Guerras Arcanas Capítulos V e VI
Capítulo V— Folhas de Outono
As folhas alaranjadas dançavam ao sabor
dos ventos de outono, anunciando o fim do tempo fértil. Os celeiros se enchiam
lentamente, e, ao término da estação, estariam abarrotados. Em cada casa, em
cada vila, em cada recanto das terras cultivadas, os preparativos para o
inverno eram intensos: moldava-se queijo duro, salgavam-se carnes e defumava-se
o charque. Os alimentos eram armazenados em adegas e despensas, e parte era
destinada às reservas das fortalezas.
Os vizinhos auxiliavam-se mutuamente na
reparação das moradas, e os que não possuíam celeiros levavam seus rebanhos aos
estábulos comunitários, onde o trabalho era partilhado em turnos, como manda a
velha tradição.
Ainda que o inverno não se prolongasse
naquela região — pois estavam no norte do império, mais próximo dos desertos e
dos climas quentes —, Cassel era o último condado a conhecer a neve antes que o
solo se tornasse árido e abrasador. Ao sul profundo, o império congelava-se em
silêncio e solidão. Já ao extremo oposto, além do deserto de areia sem fim,
encontrava-se Veridium, o reino rival: próspero, mágico, livre.
Apesar de seu clima ameno, Cassel sofria
com um mês de geada severa. Um frio intenso, cruel, que ameaçava a vida dos
despreparados. Durante esse período, as feras mágicas desapareciam, os animais
comuns fugiam para regiões mais cálidas — e era então que os monstros se
aproximavam das vilas humanas, caçando por pura necessidade. Dizia-se que até
as bestas de mana rareavam quando a geada caía.
Aquele primeiro ano, que Phillipa
dedicou aos estudos, foi também um esforço intenso de adaptação a um mundo
diferente. Ela tinha pesadelos, mas também sonhos nostálgicos sobre sua vida
passada. Se via na sua cidade natal, cheia de carros, luzes feéricas, edifícios
altos, e noites que emendavam com os dias, sentia falta da música, da
televisão, dos livros e do cinema, sentia falta das roupas confortáveis e das
histórias em quadrinhos. Ela não era uma personagem de light novel, que apenas
sonhava em fazer nada e comer bem e ter criados para lhe servir, pois, não
obstante a vida difícil, ela tinha uma índole aventureira, e amava a noite, os
ambientes duvidosos – tanto como partícipe, quanto como expectadora – sentido
que a vida podia lhe ser tirada a qualquer momento, sofrendo com um senso de
urgência que tornava a competição do quotidiano comezinha.
Justamente ter reencarnado num mundo de
fantasia machista e misógino, como uma nobre pobre, para sua classe, lhe dava a
desvantagem da perda da liberdade, que ela tanto amava, e a fuga dos grilhões
da sociedade era sua obsessão imediata.
Foi no fim do outono que a comitiva do
Marquês Lennart atravessou os portões de Cassel. Buscavam repouso por alguns
dias antes de prosseguir viagem rumo a Veridium.
A visão da caravana — carruagens
enfeitadas, carroças carregadas, cavaleiros e escudeiros em armaduras
reluzentes — atraiu todos do castelo. Servos, soldados e moradores observavam
maravilhados dos parapeitos, das janelas altas e dos telhados, admirando o
cortejo que somava quase cem almas. Ela estava testemunhando alta nobreza
viajando em alto estilo, porém não deixou de pensar, sarcasticamente, que esse
estilo incluía “se encostar na casa dos outros, a guisa de hospitalidade.”
O mordomo e o próprio Conde Marcus já
haviam sido informados, mas ainda assim, foi árduo encontrar acomodações dignas
para todos.
Ao lado do Marquês, cavalgavam dois
jovens escudeiros ostentando os brasões das casas Miura e Clermont. Clermont
era alto, bem constituído, com cabelos castanho-avermelhados e olhos dourados —
um jovem de feições maduras que despertava suspiros até entre as damas mais
velhas. Já Miura era mais baixo, esguio, e exibia uma agilidade impressionante
ao desmontar do cavalo. Quando retirou o capuz, o murmúrio foi geral: seus
cabelos prateados, quase cor de sal e pimenta, emolduravam olhos de um azul tão
profundo que pareciam feitos de pedra sólida. A pele era imaculada, e seus
traços evocavam tanto ternura quanto desejo ardente — como se o próprio sol
houvesse beijado aquele rosto, conferindo humanidade a uma face outrossim
divina.
— Onde está o mago? — inquiriu Phillipa,
à sentinela que a acompanhava.
— Não sei, minha senhora, não avistei nenhum.
Ela desceu apressada da torre da
biblioteca, ansiosa para encontrar o irmão e também receber os visitantes.
