Guerras Arcanas Capítulos 8 ao 10

 

 Capítulo VIII -  As Raposas da Casa Cassel

Leto acendeu uma centelha na mente de Phillipa, um estalo invisível que ressoou como um presságio. Ela não era a protagonista de grandes feitos nem a vilã de contos infames. Sua história não estava nos livros, filmes ou jogos — não exatamente. Mas se houvesse um prenúncio de ruptura, uma calamidade iminente, tropas do sul socorrendo o norte, e se seu sobrenome fosse Cassel… então, talvez, fosse uma personagem esquecida, mencionada apenas de passagem nos apêndices dos antigos códices e prequelas da Saga.

Nesses registros, ela surgia como a mãe da heroína, uma santa da linhagem poli-elemental, tal como ela própria, que desposara o Grão Duque Sterling — o sombrio espelho do Império. Sim, o Império era sustentado por dois Grandes Ducados, ambos oriundos de sangue real, um hereditário, e outro, fruto do sistema de Harém, não hereditário. O mais antigo, a Casa Miura, tinha a mesma origem mística dos imperadores, e se uniu várias vezes a à eles por meio de casamento, portando como brasão o Touro Negro, símbolo da deusa venerada pela linhagem imperial. A outra, mais jovem e insurgente, era a Casa Ducal Sterling, nascida do ventre de uma princesa sulista, outrora submetida no harém do imperador.

O Harém Real era uma relíquia bárbara — um mecanismo de dominação que durante o julgo de cinco longevos imperadores sequestrou e subjugou centenas de mulheres. Um dos imperadores, em sua crueldade absoluta, recusara-se a nomear uma imperatriz, proclamando todas as mulheres nobres suas consortes, e as de sangue comum, suas amantes. Das entranhas do palácio velado, nasciam crianças marcadas por tormentos. As meninas, muitas vezes sacrificadas logo ao nascer, a menos que fossem filhas de nobres estrangeiras influentes. Os meninos, por sua vez, eram submetidos a uma triagem impiedosa: os que não portavam magia ou valor de sangue eram executados. Os sobreviventes, mesmo de sangue nobre, eram criados como bestas cativas, forçados a destruir-se mutuamente até os doze anos, quando apenas um poderia ser digno de treinamento oficial — e de um dia, o trono.

O Grão Duque Sterling emergiu das cinzas desse sistema. Ele era um sobrevivente — um dos raros filhos do harém que escapou da chacina graças ao poder descomunal que pulsava em suas veias. Era neto da única filha de Howard Sterling, o Duque Corvo do Gelo, herói supremo da Conclave do Sul. Farto da barbárie do harém — que inspirava nobres menores a reivindicar corpos e famílias como posses —, Howard convocou a revolta. Reclamou o sangue de seu neto e marchou sobre a capital com a Conclave. Contou, para surpresa de todos, com o apoio de casas menores e dos próprios camponeses.

Com o harém extinto e as antigas leis do Templo novamente válidas até mesmo para a Casa Real, Howard exigiu que seu neto fosse alçado ao mesmo patamar que a Casa Miura — ou mais alto, isto é, recebendo honraria de príncipe, o título de Grão Duque, herdeiro em linha direta ao trono, além de Duque, por ser herdeiro do Ducado Sterling. A indiferença dos Miura desagradou o então imperador, mas que o rapaz suportasse essa ira. O detentor dos títulos de Grão Duque do Reino e Duque, era um homem de trinta e tantos anos, guerreiro e mago, talvez um dos melhores vanguardas já nascidos, temperado pelo fogo de incontáveis campanhas, e, dizia-se, uma personalidade de gelo e sombra, Duque Donovan Sterling.

Phillipa, contudo, não se permitia devaneios. Fazendo as contas, esse homem era, a seu ver, um velho. Seu propósito era claro: crescer como maga, elevar seu status e poder… e não morrer no parto. Para ser mais exata, não pretendia ter filhos — jamais. Se desejava crescer, a Condado de Cassel deveria ser protegido, e ela faria tudo que estivesse ao seu alcance.

