de continuar “Há mana na água, alteza. Como se sente?”

“Minha cicatriz está dormente... agradável. Faz anos que não durmo uma noite inteira sem drogas. Queria poder dormir aqui mesmo” o duque respondeu antes de adormecer por alguns minutos, só despertando quando já estava sozinho na piscina.

Karl aproveitou para sair antes, e depois Ren se levantou e foi até a piscina onde os irmãos estavam, e tocou os objetos ao redor. “Ah, ela usou essa toalha”, encostou o rosto na toalha molhada e mergulhou na sensação do corpo da jovem, e nas suas memórias, os olhos azuis bem fechados, permitindo que apenas a luz de alguns momentos da vida de Phillipa Cassel lhe enchessem a mente.

 

 

Capítulo XVI – Proposta Incômoda

No dia seguinte, Phillipa adentrou a sala de conferências. Sterling franziu o cenho sempre que cruzava o olhar com a jovem, que não usava vestidos, mas um traje de cortes masculinos projetado por ela mesma.

O Conde os deixou, ocupado com assuntos relacionados à chegada da Geada, e Paul tinha suas próprias tarefas, gerenciando os recém-chegados. Roster, os clérigos do castelo e os instrutores também estavam ocupados, trocando informações com os soldados e revisando estoques de poções, drogas e outros suprimentos.

“Sua Graça, fui encarregada de mostrar-lhe os artefatos que sua legião utilizará. Fui informada de que pretende consertar os portais danificados e construir novos. Poderia me mostrar os pilares que trouxeram?”  Phillipa estava acompanhada por Sir Elton, enquanto Duque Sterling caminhava ao lado de Sir Ren.

“ Ora, pedes para ver nossa carga, mas a educação mínima de mostrar o castelo...” Sterling reclamou, em tom jocoso. Ren observou que a moça não apreciou a brincadeira, e sentiu seu coração bater um pouco mais rápido, apenas um pouquinho.

“Teremos bastante tempo para isso durante a geada, alteza. Os portais, no entanto, podem precisar de ajustes, e é melhor lidarmos com isso imediatamente. O mesmo vale para os artefatos — é preciso vê-los e decidir a quem serão atribuídos, para que essas pessoas possam ser devidamente treinadas.” Phillipa tratava o homem, que tinha idade para ser seu pai, como se fossem iguais. Essa não é uma donzela em apuros, ou uma moça que precise de proteção, é uma mulher fera, de coração frio, e corpo quente. A fome está me atormentando, pensou Ren.

Logo chegaram ao arsenal, onde estavam guardados os pilares de portal. Ren e Oliver abriram os caixotes, e Sterling enfureceu-se ao perceber a expressão pouco impressionada de Phillipa.

“Sim... precisaremos modificar algumas coisas” ela murmurou, coçando a cabeça, uma das mãos pousadas no quadril.

“Estes vieram da Academia Real de Magia!” Sterling protestou.

“Eu sei. E eles agem como se houvesse magos espaciais em toda parte, quando a realidade é bem diferente. Nós construiremos um portal aqui e o conectaremos aos que forem erguidos por vocês, mas com uma abordagem distinta: feitiços e sigilos espaciais ativados por mana ou cristais mágicos. Assim, mesmo sem um mago espacial, os portais continuarão funcionando.” Porquê ela se deu ao trabalho de explicar a esse bruto?

Ren observou o rosto de Sir Elton, absolutamente enfeitiçado: qualquer coisa que a jovem dissesse, ele acenava em concordância e elogiava. Já seu próprio senhor parecia desafiado, seus olhos verdes escuros fervilhando em irritação contida.

Os quatro seguiram para a torre da biblioteca, e Sir Elton abriu a porta de uma sala espaçosa.

“Veja, alteza, estes são discos amplificadores de mana. Dependendo de quem o senhor escolher para recebê-los, podemos ajustá-los ao tipo de magia elemental. São bastante úteis. E estes são dispositivos de comunicação, diferentes dos do Império. Temos utilizado aqui no condado e nas casas aliadas — são mais eficientes em termos de mana e podem ser carregados com facilidade.”

Havia uma expressão determinada no rosto da jovem. Seus olhos escuros brilhavam como obsidianas, e suas mãos acariciavam os artefatos — todos pequenos o suficiente para caber na palma da mão — como se fossem filhotes de pássaro. Phillipa claramente amava aquele trabalho.

“Mestre Roster deve ser um mago muito habilidoso”, Sterling comentou, cortando o encanto com sua observação seca.

“Alteza, essas são criações da própria Lady Phillipa” Sir Elton apartou, mais ofendido que a dama em questão.

“Deixe pra lá, Oliver. Estou apenas fazendo minha parte para proteger meu lar.” Ela ergueu o rosto e fixou seus olhos intensos no homem mais velho. “Alteza, está enxergando tudo da forma errada, precisamos nos entender melhor. Somos gratos pela vinda de sua legião para ajudar o norte, acima da Garganta. Tínhamos nosso planejamento e vocês nos forçaram a antecipar tudo, o que é complicado para uma casa sem muitos recursos. No entanto, meu irmão e eu suspeitamos que não foi sua decisão vir mais cedo. Sua legião é composta, em sua maioria, por terceiros e quartos filhos, plebeus sem nome, cavaleiros envelhecidos, muitos de outras bandeiras... como se fosse um bando improvisado, enviado para morrer nas terras áridas do norte.” A jovem foi bem precisa na sua leitura da Legião da Neve: um bando, na verdade, de veteranos e calouros, aventureiros, e homens que não tinham nada a perder.

O arquiduque Sterling sentiu o olhar dela, algo entre cândido e atrevido, expondo suas fraquezas.

“Não sei nada sobre a política das grandes casas. Conheci os herdeiros das Casas Miura e Clermont uma vez, quando eu tinha oito anos.” Ela olhou para o campo atrás da torre noroeste com um ar sonhador, ou ele estava imaginando? “E agradeço ao Lorde Leto Miura por ter despertado a magia de Paul e a minha precocemente” Não, ele estava certo, pensou Ren, ela realmente apreciou algo do passado relativo aos dois nobres, e pensou como iria descobrir detalhes. Ela continuou falando com seu mestre, porém ele bebia cada palavra. “Fora isso, não acredito que devamos nada ao Império. Vocês vieram, e precisamos que tenham sucesso, apesar das adversidades.” — Ela caminhou até o homem alto e parou bem próxima a ele e ao seu cavaleiro. “Aqui, não existem inimigos. Ah, e amanhã começa a geada. Tenho certeza de que conhecerão um tipo diferente de inverno”.

“Minha Senhora, vai treinar hoje?”  perguntou Sir Elton.

“Não sei... estou entediada. Sir Ren, gostaria de um duelo amistoso? Qual seu elemento?” Foi pego de surpresa pela pergunta, e engasgou. Mais do que surpreso pela pergunta, ele se surpreendeu por ter ficado embaraçado.

“Ren é um mago do vento. Eu sou de terra e fogo”, Sterling apartou, “E você, jovenzinha?