Ambos estavam trajando roupas de treino, ainda suados e animados.
Capítulo VI — Amigos antigos e amigos
novos
— Seja bem-vindo, Marquês Lennart —
saudou Marcus, curvando-se. — Espero que as estradas do meu condado tenham sido
generosas convosco.
— Oh, Marcus, levante-se. Estamos entre
amigos. Não venho em missão oficial — respondeu o Marquês com um sorriso afável
— talvez esteja abusando de vossa hospitalidade nesta época do ano.
— A que devo a honra da visita? E quem
são esses rapazes?
— É apenas uma parada breve. Seguimos
para Veridium, por causa desses dois moleques — respondeu, rindo, enquanto
retirava as luvas. Voltou-se então para os escudeiros: — Leto, Lucien!
Apresentem-se ao senhor deste castelo, seus moleques!
Lucien Clermont ajoelhou-se e
apresentou-se como o segundo filho do Duque Armand Clermont, do ducado
ocidental de Chancy. Leto Miura, com expressão solene, seguiu o gesto: era o
primogênito do filho mais velho do Arquiduque Arnold Miura, do arquiducado
meridional de Chancy-sobre-Rennes — terras ricas e portuárias, as últimas antes
do gélido sul.
— E o mago, Lennart? Como atravessam
para Veridium sem um entre vós? — questionaram Marcus e Roster em uníssono.
— Ora, Roster, meu velho! Temos, sim, um
mago — um cafajeste, é verdade, mas um excelente bate-papo. Vais adorá-lo.
Lennart então envolveu Roster num abraço
caloroso, e foi por sobre os ombros do Marquês que este apontou o jovem de
cabelos alvos e olhos insólitos, lançando um olhar astuto e provocador — ele
era, sem dúvida, o dito mago.
Naquela noite, Phillipa foi mantida
afastada do banquete — era impróprio para uma donzela tão jovem. Já Paul
exultava em meio aos visitantes: nobres apenas três anos mais velhos que ele,
mas que já ostentavam tantas honrarias.
Foi uma noite de reencontros e de risos,
onde velhos companheiros brindaram à amizade, e os herdeiros do império
trocaram palavras e promessas sob as tapeçarias ancestrais do salão de Cassel.
Na manhã seguinte, após o desjejum,
Dennis Roster, levou o varão da Casa Miura ao salão de estudos, enquanto Marcus
e Paul, introduziu Lucien ao pátio de treinamento de escudeiros.
— Jovem Lorde Miura, seja bem-vindo à
nossa humilde sala de estudos. É aqui que educo as crianças de Cassel! —
anunciou Roster, guiando o jovem e formoso nobre até o salão de estudos, e
depois às escadas que levavam à biblioteca propriamente dita — um dos poucos
bens que a Casa Cassel ainda podia se orgulhar de possuir como verdadeiramente
inestimável.
— Crianças? Fui apresentado apenas ao
herdeiro, Paul — comentou Leto, olhando o homem de soslaio.
— Ah, também ensino a caçula do Conde.
Uma menina de oito anos, chamada Phillipa.
— Sério? Será que é tão dotada quanto o
irmão? — murmurou Leto, como quem lança pensamentos ao vento.
— Como assim? Nenhum dos dois despertou
para a magia ainda. Nem o próprio Conde possui muito mana, e sua magia
elemental é fraca, infelizmente. No entanto, a Casa Cassel já produziu magos
bastante fortes, e temos esperanças quanto ao jovem herdeiro. — respondeu
Roster, devolvendo o olhar do rapaz num verdadeiro duelo ocular.
— Ouvi tudo que Lennart disse sobre
Clermont e você. Que ambos cruzaram a Academia como cometas, encerrando um
curso de oito anos em apenas quatro… quer dizer, você em três, e ainda fez um
ano no Templo. E agora estão nessa louca jornada rumo a Veridium. Quer dizer
que é capaz de ver e medir a mana das pessoas à primeira vista? É o prodígio do
milênio — o professor mal escondia sua antipatia; considerava aquele lorde
juvenil um arrogante incorrigível, sentado à escrivaninha, tamborilava os dedos
sobre sua superfície, fazendo um ruído desagradável, enquanto o jovem andava
pelo salão, examinando o espaço, e os livros espalhados.
— Não me entenda mal, professor. Sou
apenas alguém com dons acima da média. Não um gênio — disse, aproximando-se da
janela. — Vê os homens treinando lá embaixo? Aquele é Lucien. Seus elementos
são Terra e Fogo, mas ele não é um conjurador. Contudo, gera e canaliza tanto
mana que consegue resistir a golpes que derrubariam a maioria dos cavaleiros… e
até mesmo alguns magos. Está pegando leve com os demais. Deixe-me mostrar-lhe.