 

Seguindo o conselho sibilante de Leto Miura, a jovem deu início a um frenesi de estudo e prática mágica. Embora não contasse com o apoio pleno de seu pai ou do erudito residente, possuía em si as lembranças da Saga Guerras Arcanas, como ecos de outra existência. E o despertar de sua magia rendeu-lhe um mínimo de respeito entre os membros da casa.

Seu aprendizado avançava num ritmo incomum. Logo, desenhava círculos e sigilos com destreza, transformando o pátio dos fundos da torre leste em seu campo de experimentos. Aos poucos, angariou aliados: primeiro um cavaleiro, depois um soldado… semanas depois, uma criada — todos fascinados com o brilho de sua magia.

Aos dez anos, Phillipa foi capaz de restaurar um dos sigilos antigos que canalizava o calor das minas de mana até o castelo. Reescreveu os traços rúnicos e os fortaleceu com sua própria magia de fogo.

Dedicava-se ao domínio do fogo e do ar, não competindo diretamente com o irmão, Paul, que trilhava os caminhos da terra e da água. Partilhavam seus feitos como irmãos unidos, embora Phillipa, em segredo, houvesse experimentado outras forças — compreendia que era melhor evoluir por etapas.

No outono seguinte chegou a partida de Paul para a Academia Real de Magia. Pela primeira vez, Phillipa se veria sozinha entre os adultos. O adeus foi choroso — o portal mais próximo da capital ficava a três dias de cavalgada, e era caro. Veriam-se apenas nos grandes recessos do ano.

A perspectiva de seus estudos estagnarem a aterrorizava. Em segredo, começou a traçar um plano de fuga.

Com quase treze anos, Phillipa — mais alta, mais decidida, mais faminta de poder — roubou as roupas antigas do irmão, encheu uma bolsa com todo o alimento que podia carregar, juntou as moedas furtadas e guardadas ao longo dos anos… e desapareceu na noite.

Escapou do castelo, atravessando as brumas dos bosques de Cassel, com os olhos postos no futuro. Seu destino era o portal. Seu desejo? Alcançar a capital. Conhecer o poder. Tomar as rédeas do seu destino. Mesmo que para isso, precisasse enfrentar o mundo sozinha.

 

Capítulo  IX– Sangue e Cinzas

Não a surpreendeu o fato de que levaram dois dias para perceber seu desaparecimento. Detestava ser banhada pelas criadas — cuidava do próprio corpo —, era frequentemente ignorada pelo pai e fazia suas refeições na cozinha com os criados, para economizar tempo e dedicar-se aos estudos. Conhecia cada canto e corredor do castelo, e como maga, aprendera a burlar os sigilos protetores.

Era alvo de constante recriminação por parte do pai e dos professores, já que nas simulações de batalha com os escudeiros, ela não se continha e, não apenas dava ordens, mas o fazia com brutalidade e palavrões, com a mesma falta de paciência que tinha na encarnação anterior. Olhavam para ela, uma menina, como se estivesse possuída por um demônio ou monstro, e ficavam envergonhados de tê-la obedecido por puro reflexo, afinal, como não obedecer a um “Abaixa a cabeça, caralho!”, gritado por dentro do seu cérebro, enquanto uma bola de fogo voava por cima de si? Não fosse a ordem brusca, tanto o boneco quanto o pobre escudeiro teriam virado cinzas: essa era a forma bruta de lutar de Phillipa Cassel.

A garota temia as primeiras regras, o sangue menstrual anunciando sua maturidade fértil, que daria ao seu carta branca para lhe prender às aulas de etiqueta, e a lhe arrumar um casamento, conferindo a outro pobre diabo a tarefa inglória de lhe domar.