“Ah... sou poli-elemental. Tenho um bom domínio de alguns elementos, sou jovem, ainda tenho tempo para desenvolvê-los todos”. E os conduziu para fora da sala.

Poli-elemental? Ren tinha quase certeza que ela era omni elemental. Uma jóia rara.

Eles caminharam pelo castelo, pela muralha, pelo parapeito das torres, do alto de uma delas, Sterling e Ren não sabiam dizer mais qual delas, viram a moça acenar para baixo, e entenderam que o jovem Paul estava num pátio. Quando sorria, ela parecia ter a sua idade real, por outro lado, quando séria, os olhos escuros, com olheiras que, um dia eram mais marcadas e outros menos, a faziam mais severa, mais velha, até ameaçadora.

“Enviarei comida e bebida para os aposentos dos senhores. Essa noite deve gear. Com sua licença.” Ela se virou e se retirou, acompanhada pelo guarda-costas.

Ren examinou o rosto do Duque e percebeu o cenho franzido. “O senhor está sentindo dor?”

“Não, não, estou bem. Acho que os banhos tem me feito bem. Aquilo sobre a mana do castelo.”  o homem continuou com o cenho tão franzido que parecia uma linha reta.

“Sua Graça está considerando a proposta do Conde seriamente?”

“Eu ainda não sei se ela sabe da proposta. De qualquer maneira, me parece que pai e filha tem algo muito errado.”

Sir Reinfeld percebeu que ele mesmo havia passado a gravitar ao redor de Phillipa, buscando razões para estar próximo dela. A fome era como uma pontada, porém, cuidaria dela depois. Controlou as suas reações, e continuou a conversar, serenamente.

“Ela não é exatamente o seu tipo, em termos físicos, Sua Graça.” Ren sorriu, fingindo inocência.

“Pelos Deuses, gosto de mulheres de peitão, cinturinha, rostinho de boneca, você sabe, meu amigo! Essa menina tem jeito de megera, de mulher velha.” – o Duque deu uma sonora gargalhada – “de qualquer maneira, é ainda uma menina, e eu sou um bode velho. Se eles tivessem um título mais alto, seria possível se casar com um dos meus filhos, ainda assim, quem sabe? Talvez o mais novo.”

“O mais novo?  Bom, é melhor entrarmos, que escurece cedo, e dizem que essa tal geada é pior que os nossos invernos.” Enviar a menina para Adriel não seria má idéia, apesar do rapaz não ser páreo para uma maga tão poderosa. De qualquer maneira, Ren a veria novamente.

 

Parte II - A Geada

A geada não era uma nevasca comum, mas sim uma tempestade de mana. Chegava em pleno inverno, que era ameno, na maior parte,  anunciando-se com uma neve leve — como se advertisse todas as criaturas a buscarem abrigo. Então, a temperatura despencava de forma abrupta, congelando o mundo ao redor. O frio permanecia extremo por quase trinta dias, mas todos sabiam que o verdadeiro perigo residia nos três primeiros dias da geada, quando o mundo congelava, o restante, era oscilação da mana, e ia aumentando a temperatura, quando então chegaria o degelo e o inverno normal continuaria, mais ameno, até a primavera. Nos dias da geada real, qualquer um pego ao ar livre poderia congelar até a morte. Somente bestas de mana e monstros resistiam àquela queda vertiginosa de temperatura. Por isso, o Conde Cassel proibira a caça às bestas mágicas, devido à sua aversão natural aos monstros: deixaria que a natureza arcana se equilibrasse sozinha.

O dia da geada era silencioso, e as pessoas permaneciam dentro de casa, fazendo o possível para se aquecer. Era comum que famílias inteiras dormissem em um mesmo cômodo, com alimentos preparados com antecedência, a fim de otimizar o uso do calor.

Em vez de permanecer na cama, Donovan Sterling postou-se junto à janela, observando aquela geada mágica transformar o mundo em azul e branco. Não era como o inverno do Sul. O castelo estava repleto de círculos mágicos e sigilos que faziam a mana circular e aquecer os ambientes. Parecia irreal.

Ela tinha razão: aquilo era uma visão de tirar o fôlego. Cassel lhe havia oferecido a filha em casamento, e ele se sentira repugnado com a ideia. A garota era jovem demais — apenas dezessete, a mesma idade de seu filho mais novo. Ele já contava quarenta e dois anos, e sabia que morreria em breve, por causa de seu ferimento. Não era uma questão de pudores por algum amor passado, ou estar tomando a moça como segunda esposa, pois sua esposa fora envenenada e falecera cinco anos antes, então não estaria desonrando ninguém ao tomar outra mulher como esposa.

Marcus e ele vinham trocando correspondências havia meses. Para enfrentar as feras e fechar uma fenda, precisava do apoio das casas que ainda resistiam ao norte, para reunir os sobreviventes do caos. Precisava viver pelo menos até que seu filho mais velho pudesse herdar o título sem necessitar da aprovação da Coroa ou dos vassalos do Ducado, principalmente dos seus primos de segundo Grau, Conde Sterhaas e Marquês Delmas.

A solução seria casar-se com a garota dos Cassel. Marcus o advertira que a filha não tinha qualquer interesse em se tornar duquesa — seu único objetivo era caçar monstros. Sterling achara isso uma tolice — como poderia uma garota ser caçadora ou aventureira?

Mas tudo em Phillipa Cassel o deixava desconcertado.

Estava nu, envolto em um cobertor, contemplando o mundo congelado lá fora, quando se sobressaltou ao perceber alguém entrando em seu quarto. Era ela — a garota — vestida com um robe grosso e meias de lã.

“Eu te disse que a geada não era como uma nevasca comum. No ano em que nasci, dizem que houve uma durante o outono. Não morreram muitos, mas houve fome.”
“Então você é uma criança amaldiçoada? No Sul dizemos isso de crianças que nascem em anos trágicos.” Mal falou e se arrependeu, pensando como ele sempre parece dizer a coisa errada àquela moça.
“Quem, eu? Como se eu fosse a única nascida naquele dia? Não caio nessa. Essa história serve de lembrete: nunca devemos tomar nada como garantido. Temos que estar sempre preparados.”
“Você é sábia além dos seus anos, presumo.”

“Talvez eu seja uma alma velha, quem sabe?” ela sorriu.

Sterling era alto, forte, com feições um tanto rudes. Phillipa o comparava a um Gerard Butler de meia-idade: cabelos castanho-avermelhados, olhos verdes profundos. Era um homem bonito e másculo, embora marcado pelas batalhas e caçadas a monstros às quais a Coroa o submetia sem trégua. Um verdadeiro tanque, ela pensou. Sabia do plano de seu pai — e, para seu alívio, o duque não era um velho repulsivo fisicamente, pelo contrário: era um homem extremamente atraente. Embora, claro, essa percepção pudesse estar distorcida por conta de sua vida anterior: era uma mulher madura, presa no corpo de uma jovem.



A sua situação com Paul havia chegado no limite, e seu pai a havia acostado e ameaçado. Ela precisava fugir, a questão era muito simples, e não podia pedir que o rapaz a acompanhasse, pois ele já havia feito demais por ela na vida.

