Gerras Arcanas =Capítulos 22 a 27

 Capítulo XXII

O dia seguinte chegou e partiu, e assim se passou mais de uma semana. Mal se via a Duquesa Sterling pela Mansão Sollis, pois ela dispendia seu tempo, desde que acordava até depois do anoitecer, pela cidade, principalmente no sítio aonde estava sendo erguido o novo portal, semelhante ao erguido em Cassel.

Era um projeto dela e do irmão, algo que podia ser manejado por qualquer mago, e com um gerenciamento de mana diferente. Podia estabelecer ligações com a rede de portais do império, e alternativamente, com os seus portais irmãos.

Principalmente, era mais barato, e fácil de reconstruir! 

O calor do verão no norte forçava os trabalhadores a fazer uma pausa durante duas horas do dia, as mais quentes, e isso não era tão ruim, uma vez que anoitecia mais tarde. Era a oportunidade das pessoas descansarem do calor extenuante, se hidratarem, dormirem, até.

As tendas e os edifícios próximos ao novo portal, localizado em paralelo à estrada que cortava a cidade de norte a sul, acomodavam os trabalhadores nesse horário, e Phillipa, vestida como um rapaz, dormitava pelos cantos, acompanhada de Ollie e, às vezes, por Ren.

Ao final de cada dia de trabalho, ela entrava pelos fundos da mansão e as aias já sabiam que era hora de preparar a ceia e o banho da duquesa e de seus assistentes.

Herman não raro a acompanhava, e assim, a jovem Raposa começou a ficar conhecida pela cidade, como uma moça de modos guerreiros, que dava ordens aos homens, e que impunha medo aos monstros, afinal, muitos legionários espalhavam essas histórias aonde iam. "A Raposa da Casa Cassel", eles diziam, "é uma caçadora esperta e letal, que não deixa as presas escaparem. Ela é maliciosa e cruel, não se iludam com sua aparência pequena, pois ela ganha nove caudas no campo de caça, e come o fígado de suas presas!"

Quando ouviu de Ollie os detalhes dos boatos sobre sua pessoa, ela não sabia se ria ou se chorava! Por outro lado, esse misto de medo e fascinação até que funcionou a seu favor. As pessoas se aproximavam dela com cuidado e temor, e a obedeciam. Isso explicava o espanto de muitos quando ela e o Conde Sollis conversavam de maneira informal e amistosa.

Após a abertura do Portal ela estava arranjando um evento para despertar a magia latente nos moradores voluntários, e até selecionou cristais de mana, caso lhe faltasse o poder para magia de tal escala. Sterling se opusera a permitir que plebeus participassem, mas ela foi irredutível: era preciso usar todo o potencial mágico latente para proteger a região no futuro, e inclusive investir em engenharia não-mágica, essa disciplina considerada inferior e rejeitada pelo Império.

O novo portal não possuía pilares, mas um grande círculo mágico cravado no chão, com cristais de mana, e canais de metais mágicos, que poderiam ser usados para controle. Dentro do círculo, um quadrado, em cujos vértices, outros quatro círculos foram impressos, e nesses os mecanismos de mana. Ao lado, um totem com os mapas e controles.

O sol se punha quando o Conde e a Duquesa subiram na mesma carruagem para casa, animados com a perspectiva de abertura do portal no dia seguinte. Herman contou como sua mãe e o mordomo estavam trabalhando com os comerciantes locais para fazer uma festa de comemoração, algo que não faziam há mais de dois anos.

"Que tal o senhor participar da cerimônia de despertar mágico, Conde Sollis?"

"Eu?" Hermann enrubesceu, e sua voz ficou um tanto mais fraca. "Agora, com trinta anos? A pouca magia de água que tenho me faz um nobre medíocre, eu acho."

"Podemos conversar francamente? Nossos valetes e cavaleiros estão do lado de fora e não chegamos na mansão ainda..." Lipa soltou os cabelos e os prendeu novamente em um coque, secando o pescoço com um lenço. 

"..."

"O senhor se tornou Conde apenas pela primogenitura. Seu pai e seu irmão mais novo estão na capital, e eu sei que Harald é um mago com mais mana do que você. É como se tivessem deixado o título provisoriamente nas suas mãos, sabendo que você tinha apenas uma filha, incapaz de herdar o condado, e deixado sua mãe para trás, é claro, pois ela é insuportável." A moça falava de maneira dura e não segurou o esgar de nojo ao mencionar a mãe do Conde, sem temer o desconforto que poderia causar no homem.

"Sim, é verdade. Harold é o favorito. No entanto, se eu sobreviver a essa tempestade..."

"Ele ainda herdará o título, Herman. Seu pai se assegurará disso, e sua mãe, apesar das amantes do seu pai, e de negar a si mesma o desprezo que o filho querido tem por ela, simplesmente aceitará. Que honra ter um filho Alto Mago... e Conde!" ela riu "Finalmente ela poderia olhar de cima para nós, os Cassel. Vocês tinham dinheiro, mas não tinham magia, não é?"

"..."

"Não gosto de jogos. Você tem os canais de mana bloqueados, e isso se resolve. É possível também reativar os elementos e canais que se atrofiaram, por essa falta de cuidado. Isso o colocaria no mesmo patamar que Harold."

"Minha mãe sempre lhe desprezou, e eu, ao contrário, lhe conheci ainda uma criança e vi que estava muito acima de qualquer um de nós. Perdão pela arrogância da minha mãe." Herman torceu as mãos, constrangido. Lipa estendeu as dela e tomou as mãos dele nas suas. "O que eu pretendo fazer por você, alguém fez por mim e por Paul quando éramos crianças, e temos uma dívida de gratidão com essa pessoa até hoje."