Eles não a encontrariam com facilidade. O sentimento de ser desprezada não era novo, mas ainda assim, algo doía. Phillipa se sentia traída — pela família, pelos seus. Estava sozinha no mundo.

Dormira no mato na primeira noite, mas na segunda noite de viagem rumo ao povoado de Ilia, encontrou abrigo em uma aldeia minúscula: algumas casas, um estábulo, duas lojinhas. Isolada entre uma fortaleza modesta e ruínas antigas, era cercada por campos e rebanhos. O dono do estábulo lhe ofereceu um canto seco sobre feno fresco, e ela adormeceu ao som dos cavalos.

Em todos aqueles anos, jamais vira uma fera de mana de que tivesse medo ou criatura monstruosa. Ao contrário, ela propora várias vezes acasalar bestas de mana com animais comuns para melhorar as espécies e tentar obter propriedades especiais para os produtos animais. Não tinha encontrado monstros, no entanto.

 Tinha tamanha sede de testemunhar algo novo que sempre se desviava discretamente do caminho, vasculhando bosques à margem da estrada, sonhando encontrar um daqueles seres lendários — tão temidos quanto cobiçados. Estava tão absorta na fantasia de ver uma  besta de mana que esqueceu dos monstros.

Era fim de outono. A noite, silenciosa como um túmulo. De súbito, o ar tornou-se pesado, e uma energia diferente vibrava no caminho que levava ao pasto dos pastores de cabras. O coração disparou. Phillipa despertou, esgueirando-se para espiar as outras casas.

Foi então que os viu. Criaturas esverdeadas e cinzentas emergiam das sombras — quase nuas, com genitálias expostas e corpos fortes, musculosos, de dentes afiados e garras brutais. Traziam clavas, lanças e espadas curtas, certamente pilhadas de outras vítimas. Eram um pouco maiores do que ela, seus olhos descomunais varriam a aldeia em busca de presas. E logo cravaram o olhar na loja mais próxima ao caminho dos pastores.

Phillipa ficou paralisada — estava vendo um goblin pela primeira vez. Mas o transe se quebrou com os gritos de terror das vítimas. Mulheres implorando por ajuda. Se os relatos do “lore” fossem reais — e ela temia que fossem — aqueles monstros se reproduziam violentando mulheres humanas, usando seus corpos como incubadoras até que os filhotes devorassem suas mães ao nascer. Alimentavam-se de carne, preferencialmente humana, mas não poupavam animais.

Sabia que eram vulneráveis na garganta, olhos, abdômen... e entre as pernas. Mas vinham sempre em grupos. Quinze deles. A aldeia cairia em minutos.

Sua primeira reação foi fugir. Pegar um cavalo. Escapar. Mas não sabia montar. E aqueles gritos... aquilo não era um jogo. Aquilo era real. Ou enfrentava-os ali, ou morreria tentando. Ela era uma maga.

O estábulo se abriu com estrondo. O dono saía com uma maça nas mãos, seguido pelos dois filhos. Phillipa correu até eles.

— Esperem! Vamos fazer isso do jeito certo.

Imbuiu as armas com um sigilo de Terra para fortalecê-las e encantou uma tábua grande de madeira, tornando-a um escudo resistente.

— Eu sou uma... um mago – mentiu sobre seu sexo - . Agora suas armas podem perfurar aqueles corpos. E você, segure o escudo. Preciso chegar mais perto. Protejam os que estiverem atrás. Vamos matar esses desgraçados!

Atacaram três goblins que arrombavam a segunda casa. Se protegeram com o escudo, minimizando os ferimentos e eliminaram as criaturas. Uma das sobreviventes, uma mulher suja de sangue e lágrimas, se juntou a eles.

— Isso não vai funcionar assim. Precisamos atraí-los. Você, grite e provoque. Todos, fiquem em suas casas. Eu cuido do resto. Apenas se escondam atrás do escudo e ataquem na abertura.

Os adultos obedeceram. Havia algo naquela criança que inspirava medo e respeito.