“Você é um mago do fogo. Se sentir que o quarto está frio demais, basta infundir magia elemental naquele círculo ali”  ela apontou para a parede próxima à cama. “E se precisar de comida, toque o sino. Eles enviarão por aquela portinhola”  disse, mostrando um tipo de elevador usado para distribuir suprimentos pelos cômodos.

“E se eu quiser tomar banho? A água está congelada?”  ele novamente lhe deu um sorriso jocoso.

“Não. A água vem da antiga mina de pedras de mana e é aquecida por fragmentos de pedras de fogo que sobraram. Basta abrir a torneira e mergulhar o quanto quiser.”

“Para um castelo antigo, isto aqui é bem confortável.”

“Não temos uma mansão. Este é nosso lar, é daqui que governamos e administramos. Algumas partes são mais agradáveis que outras... mas não se engane, isso aqui ainda é um castelo velho”  ela retribuiu o sorriso.

“E o que pensa da proposta de seu pai? Percebo que você está ciente.” ele perguntou, os dois de pé junto à janela.

“Eu quero ir para o norte, ou para o sul. Se for com você como caçadora, vão me rotular de seguidora de acampamento, prostituta, não importa meu título. Eu mesma redigi a proposta com meu pai: não quero título, nem direito de herança — só um lugar para viver e um negócio para tocar. Não precisamos ter filhos.” A noite tinha uma luz cinza clara, bruxuleante. “Sei que não tenho título para ser esposa de um de seus filhos, e só quero ser livre.”

“Você está ciente de que casamentos em famílias ducais só são válidos quando consumados? Eu posso escapar do período todo de noivado, por causa da minha condição especial, porém o contrato só é cumprido quando o casal consuma a união e eu marco o selo com sangue... mesmo que isso ocorra dias após a cerimônia.”

“Não, eu não sabia que seria obrigada a consumar o casamento para ele ser válido.” Ela mordeu os lábios e franziu o cenho. Donovan se enrolou mais forte nas cobertas, subitamente consciente de si mesmo. “Eu não sou bonita, alteza. E não sou uma dama refinada... Não sou material para salões de chá, mas sei que serei útil em caçadas. Nós seremos úteis um ao outro.” A entonação dela era estranha aos ouvidos dele, parecia estar confortando-o, como se ele fosse a pessoa que devesse ter medo de alguma coisa.

“Você já viu um homem nu? Já esteve com um homem?”, ele a questionou, severo.

Phillipa tinha a alma de uma mulher mais velha, vinda de um mundo diferente em todos os sentidos, e a postura de Donovan a irritou.

“O que o senhor quer saber é se ainda sou virgem, não é? Pois bem, eu sou sim. Isso não significa que nunca tenha visto um homem nu, pois já vi meu irmão várias vezes!”

O  Grão duque não se moveu, indeciso diante a moça diante de si, no entanto, como que determinado a não se deixar intimidar, a seguiu até a cama grande e macia, e se sentou, contemplando a jovem em pé diante dele, banhada pela luz fraca, filtrada pelas cortinas.

“Os homens dão tanta importância à virgindade, à integridade dessa fina membrana. Oh, Sua Graça, há tantas maneiras de um homem e uma mulher se darem prazer sem rasgar esse véu frágil. Não pensei que o senhor faria uma pergunta tão tola, justamente um homem da sua idade!”  Ela se sentou na cama ao lado dele e desenrolou o cobertor de seu ombro, expondo seu corpo forte e musculoso.

“Você não fala como uma nobre de dezessete anos!” Seu tom guardava acusação, porém o enigma que aquela moça lhe postara, desde que a viu pela primeira vez, lhe despertava sentimentos conflitantes de raiva, um desejo de dominação, até medo, considerando os valores que ele havia prometido guardar, como cavaleiro.

Ela não era uma rameira, nem uma criadinha ambiciosa, ou estúpida, a se deitar com qualquer um. Como um varão da família real, ele tinha alta sensibilidade a mana, mais do que a maioria das pessoas, apenas procurava evitar seus dons de nascença, acreditando que os dons inatos dos Maximus. eram os responsáveis pela loucura e crueldade que viravam uns contra os outros. Aquela moça podia ser enquadrada como uma fera de mana.

“Talvez porque eu seja uma conjuradora de batalha, uma caçadora de monstros, e ser tímida e indecisa seja o caminho certo para o túmulo. Todavia, nada disso faz de mim uma prostituta.” Ela o olhava sem medo, sem pudor.

“Isso é pecado! Você deveria saber no que está se metendo”. Ele murmurou, com os olhos vidrados e a puxou para um beijo. Seus lábios eram frescos, macios, jovens, e sua língua se movia sem pudor. Como podia um monstro ter uma boca tão suave, ele pensou, excitado. Ele deixou que ela beijasse seus lóbulos das orelhas, seu pescoço, peitorais, seu abdômen. Ele sentiu sua ereção sob o cobertor e fez um esforço débil para impedi-la de abrir o cobertor. Havia algo de vulnerável nesse gesto, que suscitou um sorriso sorrateiro, da moça.

“Você é ousada demais para o meu gosto.” Não estava mentindo, e no entanto, ele se encontrava enfeitiçado por aquela desavergonhada, ansiando por devorar as suas carnes, colocar-lhe uma coleira ao pescoço, e gozar dela sempre que quisesse.

“Sua Graça tem a opção de rejeitar a proposta, e eu não ir com a legião. Pode ser também que se dêem muito bem sem mim. Ou pode transferir o contrato para um de seus filhos, nos mesmos termos” ela se sentou sobre ele, estreitando-o entre suas pernas. Instintivamente ele se reclinou na cama, como uma montaria para aquela amazona.

Que artes diabólicas eram aquelas, ele pensou, que ensinaram àquela menina? Ela falava de coisas sérias, entre suspiros enquanto o beijava e acariciava. Sua cabeça girava, e seu membro pulsava entre suas pernas, o corpo forte reclamando cuidados de mulher.

“Quem te ensinou a fazer isso, garota?” A voz dele saiu baixa e rouca. A mente dele funcionava de maneira a justificar seus desejos. Seus filhos se tornavam meninos pequenos, em sua memória, incapazes de lidar com uma fêmea adulta, e ele é quem tinha o direito e o dever de tomar as rédeas.

O olhar dela, negro e lânguido, parecia engoli-lo. Ainda o beijando e acariciando, ela lhe respondeu – “Os homens fazem isso uns com os outros, muitos cavaleiros usam pajens e escudeiros, mesmo mulheres se roçam com outras mulheres, não é?” – sentiu um sorriso malicioso se desenhando nos cantos dos lábios dela, porém seu olhar foi para o robe dela, que se abriu durante o contato dos dois, expondo os seios jovens de bicos duros e arrepiados. Ela continuou, suspirando no ouvindo dele, o perfume dos cabelos dela impregnando o ar “Durante a geada, muitos homens e mulheres fazem o mesmo neste mesmo castelo, em quartos, salas, adegas, qualquer canto, buscando o calor e o conforto uns dos outros. Finalmente, quando eu tiver um marido, poderei desfrutar de tais prazeres completos."