"Eu não entendo como você pretende fazer essa cerimônia. Eu não frequentei a academia, afinal, sou muito insignificante, mas até eu sei que são necessários magos de todos os elementos e polaridades para algo dessa natureza."

"Você deve ter ouvido que eu domino mais de um elemento, não é?" ela viu o homem aquiescer. "Eu domino todos, na verdade. Pode confiar. Quanto aos seus vasos de mana... o ideal seria uma temporada em Cassel, nas nossas piscinas de água da mina, e um tratamento de desbloqueio, que o Duque não pode saber..."

"Como faremos isso, Duquesa?" Após a pergunta brotar de seus lábios, Herman viu um sorriso malicioso se desenhar no rosto jovem e outrossim sério daquela mulher. "Hoje à noite você tomará uma poção, e dormirá no anexo do jardim..."

-

Após o jantar, Herman se dirigiu para o anexo do jardim, que consistia numa pequena casa de hóspedes, com grandes janelas de vidro e venezianas e varandas abertas. Encontrou uma cama fresca, e uma ceia de frutas, uma moringa com água, e dois frascos de poção, que, de acordo com as instruções, ele deveria tomar em sequência.

Mal tomou a primeira, sentiu seu corpo tomado por ondas de enjôo. Correu até o banheiro e vomitou todo o jantar, almoço e lanches. Quando pensou que não podia ficar pior, começou a ter diarréias, e se sentiu desmaiar. Descomposto e fedido, sem ter a quem pedir socorro, sentiu seu corpo suar, perdendo mais líquido ainda.

Desmaiou no chão do banheiro, de calças arriadas. Acordou algumas horas depois, com um vulto que mal conseguia discernir ao seu lado, e ouvindo duas vozes. Sentiu um líquido, a outra poção, sendo enfiada por sua goela abaixo, e depois seu corpo sendo mergulhado numa banheira de água fria,

Não obstante o suadouro que passado antes, a sensação que tivera era de frio e umidade, mas naquele momento, seu corpo começava a se aquecer, a ferver, seus lábios estavam ainda mais ressecados. A água fria ao seus redor lhe dava um alívio para aquele tormento que durou por um tempo que ele era incapaz de discernir. 

Enfim, se percebeu estável, e foi erguido pelos dois vultos de dentro da banheira, limpo e colocado em um camisolão fresco e limpo. Lhe ofereceram água, que ele bebeu avidamente, antes de cair no sono.

Acordou pouco antes do sol nascer, faminto, e saciou a fome com algumas frutas e um pouco de água, antes de dormir mais um pouquinho. O dia já alto, seu valete o buscou para começar as obrigações do dia.

Apesar de uma certa exaustão, ele sentia seu corpo mais sensível, alerta, e responsivo. A comida tinha mais gosto, os sons eram mais cristalinos, os odores mais variados, as texturas mais estimulantes, as cores mais detalhadas e vivas.  Coisas que antes lhe passavam despercebidas, lhe pareciam gritantes, como detalhes da aparência das pessoas, seus intentos, suas emoções e sentimentos.

Depois das obrigações matinais, voltou para casa para almoçar e se preparar para a inauguração do portal, que seria depois das horas de descanso da tarde, e se olhou ao espelho, antes de tirar a roupa para se deitar: aquele homem era ele mesmo? Não era musculoso, nem particularmente atraente, porém ainda não via sua testa mais calva como a do seu pai, e nem tinha a pele cheia de sardas como a sua mãe. Ele se esforçara tanto para ser um bom administrador de terras! Nunca chegou a aprender artes marciais ou magia significativa, afinal, seu pai lhe disse que ele não tinha magia e nem porte para isso.

O homem no espelho lhe parecia capaz de ser alguma coisa ou alguém além de um mero aquecedor de assento, para o próximo Conde. Herman dormiu tão relaxado em seu cochilo que nem percebeu que sua esposa e seu valete entraram e escolheram a roupa que vestiria.

Para surpresa de todos, ordenou que lhe rapassem a cara, tirando o bigode e a barba que vinha cultivando, apesar das falhas, e expondo um rosto liso, bem mais jovial. Assim vestido e de cara lisa, parecia realmente um homem de trinta anos, e não um senhor.

Pode sentir a insegurança de sua esposa diante de sua mudança, e o desagrado de sua mãe. Encontrou o Duque a Duquesa no palanque ao lado do novo portal, já no meio da tarde. "Ela parece pequena ao lado desse gigante.", ele pensou.

Repetindo seu vestido branco, Phillipa demonstrou o uso do portal, entrando com o sinal do portal de Cassel. Dos quatro círculos emergiu uma espécie de névoa escura, que se espalhou por todo o chão, e por muitos metros de altura. Um ruído como o de um gato ronronando podia ser ouvido, por quem estivesse mais próximo ao poço escuro. Ao contrário dos portais imperiais, que pareciam de fato uma porta, esse materializava todo um espaço.

O volume de carga por segundo de mana era bem maior. Imediatamente visitantes da Garganta emergiram pelo portal, as Carruagens com o brasão dos Cassel, carroças com suprimentos, que seriam esvaziadas e cheias de mercadorias para o sul.

Da carruagem dos Cassel, um jovem de estatura pouco acima da mediana, de cabelos castanho claros, desceu, com uma leveza sedutora. Paul Cassel viera celebrar a aliança entre as duas Casas, e comprovar a segurança do seu projeto com sua irmã.