A maioria dos goblins caiu na armadilha. Phillipa conjurou uma chuva de fogo, e as bolas incandescentes dilaceraram carne e osso. O mestre do estábulo salvou dois dos homens, puxando-os para longe a tempo.

— Garoto maluco! Você podia ter nos matado também! — gritou, atingindo-a de leve na cabeça.

— Desculpe, senhor. Sou autodidata... ainda estou aprendendo.

— Vem, ainda tem demônio verde pra matar! — gritou um dos homens.

Limparam o vilarejo. Subiram a trilha dos pastores na manhã seguinte e encontraram as  cabras mortas, o pastor parcialmente devorado, e sua esposa desaparecida.

— Precisamos avisar a fortaleza. Eles devem ter um covil por aqui — declarou o mestre do estábulo, agora na posição de líder. Olhou para a menina com respeito: — Você vem conosco, não vem, menino mago?

Phillipa não respondeu. Estava ocupada arrancando cristais de mana dos fígados dos goblins com uma de suas presas. Coberta de sangue, sorria. A teoria estava certa. O conhecimento do outro mundo era real. Real e útil.

— Moleque! Ei, garoto! O que está fazendo?!

— Cristais, senhor! — ela ergueu uma pedra ensanguentada. Claro, estava vestida como Paul. Cabelo curto. — Vamos salvar as mulheres, não vamos?

Mandaram um mensageiro à fortaleza. Ela ficou aguardando os soldados. Pensou em fugir. Podia lidar com dois ou três goblins, talvez. Mas com uma matilha inteira? Apostava na sorte de não ser reconhecida.

 

Capítulo X — O ressurgimento dos monstros

Levara um dia inteiro até que os soldados finalmente chegassem à aldeia. Eram cinco ao todo, liderados por um jovem cavaleiro com afinidade com o elemento Terra — ainda que seu domínio de mana fosse tão fraco que mal o distinguia de um guerreiro comum.

— Quem é o mago que os ajudou na anteontem? — perguntou ele, procurando por algum adolescente magricela, e arregalando os olhos ao deparar-se com uma criança franzina, de traços delicados, não fosse pelas vestes e o cabelo curto. — Então seu nome é Phil… e é um mago do fogo?

O cavaleiro coçou a penugem do queixo — pois aquilo não podia ser chamado de barba. Chamava-se Sir Oliver Elton, devia ter no máximo dezoito anos. Phillipa percebeu na hora: não passava de um baixo nobre mimado, provavelmente um escudeiro vestido de honra alheia. Ao menos os soldados que o acompanhavam pareciam mais velhos, mais robustos… e levavam a sério a missão.

— Você é tão pequeno… acho que não deveria vir conosco, garoto! — disse ele, pousando a mão enluvada em seu ombro como gesto de gentileza.

— Senhor, quero ajudar a resgatar as mulheres. Ainda podem estar vivas — respondeu ela, incomodada com a lentidão e indiferença do grupo.

— E o que fazia nesta aldeia, menino? Onde estão seus pais? — indagou um dos soldados veteranos.

— Quero ir para a capital… tentar a sorte — disse ela, puxando o capuz sobre a cabeça e desviando da pergunta. — Precisamos partir logo, ou aquelas criaturas...

— Venha cá, meu filho — chamou uma anciã, puxando sua manga. — Tome um pouco de sopa e descanse. Eles não sairão daqui antes do amanhecer. Você está mesmo preocupado com aquelas garotas, não está?

A velha empurrou-lhe a tigela fumegante e sentou-se a seu lado, com os olhos enevoados pela memória e pelo pesar.

— Sinto por Lilly e Clair… mas já estão perdidas. Mesmo que tenham sobrevivido sem carregar malditos em seus ventres, nenhum homem as tomará como esposa. Seriam vistas como maculadas. Eu vi mulheres que sobreviveram a ataques goblinoides… seus olhos já não pertencem a este mundo. Se forem encontradas, melhor seria dar-lhes um fim digno. Espero apenas que não tenham levado outras moças… mas é claro que sim. É a única forma de multiplicarem seus números.