Sterling nunca vira um monstro tão vil quanto Phillipa. Teve ganas de domá-la como quem amansa um bicho bravo, montando-lhe até que sossegasse e se mostrasse passiva e dócil, de marcar-lhe as carnes com seus dentes, seu brasão, de trazê-la pelos cabelos, aquelas madeixas negras, fartas, macias e onduladas, como pelos de uma besta divina.

Ele não sabe como ela o fez, mas sentiu um fluxo de magia espiritual no seu flanco, e o relaxamento foi tão forte, que ele se deitou, sonolento.

“O que me fizestes, demônia!” Ele perguntou, um sorriso tolo estampado no rosto.

“Só aliviei a dor dessa maldição no seu flanco, Sua Graça. Infelizmente, eu não posso quebra-la.” Ela continuou sentada sobre ele, o robe aberto, expondo os seios, e acariciando o ventre dele.

“Shhh... eu sei, ninguém pode. Vem cá, sua demônia!” Ele esticou o braço e a puxou para si, adormecendo quase que imediatamente, livre das dores.

 

Assim que o homem adormeceu mais profundamente, Phillipa se vestiu e saiu de seus aposentos, andando ligeira até o seu próprio quarto, onde seu irmão Paul a esperava.

Saber que não era irmã de sangue de Paul, foi um presente que ele lhe havia dado há pouco mais de um ano, quando eles se beijaram pela primeira vez.  O jovem maldizia a atitude nobre do pai de adotar a sobrinha como sua filha, uma vez que selava o destino de ambos. Os irmãos adotivos não tinham segredos de seus corpos um com o outro, sendo difícil disfarçar a intimidade diante dos outros.

Nos últimos dias, ele visitava o quarto dela todas as noites. Eles se beijavam e faziam amor, preservando sua virgindade. Ela bebeu avidamente o sêmen dele e deixou que ele a possuísse por trás. Ele a chupava, incansável, vendo-a gozar várias vezes seguidas, lambendo seus sucos, e sentiu-se desesperado, desejando penetrá-la.

Imaginá-la com outro homem lhe suscitava ódio e rancor, e saber que outro haveria de toma-la pela primeira vez, a tornando uma mulher adulta, lhe dava ganas homicidas. Ninguém seria tão gentil e carinhoso com Phillipa quanto ele, ninguém a amaria tanto!

 

Capítulo XVII — Contrato de Sangue

Paul odiava o duque. Sonhava com o dia em que teria Phillipa ao seu lado para sempre — não como irmã, mas como companheira, amante e igual. Aceitara o casamento arranjado com Lelia Poiret apenas com a condição de que Phillipa permanecesse próxima, como sua verdadeira confidente. Por contrato, ela teria um pequeno domínio e um negócio próprio, mas nos delírios do jovem lorde, ela seria muito mais: a mulher que lhe daria filhos fortes, herdeiros de seu sangue e magia. Um sonho tolo... perigoso e impossível.

No dia seguinte ao fim da Geada, Duque Donovan Sterling e o Conde Marcus Cassel iniciaram formalmente as negociações para unir suas Casas por meio do matrimônio entre o próprio duque e a filha caçula do conde. O processo de ajuste contratual mágico e notificação às instâncias do Império durou três longas semanas. Por ser grão duque, Sterling não precisava de autorização externa — bastava cumprir os ritos sagrados e selar a união conforme a tradição.

Uma semana antes do degelo, o casamento foi celebrado. Um ritual simples, diante de clérigos e testemunhas, consagrando Phillipa como esposa do Lobo de Inverno. O contrato mágico foi pendurado no salão nobre, selado com runas e bênçãos de sangue. Três dias de banquetes sucederam-se, regados a vinho forte, canções antigas e risos desconfiados.

Na noite da consumação, ambos haviam sido banhados em ervas perfumadas, suas peles envoltas em óleos cálidos, como mandava o protocolo ancestral. Phillipa trajava uma camisola de linho branco, simples, como tudo o mais nela — e ainda assim, algo em seus olhos escuros despertava um incômodo fascínio no coração endurecido de Sterling.

“Deve ter se decepcionado com uma noiva tão... comum, alteza” disse ela, sua voz sem emoção aparente.

“Você não é mais minha noiva, Phillipa. É minha esposa. E, confesso, ainda me soa estranho estar diante de alguém tão jovem.” Ele a olhou com seriedade, a mão ainda hesitante sobre o ombro dela. “Prometo que, ao voltarmos, teremos uma cerimônia digna de seu nome.”

Ela nada disse por um instante. Não se importava com promessas vazias, mas percebia que ele precisava pronunciá-las. Então, apenas assentiu:

“Promete mesmo?”

“Prometo.”

Um silêncio pairou entre os dois.

“Alteza... naquele dia, me chamaste de demônia... enfim, dizem que a primeira vez pode ser dolorosa. Pode me prometer ser gentil?”

Donovan, embora surpreendido pelo pedido, se despiu totalmente diante da moça. Seu corpo, ainda forte apesar dos anos e cicatrizes, refletia o peso de muitas guerras. Aproximou-se dela com desconfiança, assombrado por uma jovem nobre que se mostrava fora de seus padrões e valores. Phillipa, sem mais hesitar, deixou que a camisola escorregasse até seus pés, revelando não apenas sua nudez, mas também sua vulnerabilidade — rara, preciosa, protegida por tantas camadas de armadura emocional.

“É mesmo virgem, garota? O contrato... ele só será selado se for de verdade...” o comportamento dela o deixava confuso, e ele acabava sendo rude.

Ela olhou-o nos olhos, sem sinal de qualquer temor. Ela era leve nos braços dele, e a carregou até a cama, onde a deitou, a chama das velas, quente e bruxuleante, substituindo os cristais mágicos, tão mais frios.

A pele dela perdia a palidez e ganhava um tom dourado, sob aquela luz. A viu como uma potra, de crinas negras e olhos ferozes, clamando por alguém que lhe colocasse selas.

Foi difícil no começo. Ela estava tensa e havia uma certa resistência. Quando ele a penetrou, ela sentiu uma dor aguda que a fez ofegar. Surpreso por ela realmente ser a virgem que declarara ser, ele parou e examinou seu rosto. A moça estava um pouco pálida e tremia, as pernas tremiam ao redor dele, e essa vulnerabilidade era seu prêmio e direito, como macho.

Algo nessa vulnerabilidade, tão diferente da ousadia do primeiro beijo deles, o deixou mais excitado e, ao mesmo tempo enraivecido. O que ele queria realmente? A moça frágil ou a mulher segura?

Assim que ela recuperou o fôlego, ele novamente começou a penetrá-la, lentamente, em estocadas longas e deliberadas, e ela gemeu de dor. Ela empurrou o tronco dele para longe de si e começou a mover os quadris para acompanhar as estocadas dele, deixando-se levar, entregando-se à sensação e acolhendo seu pênis, e finalmente apreciando um pouco o ato.