Não, ele viera na verdade ver sua querida irmã, tanto que deixou a esposa para trás, vindo com seu padrinho, Sir Roster

Herman se sentiu feliz pela primeira vez desde a adolescência. O sol se punha no horizonte e a cidade se iluminava aos poucos. O terror dos monstros tinha sido reduzido consideravelmente e a comunicação com o resto do país estava sendo normalizada, por estrada e por portal. Ao lado do gigante as duas raposas da Casa Cassel se abraçavam pela primeira vez em meses, e todos pareciam felizes.

 

Capítulo XXIII

Como era de se esperar do imperador Oscar Maximus, apenas os magos espaciais mais fracos e menos capacitados foram enviados para operar os portais do norte. Em sua maioria, eram plebeus ou filhos de cavaleiros com terras que não puderam arcar com a continuidade dos estudos na Academia.

Os recusos enviados com a legião do Sul foram o que faltava para que as Raposas de Cassel, Paul e Phillipa, com a assistência das pessoas que reuniram ao seu redor, pusessem seu plano de novos portais em ação. Eles vinham trabalhando em novos modelos de portais, com aprimoramento da potência e treinamento dos magos. Quando Sterling lhes deu o primeiro conjunto de pilares, rapidamente desmontaram e o reconstruíram, plano, e com cristais e nova interface. Os testes com materiais menos nobres e em miniatura se traduziram em sucesso completo, com os materiais de primeira linha trazidos do sul. O resto era pensar a engenharia não mágica, o grande tabu daquele império.

Transformaram os novos portais em verdadeiros artefatos alimentados por mana — dispensando a necessidade de um mago espacial para funcionar. É claro que isso enfureceu os magos espaciais, e as ofensas trocadas entre eles foram um espetáculo à parte.

Contudo, Phillipa e Paul mostraram-lhes que seriam muito mais úteis no campo de batalha do que como simples porteiros... não que isso agradasse à maioria, afinal, o campo de batalha ou de caça, podem ser muito perigosos!

Phillipa também era uma maga espacial e demonstrou como usava esse tipo de magia para fazer incursões ao lado do irmão. Logo, todos os magos com alguma afinidade por esse tipo de energia pediram para integrar o grupo dos onze de Cassel — como seus esquadrão ficou conhecido

Ao descer da carruagem, Paul mal acenou para o público e correu para abraçar a irmã. O abraço foi longo, ele quase a ergueu do chão com um braço, enquanto o outro enterrava-se em seus cabelos, puxando-a para si com tanta força que os que os observavam começaram a se sentir desconfortáveis.

"Pai manda lembranças, irmã".- A voz dele falhou. Percebendo o olhar furibundo do cunhado, soltou a irmã e estendeu a mão, para um aperto amistoso. "Então... aí está o brutamontes! Minha irmã emagreceu, Sua Graça! Espero que cuide bem dela!" Estendeu a mão também ao conde, trocando gentilezas, e declarou que os carregamentos deveriam ser movidos imediatamente. O portal descansaria durante a noite, e no dia seguinte ele começaria a funcionar normalmente.

"Ha, o jovenzinho ousa me mostrar os dentes!", resmungou Sterling a Ren.
"Todos sabem que ele é muito próximo da irmã, alteza." Ren apreciou a aparência relaxada do jovem filho do Conde Cassel, seus modos largos e viris. "E parece que também tem lábia. O conde Sollis se deu bem com o senhor e a senhora, mas as damas... estão muito mais encantadas com o jovem Lorde Paul." 
"Ele é bom com as mulheres?", Sterling prestou atenção às maneiras suaves e gentis de Paul, à forma como ele sorria, e prestava atenção à qualquer estultice que aquelas senhoras falavam. O Grão Duque sinceramente as achavam maçantes, e não compreendia como aquele jovem podia pensar de outra maneira.
"Ele é diplomático com as damas. Nós, homens de armas, não temos esse dom natural." Ren avaliava o rival, sim, para ele o verdadeiro rival pelo coração de Phillipa era aquele jovem que, com tanta facilidade, encantava as senhoras.
"Ele é só um garoto!" Sterling protestou, pensando nos próprios filhos.
"Minha irmã me contou o quanto ela tem trabalhado, meu cunhado". Paul lançou o anzol.
"Não exagere, cunhadinho. Lipa adora destroçar monstros, e, segundo ela, você compartilha do mesmo esporte." Sterling identificou um sorriso vaidoso no rosto liso e outrossim inofensivo do jovem. "Bom, alguns de nossos grupos já estão acampados a dois dias de distância da mansão, o que significa que nos moveremos assim que os suprimentos chegarem."

Mais tarde, no jantar, ficou evidente o quanto a condessa e sua sogra pareciam encantadas com o jovem lorde Cassel, a ponto de exaltarem o carinho que ele demonstrava pela irmãzinha — a mesma que elas haviam evitado e criticado nas últimas semanas.

"Se fosse somente a caça... toda a infraestrutura para o novo portal foi supervisionada por ela, não foi?" Paul retrucou, suavemente, entre um gole de vinho e outro.

Percebendo o clima, Herman Sollis resolveu intervir. "Sem dúvida, Sua Graça, Dona Phillipa foi a melhor pessoa para essa tarefa, lorde Paul! O conhecimento dela foi muito valioso para todos nós!"

"Eu tenho certeza disso, Conde Sollis. Minha irmã é uma maga comparável a poucos no império."