— Quero todos mortos, vovó.

— Eu também, mago Phil. Eu também...

Phillipa estava a caminho dos treze anos. Seu corpo dava sinais do crescimento: os membros estavam mais longos, mas ainda andróginos. Os seios surgiam pequenos sob as roupas, e os quadris não haviam arredondado totalmente — passava facilmente por um rapaz esguio, o que trazia perigos próprios, dada a cultura de intimidade entre cavaleiros e escudeiros.

Na manhã seguinte, usou sua sensibilidade à mana para localizar o covil dos goblins. Conduziu a patrulha por um vale profundo, além dos pastos montanhosos. Acamparam próximos à entrada de uma gruta, mas Phillipa estava inquieta. Precisava confirmar se estavam no lugar certo. E então esgueirou-se do acampamento. Sir Elton percebeu sua ausência e foi atrás.

— Phil! Não se meta em encrenca! — chamou, aproximando-se rápido. Apesar da idade, ela sabia que, magia à parte, o jovem poderia facilmente subjugá-la fisicamente.

— Senhor… por acaso o senhor tem interesse por jovens escudeiros? — indagou, séria, desconfortável com a maneira como ele insistia em segui-la, tão próximo, tão... tátil.

— Não é isso! Você é que… — Sir Elton ruborizou, confuso com os próprios impulsos.

— Shhh! Olhe! — sussurrou Phillipa, apontando para cinco goblins que deixavam a caverna. Eram jovens — recém-saídos da criação. Devem caçar presas menores antes de atacar humanos. Sem pensar, ela envolveu ambos numa magia de ocultação feita de sombras e aproximou-se da entrada, iluminada por uma fogueira.

— Você disse que era maga do fogo! — protestou Elton, agora consciente do perigo.

— E você disse que era cavaleiro… é no máximo um pajem. Vamos usar sua magia da terra, Sir Elton!

— Seu pirralho insolente, ainda te dou umas palmadas!

— Rápido, ou ficará exposto!

A gruta não era profunda, e podiam ver claramente seu interior.

Havia três mulheres. Uma era violentada por um goblin enorme — seu membro grotesco e inchado a fazia sangrar. A segunda, uma loura, contorcia-se com dores, seu ventre inchado de forma antinatural. A terceira jazia inconsciente, provavelmente vítima de sucessivos estupros. Ao redor, ossos humanos e goblinoides revelavam a natureza do monstro: um Semeador. Alimentava-se de humanos e dos mais fracos de sua própria espécie.

Cada mulher daria à luz pelo menos quatro goblins — que cresceriam em poucos dias, devorariam suas mães, e então deixariam a caverna para caçar.

— A esse ritmo, em uma semana terá outro bando — murmurou Elton, hipnotizado pela brutalidade da cena.

Tomada de cólera e, enfim, compreendendo o que a velha quis dizer, Phillipa lançou uma torrente de fogo para dentro da gruta — tão intensa que fez o teto derreter.

Goblins das redondezas correram de volta ao covil, e Elton ficou pasmo com o poder bruto da pequena maga — e também com a fúria de uma dúzia de goblins agora investindo contra eles na floresta.

O Padreador, se arrastou para fora da caverna gritando de dor e tombou do lado de fora, seus urros atraindo mais de seus servos e filhos. Alguns, ao invés de atacarem os invasores, se atiraram sobre o seu corpo, consumindo sua carne, claramente em busca de dominância, porém outros, investiram sobre a floresta, onde rapidamente localizaram Oliver e Philippa.

A distância até o acampamento não era tão grande, mas a quantidade de goblins, apesar de ainda jovens, era perigosa.