A mão, luzindo com magia de cura, pousada sobre o ventre, aliviou a dor, e ela relaxou. Não era maga de cura, mas conseguia um efeito leve. Manteve o esposo com o torso levemente erguido e, enquanto ele arremetia, ela se abria e acariciava suavemente o clitóris.

Ela gozou suavementee, gemendo e mordendo o travesseiro, e ele gozou dentro dela, enchendo-a com seu leite.

Ele ativou a lâmpada de mana ao lado da cama e examinou os lençóis. Seu sêmen e um pouco do sangue dela estavam misturados. Colocou o anel sobre a mancha de sêmen e sangue, umedecendo a pedra cravada no anel. Os brasões da Casa Cassel e da Casa Sterling, gravados no contrato, moveram-se e se entrelaçaram, indicando que o casal havia consumado a união.

O salão explodiu em aplausos e gritos de celebração. Com exceção de Paul, Sir Elton e, curiosamente, Sir Ren — que não compreendia por que aquilo lhe parecia tão errado.

Era leal ao seu senhor, admirava-o como um verdadeiro modelo e o seguiria até o inferno, se fosse necessário. Era um Cavaleiro de Armas, um excelente coletor de informações e espião treinado — instruído desde cedo a jamais julgar aquilo que não lhe dizia respeito. Mas aquilo estava errado. Era indigno. Diminuía uma jovem tão corajosa. Por mais admirável que fosse seu senhor, seus dias estavam contados. Seus parentes já buscavam casamentos vantajosos para seus dois filhos. A filha de um conde era, aos olhos do sul, apenas uma nobre menor — muito abaixo da linhagem real. E por isso a haviam dado a um homem velho? Estavam vendendo Phillipa a preço vil. O que estavam pensando?

Era isso que o Cavaleiro Ren deveria pensar, no entanto, ele se sentia triste e amargo por um ciúme e inveja mais vis.

Dentro da câmara nupcial, Donovan quebrou o silêncio entre os dois, ciente que alhures estariam celebrando a consumação.

“Doeu muito?” Ele estendeu a ela um copo de água com algumas gotas de poção analgésica.

“Sim, doeu” a moça olhava fixamente para o teto entre o dossel. Em parte, Phillipa chegou a sonhar que sua primeira vez fosse encantada, porém ela deveria ter sido mais realista, afinal, ela havia dado sua virgindade em outra vida, e a experiência não havia sido muito melhor.

De maneira pouco característica, o grão duque gaguejou um pedido de desculpas. “Perdão, eu não acreditei...”

“Eu sei o que Sua Graça pensava. Posso me lavar?” ela se arrastou para fora da cama, e usou de uma bacia com água para se limpar, o líquido morno, oriundo do lago oculto nas profundezas do Castelo, lhe aliviando a dor do véu rasgado.

Vê-la se lavando, nua diante de uma bacia de água, acendeu o desejo no noivo, e ele a requisitou novamente, indiferente a dor que ela tenha sentido. Com cuidado, Phillipa o conduziu para longe de seu hímen recém rompido, e o satisfez de outras maneiras, compreendendo os modos do seu esposo na cama como um tanto rudes e egoístas. Cansado, ele caiu num sono profundo, permitindo que a sua nova esposa se esgueirasse da câmara nupcial para seu quarto de solteira, onde Paul a esperava, com a banheira cheia de água quente, e visivelmente alcoolizado.

 

Somente então, o corpo relaxando no calor da água cheia de mana , e das mãos do seu irmão e amante, que ela percebeu que as lágrimas escorriam livremente pelo seu rosto, sem que ela pudesse de maneira alguma contê-las. Paul a beijou, colhendo dos olhos, da face e dos seus lábios, aquele sal tão sofrido. Ele era o seu melhor aliado naquele mundo, e seu primeiro amor.

 

“Ele lhe maltratou, meu amor?” a voz suave do rapaz não conseguia esconder seu rancor.

 

“Não, não exatamente. É que... sangrei um pouco.” ao perceber a expressão preocupada do irmão, ela continuou. “Calma, estou bem agora.”

 

Paul lhe ofereceu um frasco com apenas dois goles de um líquido viscoso e doce, e ela sorriu, sabendo que era a poção anestésica e narcótica. Naquela dose, ela apenas sentiria um relaxamento profundo, e, olhando nos olhos dele, pediu para que eles fizessem naquele momento memórias melhores, para que, sem o obstáculo do véu, ambos se amassem por completo pela primeira vez.

 

“Ah, isso é tão bom! Paul, por favor, me dê outras memórias!” e o beijou, as línguas se acariciando, com intensidade crescente, sem sombra de inibição. E assim fizeram, bêbados um do afeto e da luxúria do outro, finalmente conseguindo o prazer que por tantos anos sonharam.

Sempre havia odiado a necessidade do selo de virgindade, e fizera de tudo para poder ter prazer com seu corpo. O hímen só lhe servia como um obstáculo e símbolo de propriedade para o outro, e o seu rompimento, que havia sido doloroso na sua outra encarnação, se provara novamente doloroso. Estava feliz de ter se livrado daquela membrana e apta a gozar inteiramente de si mesma.

 

Na manhã seguinte, Sterling despertou sozinho e foi procurar por sua esposa, que dormia em sua antiga cama de donzela. Viu o frasco de analgésico e sentiu uma pontada de culpa. Por mais sensual que fosse, Phillipa ainda era virgem — e talvez ele tivesse sido bruto demais com ela. Certamente estava dolorida... e talvez temesse que ele acordasse e a tomasse novamente. A verdade é que ele queria mesmo possuí-la quantas vezes desejasse. Decidiu que compartilhariam a tenda durante a marcha. E se morresse em menos de dois anos? Não era algo contagioso — era uma maldição. Ele iria tratá-la bem.

 

Foi até os banhos e encontrou Ren mergulhado nas águas.
“Bom dia, Sua Graça, parabéns pelo casamento!” saudou o cavaleiro.
“Sua Graça parece revigorado esta manhã! Nada como o calor de uma donzela para reacender o vigor de um homem!” Karl comentou, desagradável, como sempre.

“Não esperava encontrá-lo aqui, meu senhor.” Ren comentou.
“A garota ficou dolorida depois de algumas rodadas. Era sua primeira vez, e ela foi valente.” Sterling respondeu, relaxado, como se falasse de uma potra, alheio às marcas de mordidas e arranhões que sua noiva havia deixado em seu corpo.

“Ela é fogosa , não é?”  zombou Karl.
“Velho gambá! Ela é minha esposa e vossa senhora. É melhor tratá-la como se fosse a mim!”  replicou Sterling, ainda de olhos fechados.

Ren tinha passado a noite com uma criada, erguendo saias em um corredor escuro. Era um homem popular, e sabia que entre as seguidoras do exército — prostitutas e lavadeiras — ele sempre teria preferência. No entanto, sentia inveja das marcas que a jovem duquesa deixou no corpo de seu senhor.