"A propósito, lorde Paul, como está sua esposa? Foi uma surpresa recebe-lo aqui, tão cedo depois das núpcias!"  A condessa viúva perguntou durante o jantar, tentando se mostrar informada.

"Lelia está bem, se habituando à vida no castelo. Não que ela tenha muito o que fazer por lá, afinal, Cassel não tem nada em comum com Ponta Areia." O riso de Paul soava musical aos ouvidos daquelas damas.

"Imaginei que vocês iriam se mudar para a mansão de veraneio dos Poiret" , interveio a condessa, essa sim, imaginando a vida pós reconstrução do norte como algo mais ameno.

"Não vejo razão para isso." Paul cortou o assunto com um sorriso. " Ah, cunhado, um amigo da corte me avisou que o imperador enviou uma outra expedição, sob o primeiro príncipe, para controlar as masmorras que surgiram no reino. Seu tio, Marquês Delmas, enviou o filho mais velho dele."

Sterling sabia que Oscar iria cobrar, em algum momento, que um de seus filhos fosse para alguma frente de caça ou batalha. A sensação de urgência relativa a fenda do norte aumentava a cada dia.

"Lipa, minha querida, recebemos uma visita inesperada há quase um mês! Lembra do jovem Clermont? Lucien Clermont? Ele retornou ao reino!" Subitamente Paul e Phillipa pareciam envolvidos em um mundo próprio.

"Neto do velho Clermont?"  Sterling tentou entender a relação entre esse homem e as Raposas.

"Irmã, precisamos conversas. O velho Roster veio comigo, para evitar problemas, mas eu trouxe algumas coisas mesmo assim." Paul e Phillipa estavam de mãos dadas no salão.

*

"Papai escondeu presentes que Clermont e Miura nos enviaram todos esses anos!", Paul contou à irmã sobre o quarto cheio de presentes que os jovens lordes enviaram aos dois, regularmente, durante todos aqueles anos de suposto silêncio. Não apenas presente, mas também cartas.

"Mas porquê?" A jovem não se importava com os presentes, ou com as cartas em si, mas sim com a atitude do pai.

"Também não compreendo. Roster diz que ele só quis nos proteger de conviver com esse alto escalão da nobreza. Mas isso não faz sentido, já que ele te casou com Sterling!" Os olhos do irmão expressavam a traição que sentiu por parte do pai. "Enfim, o navio em que Lucien viajava atracou em Ponta Areia para uma escala de suprimentos e ele ouviu falar do portal de Cassel. Resolveu enviar parte de sua entourage por mar, para Áurea Lux e Fazenda dos Touros, e subiu para Cassel com dois cavaleiros e um valete.

"Foi assim que nosso pai teve de dar conta dos presentes!"

"Exatamente! Presentes vindo de Viridium, e até do além mar, por onde Lorde Miúra viajou!" Suspirando, Paul, sentou a irmã sobre sua perna e continuou "Eu e meu pai não estamos na melhor das situações. Por outro lado, a vinda do jovem Clermont foi providencial para os nossos planos, pois ele compreendeu a nossa posição, e podemos retomar a amizade e alianças."

"Paul, ele não é o herdeiro da Casa Clermont!" Phillipa o alertou.

"Eu sei, mas ainda é um Clermont, descendente dos Lennart, e voltou para o sul acompanhando uma nobre viridiana noiva do novo Marquês Germaine. Ele mesmo terá de se casar em breve, apesar de se juntar à expedição do primeiro príncipe, em nome dos Clermont"

"E o lorde Miúra?" Phillipa estava ansiosa por notícias do homem que ajudou tanto a ela e ao seu irmão.

"Ele retornará ao país em breve, está terminando alguns negócios pessoais no exterior." Paul suspirou. "Eu também agradeço ao Lorde Miura, mas você parece ter ficado com uma fascinação por aquele rapaz de cabelos brancos, não é?"

"Não nego! Acho que eu passei a querer ser como ele!"

"Ainda bem que quer ser como ele, e não casar com ele!" Paul fez um beicinho enciumado.

"Amanhã eu farei uma cerimônia para despertar a magia de vinte pessoas."

"Enlouqueceu? Sabe a quantidade de mana que isso gasta? Se é que essa gente tem magia para ser despertada? Não mesmo!" Paul protestou, horrorizado.

"Chega da magia ser exclusiva de nobres, e chega de vivermos apenas de magia. Você contratou os mestres de engenharia não mágica?"

"Não são fáceis de achar. É uma raça bem desconfiada... mas encontrei alguns, e estou tratando muito bem. Mencionei o tema para o Lúcius Clermont, e..." Paul pausou ao ver o espanto no rosto da irmã. "Calma, ele achou a idéia excelente, e ofereceu apoio para trazer mestres de fora do país, e achar mestres no sul, onde eles acham trabalhos clandestinos."

"Ufa!"

"Agora a moça pode me dar um beijo?" ele a puxou para si.

"Eu já dei, como irmã. Paul, você está casado, e eu também..."

Ele estava casado. Lelia era o oposto de Phillipa, e não era difícil para um homem gozar, no sentido de ejacular. Não havia nada que ele desejasse, em especial, na esposa, ou apreciasse, nem como ser humano. A fortuna dos Poiret, a casa comercial, o armazém, a mansão na cidade de Ponta Areia e no campo, tudo era dele agora, pois o Barão não tinha herdeiros homens e a condição do casamento era que tudo fosse passado para Paul, antes que ele herdasse Cassel.