Eles precisaram lutar — mas a jovem maga fora mais astuta. Conduziu os goblins pela mesma trilha que haviam utilizado para rastrear o covil, armando, sem que o cavaleiro percebesse, pequenas armadilhas de fogo e  círculos mágicos.  Um goblin saltou sobre eles, do alto de um galho e Sir Elton sacou de sua pistola e acertou um tiro em sua testa, ecoando em toda a mata.

Se o ruído atraiu a atenção dos outros monstros, eles esperavam que atraísse também a atenção dos companheiros de acampamento.

Phillipa, lançou um feitiço de ar sobre um goblin que puxou Elton pela perna e o prendeu. O cavaleiro se soltou com um chute, e o “Mago Phil” envolveu o monstro em uma bola de ar, e, por inversão de pressão, puxou as entranhas da vítima para fora, por todos os orifícios: uma forma bastante feia de morrer, que fez com que Oliver sentisse náuseas.

Os dois correram pela trilha, com o Cavaleiro na retaguarda, o “menino mago” agilmente driblando as moitas e raízes, seguindo um caminho fracamente luminoso que ele mesmo deixou para guia-los.

Sir Oliver, acabou com todas as balas da pistola num goblin preso numa outra armadilha de vento, enquanto o “mago Phil” protegia sua retaguarda. Continuaram a fuga para o acampamento, munidos apenas de espada e adaga, e, é claro, das suas respectivas magias.

Ficaram aliviados ao ouvirem os passos e os gritos de seus companheiros, que enfim acharam a trilha luminosa preparada por Phillipa, e vieram ao seu encontro, armados e prontos para batalha.

Lipa lançou uma bola de fogo luminosa para o céu que iluminou uma grande área, expondo os monstros escondidos na mata, e os outros caçadores se lançaram à luta. Sentados, apoiados um nas costas do outro, Phillipa e Oliver riam felizes, excitados, animados, se sentindo vivos.

O resto da noite testemunhou a inversão de papéis: os monstros se tornaram presa, e os humanos, os predadores, assim, ao nascer do sol, o acampamento estava cercado de pilhas de corpos de goblins, e cheio de caçadores cansados, porém absolutamente eufóricos, ignorando inclusive as feridas sustentadas em luta contra os monstros.

Aquele grupo feito de alguns soldados mal treinados e mal armados, e aldeões sem treinamento e com armas improvisadas, tinha dado conta de cinquenta goblins espalhados na mata em dois dias. Dada a inexperiência, se sentiram muito felizes, e inspirados a não terem mais tanto medo assim dessas feras. Muitos agradeceram ao Mago Phil, por sua ajuda fundamental.

Phillipa sentiu o coração inflar de júbilo. Pela primeira vez, experimentava o sabor da glória — e não como uma nobre enclausurada em promessas matrimoniais, mas como uma guerreira, uma conjuradora de batalhas. Era ali que pertencia. Que se danasse a herança dos Cassel.

Após a caçada sangrenta, solicitou aos anciãos da vila que a permitissem recolher os cristais de mana dos corpos goblinoides. Conduziu o líder da vila e outras pessoas que conheciam as pessoas desaparecidas até o covil devastado, e descreveu as mulheres vistas na caverna. As confirmações vieram com pesar: Lilly e Clair, mãe e filha, eram suas identidades.

Com a sacola pesada de pedras mágicas, dentes, e couro salgado — sangrentas relíquias da vitória —, Phillipa montou na garupa do cavalo de Sir Elton, sorrindo com a esperança de que o pagamento pela travessia do portal estivesse enfim garantido.

Mas então veio a dor. Uma pontada aguda no ventre. Conhecia bem aquela sensação. Sentiu o calor úmido escorrendo entre as pernas. O sangue da primeira lua.

Desejou que ninguém notasse, que pudesse trocar-se antes de ser percebida. Contudo, os olhos atentos de Elton vislumbraram a mancha escura em suas calças — naquele lugar tão peculiar. E a pergunta, como lâmina, cortou o silêncio entre eles:

— Phil... você está bem?

 

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