O jovem nobre apanhou uma vareta de
mithril — comum em salas de estudo de magos e acadêmicos — e pediu ao professor
que a erguesse na direção da brisa que entrava pela janela.
— Segure-a com leveza. Sei que sua magia
é espiritual, ainda que abomine a vida no templo. Mas a magia jamais abandona o
espírito, Roster. Deixe sua essência fluir para o mithril. Ele ressoará
conforme a mana gasta pelos combatentes.
A voz de Leto assumia agora uma
tonalidade aveludada, um barítono aveludado com qualidades quase musicais.
Induzido pelo timbre encantador, o professor obedeceu — e, como a chuva que
inevitavelmente cai, sentiu as ressonâncias dos embates ecoando no metal.
Era verdade! Lucien mal se esforçava. E
mesmo assim, derrotava os oponentes com facilidade. O mana que vibrava em seus
golpes podia ser sentido nas reverberações metálicas que subiam até eles.
— Agora, Roster, que tal medirmos os
“tesouros” do Conde?
O entusiasmo do professor era tão grande
que ignorou o sorriso presunçoso do jovem. Tocou o sino e ordenou que os
criados trouxessem as crianças e algumas pedras de mana. Mal podia esperar para
ver o prodígio da Casa Miura em ação — o braço direito da Casa Imperial.
Espantou-se ao ver Leto escalar uma estante e projetar a cabeça pela janela
para chamar Lucien com um grito tão potente que parecia ecoar por toda a torre.
Capítulo VII - Despertando
Meia hora depois, a sala parecia pequena
demais: as crianças, os escudeiros, Roster, Lennart, Marcus e seu mordomo,
todos aglomerados.
Cheio de energia, Leto moveu os móveis
com um gesto das mãos e abriu espaço no centro do salão, enquanto Lucien murmurava,
rindo:
— Que exibido!
Com outro gesto, desenhou um círculo
mágico que brilhou no chão e no teto.
— Veja, Roster. Isto é magia composta —
luz e espírito — e nem suei para fazê-la. Primeiro porquinho… você, garoto
Cassel, entre no círculo. Fique bem no centro.
Marcus avançou para ajudar o filho, mas Lucien
simplesmente empurrou o menino para dentro. O círculo brilhou em tons de verde
e azul.
— Parabéns, Conde Cassel. Seu filho
possui uma das combinações mais auspiciosas. Como esperado de uma Casa tão
antiga: bi-elemental, Água e Terra. Agora vejamos a mana…
Leto pegou um pó estranho, colocou na
boca e cuspiu sobre o círculo. Um clarão respondeu à substância, e ele sorriu,
satisfeito.
— Acima da média. Pode crescer ainda
mais. Não será um conjurador natural, mas poderá evocar e imbuir mana. Com
algum trabalho, quem sabe...
Marcus puxou o filho para um abraço,
ainda atônito.
— Agora, o outro porquinho…
Phillipa não precisou ser chamada.
Reconheceu aquele círculo de um mangá e ansiava por ser testada antes do irmão.
Sem ter sido apresentada aos nobres nem
ao velho amigo de seu pai, saltou com ousadia para o círculo, temendo não ter
elemento algum — mas esperançosa.
Assim que seus pés tocaram o centro, o
círculo explodiu em um arco-íris. Poeira prateada e dourada flutuou pelo ar.
Por um momento, ela acreditou estar num conto de fadas. Então, tudo escureceu.
O frio invadiu a sala. O círculo desapareceu.
O silêncio sufocante caiu. Leto e Lucien
trocaram olhares densos. O jovem finalmente declarou:
— Poli-elemental, ou omni elemental.
Todos os elementos. Recomendo começar com Ar e Fogo. Mana? Acima da média.
— A Casa Cassel foi verdadeiramente
abençoada com dois jovens de grande potencial! — proclamou.
No entanto, Phillipa sentiu-se
completamente só. Ninguém a chamou, ninguém a parabenizou. Sentiu o peso dos
olhares hostis do pai e do mestre, e se aproximou timidamente do irmão.
Aquele adolescente, o mago prodigioso de
olhos cor de lápis-lazúli, parecia uma divindade. Como ela queria fugir com a
comitiva e aprender magia sob sua tutela.
Naquela noite, trancou-se no quarto. O
mana ainda vibrava dentro dela. Estava certa: despertara. Mas e Paul? Não
entendeu o que o jovem Miura fizera, mas seu corpo parecia pequeno para conter
a energia que circulava dentro dele, sentia frio e calor, tremia, seus olhos
não conseguiam focalizar em nada, e até as roupas sobre seu corpo causavam uma
sensação exacerbada. Queria alguém para conversar. Será que Paul sentira o
mesmo?