Em fantasias malévolas, Paul imaginava um cenário em que ele se tornaria viúvo e depois se casaria com alguma herdeira de Ília, nos mesmos termos, unindo as maiores fortunas da região sob si mesmo. Teria Phillipa como sua concubina e esposa de fato, tendo seu herdeiro com ela, e adotado pela esposa legal.

A garganta seria um reino em tudo, a não ser pelo título, e eles, tão ricos e poderosos quanto os Clermont ou os Miúra.

Enquanto Lipa e Paul conversavam no Anexo do Jardim, preparado para o jovem Lorde Cassel, os outros continuavam a celebrar na Mansão Sollis.

"Os irmãos Cassel sempre foram muito apegados, Lorde Sterling, Os conheço há muitos anos e sempre viveram num mundo só deles. Certamente essa fase de terem se casado e cada um ter de seguir com sua própria vida deve estar sendo difícil para eles." Herman ofereceu mais um copo de vinho branco gelado ao Duque.

"A maioria das famílias nobres não são assim, então não imaginei.", a verdade era que a proximidade dos irmãos o incomodava profundamente.

"É compreensível. Lady Phillipa tem esse jeito meio moleque, mas muitos jovens se apaixonaram por ela... só pra serem enxotados por Lorde Paul.” Herman deu uma risada. "Meu próprio irmão mais novo, Harold, era caidinho por ela, e essa era uma das razões pelas quais minha mãe implicava tanto com a pobre garota. Dizia que ela mandaria no Harold como uma tirana."

"Sua mãe não estava errada, Phillipa é uma mulher de temperamento forte, precisa de mão forte" Sterling esvaziou mais uma taça.

"Talvez... talvez ela precisasse mesmo era da mão firme de um homem mais velho.", o sorriso do conde soou como ferro raspando em pedra.

"Então, com sua licença, esse velho aqui já vai se juntar à sua jovem esposa. Boa noite, Conde Sollis.”

Donovan Sterling encontrou o quarto vazio. Lembrando das palavras do cunhado, saiu silenciosamente da mansão e se esgueirou até o anexo. Pelo lado de fora viu sua esposa sentada no colo do irmão, ela deslizando os dedos pelos cabelos dele, discplicente. Não estavam se beijando, nem fazendo nada explicitamente sexual porém havia uma intimidade nos gestos e no olhar que instigou um ciúme amargo. O olhar do jovem não era fraterno, mas de amante, ele tinha certeza, mesmo não sendo uma pessoa muito perceptiva ou sensível. Pensou ver a mão do cunhado na perna da sua esposa, o rosto perto demais do decote dela. Recuou do ímpeto de intervir e causar um escândalo. Que sorriso era aquele no rosto dela que ele nunca a viu dedicar a ele? Não, ela não podia sorrir para mais ninguém, ainda mais daquela maneira! Girou nos calcanhares e fez o caminho de volta para o solar como o mais miserável dos homens.

Exausto e com a mente clareada pelo ar da noite, Donovan voltou ao leito sozinho. Já amanhecia quando sentiu Phillipa deslizar sob os lençóis.

 

Capítulo XXIV

Vinte pessoas aguardavam Phillipa e os magos da legião que se propuseram a auxiliá-la. Alguns o fizeram por curiosidade, enquanto outros seriamente se dispuseram à tarefa, em virtude do respeito que vinham adquirindo pela jovem maga.

O anfiteatro de Sollisburgo era escavado na encosta de uma colina, totalmente esculpido em pedra. Os degraus da arquibancada, o fosso em duzentos e setenta graus, ao redor do palco, o palco com estrutura de pedra e partes móveis de pedra, que podiam ser trocadas por madeira para efeitos cênicos, e ao fundo a parede côncava, que tanto propiciava recursos cenográficos quanto acústicos. Atrás do palco, uma casa com vestiários, banheiros, e armazéns, completava um dos poucos espaços para artes cênicas e música daquele tipo no império.

De acordo com o Conde, a estrutura era uma restauração, com claros aprimoramentos, de um anfiteatro erguido pelas pessoas que habitavam a região antes do domínio do Império Pollux. Esse povo, do qual se tinha pouca documentação, foi exterminado ou assimilado, ao que parecia, e deixou poucas construções duradouras. O Anfiteatro de Sollisburgo era uma dessas raridades. Havia a suspeita de que o local era também usado para cultuar os deuses arcanos, porém não sobraram nenhuma das inscrições originais nas paredes.

Não fosse a barreira do deserto, talvez Pollux e Viridium teriam se enfrentado em guerras de extermínio, antes que ambos tivessem se tornado poderosos o suficiente para que o custo de uma guerra se tornasse insuportável para ambos, já que nenhum dos dois poderia se imaginar honestamente ganhando.

Phillipa estava se preparando para despertar a magia de vinte pessoas de idades diferentes e não se arriscava a contar apenas com sua mana. O círculo mágico, exatamente igual ao usado por Leto Miura já se encontrava traçado no chão do palco, porém ela usou cristais de essências de monstro e de bestas de mana de magias diferentes. Seu único problema era a magia espiritual: embora ela tivesse muita, era órfã da bênção de qualquer um dos deuses, pois nunca fora nem apresentada ao templo. Sua magia espiritual era canalizada pela fé que ela trazia de sua vida anterior, de que tinha memória e não das divindades que governavam esse mundo. 

Um dos poucos Clérigos da legião, Ferdinand Welsey, abençoado pela deusa Ília, a estava auxiliando naquela noite, no entanto a quantidade de mana dele era limitada. Poderiam trabalhar juntos?