Paul Cassel entrou sozinho e se juntou ao banho.
“Bom dia… cunhado” disse ao duque. “Somos família… de certo modo, agora.” A voz não tinha um tom amistoso, traindo a animosidade que pautou a relação dos dois desde que se conheceram. Algumas marcas em seu pescoço indicavam que ele também havia se divertido na noite anterior.

“ Certamente… Ah, Paul. Agora que Phillipa é minha esposa, espero que se abstenha daqueles banhos com ela”, disse Sterling, calmo, olhos ainda fechados.

“Ela sempre será minha irmã, senhor duque, mesmo após sua partida. Mas se isso o incomoda, não me imporei a ninguém, claro.”

“Dizem que o degelo começa amanhã, então devemos começar os preparativos e marchar rumo ao norte”, disparou o duque.

“É cedo para o degelo, mas vocês estão acostumados ao inverno. Não me preocupo. Especialmente porque enviaremos uma comitiva com a minha irmã”, Paul respondeu.

Ren e Karl ouviram tudo como se fosse um duelo de palavras.

“E você tem cavaleiros de sobra, cunhado? Sim, para cuidar de damas de companhia, tendas...” Sterling abriu os olhos e lançou um olhar avaliador ao jovem.

“Não, apenas caçadores leais a minha irmã. Digo-lhe que, mesmo se quiséssemos impedi-los, esses homens seguiriam à Phillipa.” Paul parecia corar levemente.

“Achei que apenas cavaleiros faziam tais juramentos. Os nortistas são mesmo peculiares!”,  provocou Karl.

“Alguns desses homens nos conhecem desde a infância, outros cresceram conosco. Caçaram ao nosso lado durante anos. Você nunca lutou ao lado dela. Eles, sim. E acreditam que ela precisará deles. Se eu pudesse, eu mesmo a acompanharia” disse Paul, agora visivelmente emocionado.

“Ela se gabou de ser polielemental. Quero ver todo esse talento em ação!” Sterling sorriu.

Foi então que Sir Oliver Elton entrou no banho, saudando os presentes com alegria: “ Ao menos eu vou com a legião, seguindo minha senhora!”

“Olly, eles acham que exageramos nas histórias da Lipa! Vou deixá-los contigo!”

Paul saiu da piscina, acenando para o jovem Elton.

“Pois bem, meu Senhor! Eu estava com ela quando matou seus primeiros goblins. Ela ficou tão furiosa ao encontrar um Goblin Semeador montando três mulheres — pobrezinhas, estavam acabadas — que ela incendiou a toca com um feitiço de fogo tão poderoso que o teto gotejou rocha derretida. Depois, juntos, eliminamos os que restavam. Na noite anterior, ela já havia matado uma dúzia sozinha.”

“Gaba-se muito, hein?”, comentou Karl.

“Nem um pouco. Naquele tempo, ela havia fugido de casa disfarçada de garoto para poder aventurar-se. Aquela lá não hesita. Já a vi derrotar kobolds, hobgoblins, homens-lagarto, bestiais e metamorfos. Nenhuma naga é páreo para ela. E é inteligente: encheu a região de círculos mágicos e sigilos. Quer enfrentar vermes de areia, mortos-vivos, grifos, até dragões. Espero que não encontremos nenhum, veja bem.” Elton parecia falar de uma espécie de guerreira mítica.

“Então me casei com uma maga de batalha. Não é nenhuma donzela frágil, pelo visto” Sterling riu, visivelmente constrangido.

“Ainda assim, com todo o respeito, muitos de nós acreditamos que ela é a mulher mais incrível e bela que já vimos. Como nenhum de nós pode se casar com ela, juramos estar ao lado dela”.

“Não é um juramento de cavaleiro, no entanto, admiro a lealdade de vocês. Por outro lado, não acha um abuso falar assim diante do marido dela, rapaz?” Ren alfinetou.

Elton coçou a cabeça, com as bochechas e orelhas vermelhas, sem conseguir olhar diretamente para o Grão-Duque. Depois de um suspiro, continuou “ Não subestimo minha senhora, Sir Ren. Nem me superestimo. É verdade que morreríamos por ela, mas tudo o que ela aceitou de nós foi o compromisso de estar ao seu lado. Ela tem apenas dezessete anos e tudo o que fez na vida foi estudar, treinar, trabalhar e caçar. Eu queria que ela não fosse nessa missão. Mas vosso duque a roubou de nós. Ou o Conde prefere abrir caminho para a purgante da noiva do senhor Paul...” – Olly não deixava fofocas pela metade, e não era segredo que Paul se casaria no verão, muito menos que a noiva, Lelia Poiret, riquíssima e filha única, detestava a cunhada famosa.

Com o passar dos dias, a legião reunia-se do lado de fora dos muros. Logo seria hora de partir, pois o gelo derretia mais rápido do que o esperado. Os magos da terra teriam trabalho mantendo a estrada transitável apesar da lama.

Phillipa recusou sua comitiva e repreendeu os cavaleiros e soldados da casa, mas dez deles mantiveram-se firmes e a seguiram. Ela podia quase ouvir o sorriso de Sir Elton sob o elmo, capuz e cachecol, sua voz abafada dizendo que estava feliz por embarcar na aventura de uma vida.

A Partida

Ao lado dele, um dos gêmeos do Mestre dos Estábulos, Zach, um jovem robusto de dezoito anos, que havia aparecido no castelo pouco depois de Oliver, implorando para servir à Senhora Matadora de Monstros.

Os amigos Jayce e Joyce, dois caçadores da vila de Elmore, homens de vinte e cinco anos, que Phillipa e Paul tinham certeza serem um casal.  Lorne, nascido e criado no castelo, Sir Winston, um homem de trinta anos vindo da capital, que chegara a Cassel para treinar os irmãos em arco e espada curta e acabara se tornando devoto dos Raposas, e mais quatro soldados, nascidos no norte, acolhidos como refugiados, e que viram na missão a oportunidade de recuperar suas terras e vingar-se das criaturas. Eles conheciam bem a geografia da região; um deles até auxiliava o boticário, sendo capaz de improvisar alguns medicamentos, se necessário.

Ciente dos elementos e do potencial de mana de cada um, Phillipa concedeu a todos artefatos, poções, armas forjadas com cristais de mana e armaduras confeccionadas com couro de monstros — muito mais leves que as armaduras metálicas usadas pelos estrangeiros.

Partiram antes do nascer do sol, e os onze de Cassel sentiram o ritmo da marcha extremamente lento, sobretudo por causa dos soldados a pé e das carroças. Após um dia inteiro de deslocamento, acamparam.

Enquanto os homens de Sterling montavam tendas, o grupo de Cassel simplesmente estendeu seus cobertores no chão, cobriu os cavalos e repousou.  Ren se aproximou deles e informou à Lady Phillipa que sua alteza requisitava sua presença. Ela revirou os olhos e o acompanhou.

Entrou na tenda e viu o marido se lavando em uma bacia e aquecendo comida para os dois.

“Onde está sua bagagem? Você vai dormir aqui. Que tolice é essa do seu povo dormir ao relento?” A voz de Donovan era grave, levemente rouca.