A resposta veio quando ele pediu para
dormir com ela — como faziam quando eram pequenos. Os olhos brilhavam:
— Senti magia pela primeira vez —
confessou. Os olhos do irmão brilhavam com medo e ansiedade, mas também com uma
certa alegria. Ele se esgueirou para baixo dos lençóis dela, e segurou-lhe as
mãos. As roupas de ambos doíam a pele e eles tiraram as roupas, ficando apenas
com a calcinha e cuecas, Phillipa feliz por não ter seios ainda, e apenas o
lençol leve os protegeu da brisa fria, enquanto seus corpos sofriam com a
tempestade de mana e magia. Adormeceram juntos, compartilhando um dos maiores
momentos de suas vidas.
A semana que a comitiva de Lennart
passou no castelo foi como um sonho fugaz. Os últimos dias de calor outonal
acompanharam os treinos dos cavaleiros, as demonstrações dos escudeiros, e até
a exibição de Leto — o “Miura Branco”, em oposição ao touro negro do brasão de
sua casa — como um verdadeiro mago de batalha, com apenas dezesseis anos.
Dois dias antes da partida para o norte,
Phillipa se isolou nos fundos da torre leste com um cesto de comida e livros.
Queria sumir dos olhares — especialmente do pai.
O calor leve acariciava sua pele. O
primeiro mês de inverno se aproximava. Tinha apenas oito anos, mas em que ponto
da linha do tempo da Guerra dos Magos estaria? E por quê tantos elementos?
Leto se aproximou como um ladrão
silencioso.
Que sensação estranha! Ter um corpo
humano era uma diversão deliciosa. E agora que a encontrara… sentia-se pleno.
Não queria morrer — ainda. Ele conhecia aquela menina há centenas de anos. Já
vivera por meio dela e de outros. Mas dela… só recebera dor. Mesmo assim, tudo
estava funcionando: ela tinha mana, despertara, e agora precisava apenas de uma
palavra…
— Você é uma menina verdadeiramente
abençoada. Todos os elementos… Posso me sentar? – ele sabia que ela não
correspondia ao padrão de beleza, mas não conseguia deixar de considera-la
bonita. Era uma experiência diferente ver um ser humano através de olhos
humanos também, sentir o calor, o cheiro, ouvir a voz. A carnalidade da
experiência humana o fascinava, e ele sentia Phillipa Cassel como sua
verdadeira obra de arte, seu desafio e grande parceira nessa empreitada. Aos
seus olhos, não existia ser humano mais belo e fascinante.
— Claro, Lorde Miura. Gostaria de
compartilhar minha refeição? — ela afastou um pouco do pano estendido. Seria
ele algum tipo de estranho?
— Obrigado, senhorita. E o que pretende
fazer com tanto poder e tantas possibilidades?
— Não sei… Meu pai parece ter seus
planos para mim, e acho que o Mestre Roster não continuará me ensinando —
sentiu o olhar indagador e continuou —. Sou mulher. Isso não traria nada de
bom, imagino.
— É mesmo? Não teria tanta certeza. E se
uma fenda se abrisse e devastasse o Norte? Não seria bom ter alguém como você
para proteger sua terra? Seu irmão tem potencial, sim, mas você é uma
conjuradora poli elemental, só conheço outra pessoa assim: eu mesmo.
Ele estudava seus traços infantis.
Quantas vezes quis ter falado com ela assim?
— Todos temos nossos fardos. E eu não
posso supor saber como você se sente. Mas sua Casa, e isso inclui você, precisa
se preparar. Anos difíceis virão. Tão difíceis que casas do Sul terão de
marchar até aqui para ajudar.
— E é por isso que você parte do país,
herdeiro do sangue real? — perguntou com genuína curiosidade.- É verdade que os
Miura também tem sangue real, não é?
— É e não é. Nós somos as duas casas
mais antigas, Miura e Maximus, descendentes dos Anciãos, e muitos se casaram
entre si, portanto, nos tornamos arquiduques por dividirmos a mesma origem, e
termos ancestrais em comum em diversas gerações. Temos relativa independência
em relação ao Imperador. – Ele a examinou intensamente, vendo uma expressão
adulta nos olhos de criança -Prometo que retornarei quando a hora chegar, Lady
Phillipa. Até lá, faça o seu melhor… e o seu pior, se for o caso. Não mude quem
você é. E, daqui a alguns anos, vamos rir disso e planejar o futuro do Reino.
Ele tomou a mão da menina e beijou.
Phillipa ficou hipnotizada pelo sol refletido nos olhos cor de lazúli.
— Promete?
— Juro pelos deuses. Eu prometo.
Dois dias depois, a comitiva partiu.
Segundo Roster, atravessar o deserto até o porto mais próximo de Veridium ainda
era possível no início do inverno. Era hora de partir.

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