Além dos vinte voluntários, várias pessoas ocupavam as arquibancadas: familiares, legionários, curiosos. Ainda assim não estava cheio. Conseguiram manter uma relativa discrição.

Próximos de Phillipa, Sterling e Paul se perfilaram, a postos, como magos de Fogo, Terra, Água e Ar, combinados. Sir Ren também havia se disponibilizado a ajudá-la, bem como Jayce e Ollie. Ela estava entre amigos, suspirou.

Quando finalmente anoiteceu, ordenou que acendessem as tochas próximas ao palco, e se postou no símbolo do oficiante, uma estrela de oito pontas, representando os oito elementos. A brisa da noite era fresca e passava pela camisola longa e fina que vestia, ajudando a evaporar o suor dos primeiros minutos da circulação de mana. Ela sorriu: pareciam haver dezenas de hamsters correndo em rodinhas sem parar na sua mente, até que seus ouvidos começaram a zunir, e seu corpo doer. Ela se sentou de pernas cruzadas, sobre o X traçado no círculo e sentiu que do alto da sua cabeça até o seu cóccix, uma espécie de corrente começava a passar, cada vez mais forte e intensa. 

Ela abriu os olhos e examinou as pessoas ao redor: ela era o centro das atenções, no entanto era como se ela fosse apenas uma expectadora. "Estou me dissociando? Humm... Acho que usar todas as magias ao mesmo tempo seja assim mesmo, é preciso atuar, ou então eu vou explodir." Sim, cada célula do seu corpo estava viva, vibrando em oito planos diferentes, e ela se percebeu excitada mental e físicamente.

A partir do seu ponto, o resto do círculo se iluminou, em oito cores diferentes, porém sem se fixar em nenhuma. Ela então pediu que o primeiro voluntário subisse na plataforma e ficasse de pé no centro.

Um menino de dez anos, vestido com sua melhor roupa entrou descalço no círculo. Imediatamente ela soube que era um menino plebeu, órfão, que estava trabalhando numa ferraria da cidade. Algumas memórias do garoto chegaram até ela, porém ela evitou se deter nelas, e projetou sua mana sobre o garoto: os vasos de mana dele imediatamente se dilataram, e ele arregalou os olhos, as cores do círculo mudaram indicando os elementos, e ficaram mais fortes. No sistema de Pollux, apenas fogo, ar, terra e água eram considerados elementos de verdade, luz e escuridão eram consideradas polaridades, e espírito e espaço eram considerados místicos.

O menino era um mago de fogo, com magia espiritual. Havia traços de ar nele, o que era muito sinérgico com fogo. Ele tinha potencial.

Ollie ajudou o menino a sair do círculo, e outro voluntário subiu. Era um adolescente, um tanto gordinho, cheio de espinhas no rosto, e cabelos desgrenhados. As memórias dele também assaltaram Phillipa, mas ela novamente se ateve a penetrar a tessitura mágica do outro: era um mago de água, e somente água, bastante potente, mas nada além de água. Por outro lado, toda aquela mana colocada em água... ele estudar magia faria bem á saúde física dele. A magia latente, nunca desperta, poderia causar doenças.

Um soldado subiu na plataforma, um homem de uns vinte anos, que mancava visivelmente. Ele tinha magia de terra e escuridão. "Ah, combina com a vida e com o temperamento dele!" ela pensou, apesar de não ter tanta potência, poderia ser desenvolvido.

Sem que aqueles voluntários soubessem, Phillipa os havia visto pela cidade e sugerido aos seus assistentes que os induzissem a se voluntariar, portanto, ela sabia que todos eles tinham algum tipo de magia.

Até o último voluntário, quatro horas se passaram sem que ela bebesse uma gota de água, e apenas duas vezes ela relaxou e usou a reserva de mana dos cristais mágicos: todas aquelas pessoas estavam por desabrochar, e eram relativamente jovens.

Então o mais velho subiu no círculo e era ninguém menos do que o próprio Conde Herman Sollis!

Naturalmente, todos prenderam a respiração, pois a pessoa mais importante da cidade estava se propondo àquele ritual, quando era público e notório que ele era um mago de fogo com mana extremamente baixa, despertado na adolescência. A fofoca da cidade era que o primogênito dos Sollis era um bom homem e administrador honesto, mas que o gênio mágico da família, era o mago de Fogo, Harold Sollis.

Herman subiu no círculo descalço apenas de calças e em mangas de camisa, a diferença dele para um plebeu qualquer talvez fosse a qualidade da roupa, mas de resto, ele era igual aos outros. A esposa dele havia se recusado a comparecer ao que ela denominou de evento circense e ficou em casa com a sogra e a filha: ele pensou que iria se sentir mal por isso, mas foi o oposto, pois, distante dos olhares julgadores da mãe e da esposa, ele se sentia livre.

Olhando fixamente para Phillipa ele lembrou de orar pela primeira vez em anos, para o deus para o qual foi apresentado no templo, Ignius, o deus do fogo, que tudo consome e purifica. No fundo do seu coração, ele queria que toda a sua angústia, seu sentimento de inferioridade, sua fraqueza, tudo fosse consumido e eliminado do seu corpo e da sua alma, purificando-o, e que ele pudesse ter a oportunidade de ser uma pessoa feliz.

Seu corpo oscilou entre calor e frio, porém sem o menor desconforto, ao seu redor, o círculo ficou branco, vermelho e dourado, brilhando intensamente, como uma flor desabrochada a ponto de despetalar e dançar ao vento. Ele foi tomado por um júbilo que nunca havia sentido antes.