“Eles não estão com frio. Como regra, só montamos acampamento completo, como vocês, quando alcançamos uma propriedade ou nos aproximamos de algum alvo. Usamos um artefato no chão, e fica bastante aconchegante. Não vai chover esta noite, de qualquer forma.”

“E você poderia me dizer, por favor, qual é esse alvo tão urgente que impede vocês de montar acampamento ou comer decentemente?” ele se sentou numa cadeira, reclinando-se com os braços cruzados, como se falasse com uma criança.

“Meu marido é o líder. Então deveria saber disso melhor do que eu” ela retrucou, , firme como um soldado.

“Você me faz pensar que meus dois filhos são verdadeiros anjinhos, Phillipa!”, Donovan não se furtou a demonstrar impaciência.

“Meu lorde, precisamos ultrapassar a região fria e avançar para as áreas quentes, que nesta época do ano estão bastante agradáveis.”

“Estou ciente disso, mas não temos magos suficientes para manter todos aquecidos, garota, numa marcha forçada”

“Tem, sim. Muitos. O império tem essa política de investir apenas em nobres ou prodígios inegáveis. Aqueles com talentos menores são descartados. Mesmo os de pouca mana ou afinidade instável recebem algum treinamento por aqui, e temo que, pelo menos em nossas terras, a caça a monstros se tornou quase um esporte! Usamos os lucros para criar artefatos que potencializam esses pequenos dons...” Lipa gesticulava, ao falar de seu trabalho e de suas idéias.

“Você sabe que é traição não entregar ou vender todos os cristais de mana ou pedras de monstro ao império!”, o tom áspero, traía um leve medo, sim, o medo das garras do império.

“E eu lá me importo? Ninguém da Casa Real ou representante do império veio nos ajudar. Vai me delatar, Sua Graça? Vai entregar sua própria esposa?” ela zombou.

“O brasão da Casa Cassel tem uma raposa comendo uvas. Raposas ardilosas. Ouvi dizer que caíram em desgraça há décadas por causa dessas coisas.” Donovan apertou os olhos, examinando a esposa, em seu uniforme de caça.

“Não, meu esposo. Não dessas coisas, mas talvez sejamos ardilosos, já que nenhuma mulher da Casa Cassel jamais entrou para o harém. Sempre encontramos formas de poupá-las dessa indignidade. Mesmo ao custo daquilo que chamam de honra”, ela rebateu sem o menor receio de ferir a sensibilidade do esposo.

“Venha se lavar, minha esposa.” Ela ainda era esposa dele, por direito consumado, ele pensou. Apontou para as bacias de água, e para uma camisa limpa. Imediatamente ela compreendeu o papel que teria de cumprir.

 

Havia pouca privacidade em um acampamento, mesmo dentro da tenda do líder da legião. Ele a empurrou para sua cama de peles e mergulhou em seu corpo. Não se importou que seu ajudante entrasse discretamente no recinto para lhe entregar um cesto com a ceia. Enquanto ele a penetrava, alheio ao mundo, os olhos dela encontraram os de Ren.

 

“Meu senhor, por favor, mais devagar!" E ela o empurrou, rolando de bruços, levantando os quadris, implorando que ele a possuísse por trás, como uma mulher submissa, porém, sinalizando uma carnalidade animal. Seu esposo não resistiu, ela estava se comportando de forma tão lasciva que ele penetrou sua buceta pequena e molhada por trás, com movimentos tão ferozes que ele praticamente desabou sobre ela, após ejacular.

 

Phillippa tinha consciência que Sir Ren estava espionando a cena e se sentiu bem, como se o desejo desse outro homem a compensasse ou vingasse a falta de carinho do marido. Ela tirou a camisa, colocou a mão do marido em seus seios e sussurrou: "Obrigada, meu senhor", e pediu que ele acariciasse seus mamilos, enquanto se satisfazia, tocando seu clitóris, rijo ainda do coito. Depois de gozar, ela o beijou e falou suavemente em seu ouvido, “Sua Graça poderia me transformar em uma prostituta, sua vagabunda privada e legítima, em vez de uma esposa. É isso que você quer? Eu vejo sua luxúria, meu senhor. Você está cansado de cavalgar o dia todo, mas não consegue resistir a me deixar com sede de você."

 

Ela olhou sutilmente por cima do ombro e percebeu a presença do cavaleiro na escuridão do lado de fora da tenda. Seu esposo ofegava ainda, depois de uma hora de ter gozado nela, mas tomara uma poção, irritado de vê-la ainda tão fogosa. Ela se curvou ao membro dele e o envolveu com seus lábios, sugando a cabeçorra rosada, roçando a língua em suas bordas e então engolindo o máximo da verga que podia.

O duque a chamou de demônia, mas empurrou sua cabeça tão fundo que quase vomitou. Ela estava com os olhos lacrimejando, o pau dele babado, e já sem controle de si, sentou-se sobre ele, fazendo do homem seu cavalo, e do sexo uma cavalgada deliberada e firme, em que ela, amazona, explodiu num gozo úmido, que melava o membro. Ele sentiu ela arquejando o corpo sobre ele, e segurou pelos quadris e os cabelos, ele tão maior do que ela, porém tão empenhado em submetê-la, ela, mulher fera, monstro que lhe apertava e sugava a vara com a xota em gozo, mordendo, arranhando, falando obscenidades, como se estivesse possuída.

A voz dela, ofegante, suspirada, ao ouvido dele, pediu, com apenas duas palavras, “Me fode”, e ele perdeu o pouco de juízo que ainda tinha, e virou-a na cama, abrindo as pernas dela e controlando a metida, enquanto que a outra mão, a prendia pelo pescoço, e rosto. Ela sentia a estocada profunda e gozou, novamente, com ele, o jorro de semente quente lhe dando uma sensação maravilhosa, e ele caiu sobre ela, o coração quase saindo do peito.

Pela primeira vez ela havia gozado de verdade com outro homem que não fosse Paul, naquela encarnação. O sexo era bom às vezes, mesmo que eles não se amassem. Seria melhor se houvesse amor e intimidade, entretanto ela não deixaria de ter a felicidade que pudesse. Starling rolou para o lado, e ela pode respirar, tranquila e sonolenta.

“Durma comigo, garota. E, por favor, me chame de Donovan, Don, qualquer coisa menos Vossa Alteza ou Sua Graça!" E ele a trouxe para junto de si, para dormir aconchegado.

 

 

Capítulo XVIII - O Grão Duque das Terras de Gelo

Donovan Sterling era neto do Duque Howard Sterling. Fora resgatado do Harém e era meio-irmão do rei. Se a situação já não fosse complicada o bastante, ele também teve uma noiva ainda na infância, uma jovem da Casa Germaine, com quem se dava muito bem. Francesca Germaine era bela, rica, nobre de alta linhagem — um par perfeito para um jovem herdeiro.

A má notícia era que seu próprio pai e, posteriormente seu irmão, imperadores, o obrigaram a participar de todos os conflitos e grandes caçadas a monstros desde os treze anos.