Quando deu por si, viu Phillipa em pé diante dele, em meio a luz, os cabelos negros soltou, os olhos escuros como espelhos de obsidiana, e a voz quase íntima dizendo: "Eu lhe prometi, não? Vamos descer, já acabou."

"Minha magia despertou, não é?"

"Sim, é claro!"

"Fogo? Eu senti a mana, mas era só sua?" era esse seu medo, de não ter mana.

"A intensidade da luz depende da intensidade da mana que sua magia terá, e você não tem somente fogo: você tem fogo, luz e uma grande magia espiritual." Ele deu a mão a Paul para descer do palco, e logo estava acompanhada de seus cavaleiros, que lhe ofereceram uma cadeira e refrescos.

"Meu marido, você viu? Nosso amigo Herman tem magia para um perfeito paladino!"

A expressão de espanto no rosto do homem fez o Grão Duque rir. "Bom, infelizmente é tarde para a carreira de paladino, mas nada impede de desenvolver a magia."

"Sua esposa não iria gostar nada do meu amigo Conde abandonando a família e se enfiando em um templo, se dedicando completamente a um deus, levando uma vida de asceta, para as artes marciais e oração" Paul arrematou "Particularmente, eu nunca entendi esses sujeitos."

"Alguém está cuidando dos despertados?" Ela perguntou.

"Sim, minha Senhora. Branson e Welsey está assistindo a eles, acho que a senhora pode ir descansar tranquila." Ollie respondeu.

Vinte novos magos, um deles um Conde; vinte novos aliados para a vida inteira. Paul teve de admitir que a irmã estava efetivamente criando sua própria lenda, e seus apoiadores.  Por outro lado, ver o Grão Duque tomá-la nos braços e levá-la até a carruagem o deixou incomodado.


Quando entraram nos seus aposentos da grande mansão Sollis, Donovan e Phillipa estavam silenciosos. Ela não estava triste, pelo contrário, mas apenas cansada, exaurida de boa parte de sua mana, e até suas carnes pareciam exaustas, de certa maneira, moles. A grande banheira de água tépida no banheiro, providenciada pelo Conde, feita sob medida para caber tanto ela quanto o esposo, mais parecia uma pequena piscina, acolheu a ambos, que relaxaram na água perfumada com óleos de madressilva, o odor doce e verde era relaxante refrescante, e tinha um efeito medicinal. Tanto ela quanto o esposo, pareciam sempre estar com pequenos arranhões e machucados, ou com os corpos mais extenuados, e aqueles banhos, os acalmavam.

Os cabelos dela, molhados e flutuando na água, pareciam uma nuvem negra, que o homem acariciava.

"Por favor não corte seus cabelos. Eu gosto deles assim, longos e fartos."

"Ah, Donovan, o calor é tão sufocante! Meu pescoço fica todo irritado. E é difícil cuidar viajando tanto.!"

"Se quiser eu os tranço para você. Te preparei uma surpresa. Comprei um surprimento de produtos para os cabelos num boticário local."

"Você é um homem estranho. Sei que não me achas nenhuma beldade, mas por alguma razão, gostas dos meus cabelos."

"Sim, não mude nada neles, não se você se importa comigo!" e ele a acomodou contra seu corpo grande, alisando as coxas e os braços dela, como uma massagem carinhosa.

"Jurei não me intrometer no que você faria com essas pessoas que você despertou, mas..."

"Sir Dennis ficará por aqui e cuidará deles. Instrução básica. As coisas não estão boas entre meu pai e Paul, menos ainda entre Paul e tio Dennis, então ele resolveu vir para cá. Nós não conversamos, mas ele fará o básico para essas pessoas, e é conhecido antigo dos Sollis."

"Aham...Lipa... me responda, você é mesmo filha do Marcus Cassel?" Donovan era um Maximus apesar de tudo, e possuía alguma magia espiritual, apesar de todos os rituais, ele sentia que havia algo incomum na esposa, e o relacionamento dela com o pai e o irmão era mais do que suspeito.

Phillipa esperava que essa conversa acontecesse em algum momento, mas não tão cedo. Por outro lado, o marido parecia bastante tranquilo, e, se fossem adiante, era melhor que fossem sem tantos segredos.

"Não, não sou. Eu sou uma Cassel, filha da irmã mais velha, Mia."

"Por isso o contrato apontou o sangue dos Cassel..." ele murmurou.

"Exatamente. Meu pai, quer dizer, meu tio, é um irmão um bocado mais novo que minha mãe, e me adotou quando minha mãe apareceu perto de dar a luz. Pouco depois ela faleceu, e ele me adotou, considerando que a esposa dele tinha acabado de perder uma criança. Paul já era nascido."

"Então você nunca conheceu sua mãe de verdade?"

"Não, Sir Dennis, sim. A mãe do lorde Herman, talvez sim. O que eu sei dela é que, assim como eu, ela era poli elemental. Só tem um quadro dela no castelo. Ela é mais parecida com meu avô, e meu irmão é parecido com a mãe. Eu sou parecida com ela e meu avô, infelizmente, já que ela não era exatamente linda."

"Pelo jeito você herdou seu poder dela e de quem quer que tenha sido seu pai... Pois você é... bem diferente.", Donovan parecia estar divagando, fabulando.

"Essa foi uma das razões pelas quais meu pai não se importou que nosso contrato de casamento tivesse um prazo estipulado. De qualquer maneira eu não pretendo engravidar, e ambos sabemos que essa maldição no seu flanco consome tanto do seu mana, que o que lhe sobra é o bastante para viver e lutar. Você até poderia semear um filho, mas sem traço da sua magia. Então... eu jamais serei duquesa de fato, em nada sou ameaça para meus enteados." ela se moveu para se soltar dos braços dele e sair da banheira.