Contra todas as probabilidades, Donovan sobreviveu e prosperou, tornando-se um vanguardeiro, ou tanque,  formidável, demonstrando um dom elemental notável para a terra e o fogo, além de uma quantidade extraordinária de mana.

Basicamente criado em quartéis e entre soldados, o jovem Donovan trouxe para casa uma cria bastarda quando tinha dezoito anos. A mãe era uma jovem de uma casa nobre menor, vassala dos Miura — mais jovem que ele, delicada, doce, bela, de pele clara, cabelos loiros e olhos azuis enormes. Era uma garota que corava quando um homem lhe dirigia a palavra, inocente e submissa, que se entregou a ele com tanta docilidade e obediência que Donovan acreditou estar diante de uma fada. Quando engravidou, seus pais exigiram casamento, mas a política das grandes famílias interferiu, e ele acabou com um bebê nos braços, enquanto ela era enviada ao templo como serva. Anos depois, soube que a jovem havia morrido de causas nunca esclarecidas.

O bebê tornou-se o menino dos olhos de seu avô, que pressionou Francesca a manter o casamento e adotar a criança como sua. Francesca recusou terminantemente. Na mesma época, o rei ofereceu-lhe o posto de concubina do príncipe herdeiro, e ela declarou que preferia ser concubina real do que esposa traída. No fim das contas, seu avô lhe arranjou uma esposa — uma jovem serena e encantadora, vinda do sul, que reforçou os laços com seus próprios vassalos. Ela adotou seu primogênito, herdeiro do Ninho do Corvo, assento da Casa Sterling. Poucos anos depois, ela mesma lhe deu um segundo filho.

Depois de trazer para casa uma criança sem mãe, Donovan sempre se precaveu de não engravidar mais ninguém. Concedeu esse direito apenas à esposa, que compreendia os fardos da vida de guerreiros e caçadores — sempre em risco, longe de casa por meses, às vezes anos. Ela nunca lhe questionou sobre acompanhantes de campanha ou amantes. Janice era uma mulher íntegra, feliz em administrar os assuntos internos do lar e criar os filhos... até ser envenenada, cinco anos antes da convocação da legião. Ela morreu, e ele foi amaldiçoado.

Ele sabia que o provável culpado era Francesca — e seu amante e senhor, o atual rei, seu meio-irmão, muito mais velho. Agora que os seus herdeiros lutavam entre si pelo poder, Donovan imaginava Oscar se divertindo ao relembrar os horrores do harém, talvez impondo as mesmas desgraças aos filhos.

Mesmo sabendo que Donovan não tinha qualquer interesse pela coroa, Oscar o perseguia implacavelmente — porque ele havia escapado, e prosperado, além do mais, miséria adora companhia.

Amaldiçoado, sentindo a vida escorrer como areia por entre os dedos, Donovan teve que aceitar a incursão ao Norte, antes que o rei ordenasse que seus filhos tomassem seu lugar.

Pensou que aquela garota poderia ser uma boa esposa para seu filho mais novo, Adriel, já que o mais velho estava comprometido em um casamento político por intervenção do imperador, mas as circunstâncias — somadas à luxúria — o fizeram reivindicá-la para si. Cobiça, luxúria, não importava o nome, ele tinha consciência que era um pecado.

Ela não era seu tipo, fisicamente. Se portava como um lorde, não como uma dama, e era tão indecente na cama quanto uma cortesã, quando ele preferia mulheres tímidas, obedientes, verdadeiras damas da nobreza.

Quatro dias após o início da marcha, encontraram o primeiro monstro: um grupo de três kobolds. Antes que ele pudesse reagir, ela e seus dez caçadores deram conta das criaturas com facilidade, e logo começaram a extrair “as partes úteis”. Pele, cristais, algumas vísceras e glândulas dos dois machos, que — segundo ela — produziríam uma das mais finas variedades de almíscar do mercado.

Em vez de queimar os corpos, ela os deixou ali mesmo, afirmando que havia feras de mana na região — bestas carniceiras — e que elas apreciavam oferendas como aquelas.

Ela o fazia sentir-se incompetente. E era verdade — aquela pequena desgraçada era uma excelente maga.

Se ele morresse em batalha, será que ela o esfolaria como fizera com os kobolds? A ideia lhe provocou um calor no peito, um revoar de borboletas no estômago. Por alguma razão, ela lhe causava emoções estranhas, inclusive mórbidas.

Alguns dias depois, eles armaram acampamento próximo a um pequeno rio, e a montagem para uma estadia prolongada levou ao menos um dia inteiro. Phillipa ordenou que seus homens montassem guarda enquanto ela se banhava nas águas frias, e depois seguiu para a tenda de seu marido. Ele estava imerso em uma banheira.

Phillipa mordeu o lábio, prestes a fazer uma piada, quando notou que a cicatriz no flanco do esposo estava mais escura e um lado do rosto dele se contraía involuntariamente, provavelmente com dor.

Ela se calou e o esperou na cama. Quando ele se juntou a ela, estava completamente exausto.

“Posso ver, meu marido?” e antes que ele respondesse ela pousou a mão sobre a cicatriz, em forma de círculo.

“Você já viu isso tantas vezes, garota”, respondeu, com um sorriso fraco.

Ela concentrou sua magia espiritual sobre a marca e decifrou uma maldição de três camadas.

“Isso é uma maldição em três camadas. Eu fiz bem em ter apenas alimentado isso com magia espiritual e luz. Se esse primeiro círculo se quebrar... Como você tem tratado isso?” Era raro vê-la se dirigir a ela com tanta intimidade, com tanta proximidade. Ou conversavam sobre trabalho, ou faziam sexo.

“Não há tratamento. Vai me matar, eventualmente. Então você tem poder espiritual também? Sabe curar?” Ele afagou os cabelos molhados dela, sentindo um afeto diferente dos que sentira na vida, por mulheres. Aquela moça um tanto bruta, no meio de homens, lhe causava tantos sentimentos diferentes, que ele parecia mais vivo.

“Ainda não sei. Eu precisaria ter a benção de algum deus, só que meu tempo nos templo foi, como você deve imaginar, nenhum. Mas essa magia tem outros usos… como decifrar e romper feitiços e maldições. Essa aqui é difícil. Posso aliviar sua dor, pelo menos?”, ela tirou os cabelos do rosto e os juntou num rabo de cavalo, mostrando a curva do pescoço.

Aquela mulher não sabia cozinhar para salvar a própria vida, era péssima com tarefas domésticas, e ainda assim estava ali, oferecendo-se para cuidar dele e aliviar sua dor.

“Vá em frente”. Ele relaxou, deitado ao lado da garota nua.

Guiando-se pela magia espiritual, ela aplicou magia de luz sobre a maldição. Visualizou suas camadas e lançou um encantamento para copiar os círculos, a fim de estudá-los depois. Então, concentrou luz o suficiente para desativar o feitiço, impedindo que ele drenasse a mana e energia vital da vítima e Donovan adormeceu, roncando em sono profundo. Phillipa o cobriu, vestiu uma camisa e deixou que ele descansasse, aproveitando o tempo para transcrever os círculos em papel.

 

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