"Eu sobrevivi até agora com essa coisa. E se eu voltar vivo dessa empreitada? Porque não plantar um filho no teu ventre e te fazer duquesa por completo? Se ele, ou ela, herdar só um pouco da sua magia, é o bastante."

Cada vez que ele a tomava, ele drenava sua mana. Naquele noite, depois de um ritual tão desgastante, ela estava especialmente enfraquecida. Isso não impediu o homem de segui-la para a cama e beijá-la com o carinho de que era capaz, demandando uma luxúria que ela, no máximo conseguia fingir. 

As arremetidas dele sugavam mais de sua energia, e ela se sentia desfalecer sob o gigante, que a abria exageradamente, quase rasgando-a. Ela mordeu o travesseiro, abafando um gemido de dor, enquanto ele ejaculou forte e fartamente dentro dela, para logo entrar em colapso e cair ao seu lado, dormindo o sono dos justos, de quem finalmente tinha certeza de que teria a esposa nas mãos até morrer.

Capítulo XXV


O dia seguinte, quente e abafado, testemunhou a movimentação da legião para o nordeste da cidade, de onde todos partiriam. Os esquadrões de patrulha e caça já vinham mapeando o terreno adiante há mais de uma semana, e era hora de se despedirem e partir.

Pensando bem, o mês passado em Sollisburgo tinha sido um dos melhores de sua vida adulta, ela concluiu, quando ela pode ser vista como alguém com autoridade, poder, ser respeitada pela população, não obstante a sua juventude, ela concluiu. A forma como o Grão Duque a solicitava sexualmene a incomodava, pois lhe dava a sensação de que ele afirmava sua propriedade sobre ela, apenas sisso. Ou então ela era muito defensiva?

Paul não havia tido tempo de se despedir adequadamente, graças às constantes notificações do Conde Cassel, e ela podia prever que as relações entre ele e o pai ficariam cada vez mais estremecidas. Não perguntara a ele sobre a esposa, no entanto, ele deixara claro que o Castelo era Cassel, e não Poiret, e que continuaria sendo governado por ele, pelas pessoas dele, e que, se ela não estivesse satisfeita, que fosse morar fora.

Conhecendo Lelia, ela só faria isso depois de ter uma criança no ventre, e ela só podia rezar para que o irmão manejasse bem a situação, pois ela não tinha a intenção de retornar à Garganta quando aquilo tudo terminasse para governar ao lado dele, ao contrário, ela queria amealhar sua parte no botim, seu dote e indenização, e ganhar mundo.

Enquanto preparava as suas coisas pessoais para a viagem, encontrou Sir Dennis Roster junto à sua carroça. Ele parecia mais magro, o rosto mais triste, os cabelos mais grisalhos. Uma barba fina lhe cobria o rosto, e a camisa de cor creme, com um colete, calças e botas, mais pareciam adequadas a um pai de família em final de semana do que a um estudioso em viagem.

"Duquesa Phillipa! Eu preciso lhe entregar algumas coisas antes que parta." Ele colocou no chão uma caixa de madeira, sobre outras, e se curvou.

"Para com isso, Sir Dennis, o senhor me viu em cueiros. Eu estava é chateada do senhor ter me evitado tão abertamente! O que eu fiz dessa vez?" Ela passou por ele e deu um tapinha carinhoso no flanco do cavalo. 

"Nada. Na verdade eu trouxe alguns suprimentos para você, e algumas coisas que estavam guardadas pelo Marcus." o cavaleiro de meia idade coçou a nuca e desviou o olhar, em direção a estrada.

"Paul me contou do quarto de presentes. Eu vivi sem eles até hoje, aposto que só me atrapalhariam nos acampamentos. De qualquer maneira foi bom saber que eu e Paul deixamos uma boa impressão naqueles dois jovens!" ela suspirou.

"Seu pai... bem, aqui estão alguns livros que você pode precisar, e nessa caixa estão alguns cadernos, que eu e ele supomos que sejam diários." Diante do olhar especulativo da moça ele continuou. "Seu pai guardou os presente juntos com as coisas do seu avô e da sua mãe. Hehehe, sempre é possível esconder coisas em um castelo, não é? Bom, em meio a essas coisas estavam alguns cadernos, ou livros, não sabemos, com selos mágicos que pertenceram ao seu avô e a sua mãe. Seu pai não conseguiu abri-los até hoje, e Lorde Lucien deu uma olhada neles. Nos aconselhou a entregar a você."

"Então papai mostrou a um estranho e não a mim?" a jovem franziu o cenho, e não conteve a expressão de desapontamento.

"Não foi isso, é que o Lorde quis ver os presentes, afinal, ficou ofendido, e uma vez no quarto, ele viu esses tomos... Foi assim que surgiu o assunto. Como ele é formado pela Academia Real e passou muito tempo em Viridium, nos disse que apenas poli ou omini elementais poderiam abrir aquele selo. Ou que o Conde levasse à academia, mas que iria custar muito dinheiro, e, provavelmente, os professores iriam explorar o conteúdo, além do próprio selo."

"Quando eu tiver algum tempo eu dou uma olhada. Só isso?" Phillipa estava desconcertada.

"Fiquei aliviado ao observar o Grão Duque ao seu lado. Ele pareceu ter se afeiçoado à você." O sorriso no rosto do homem era genuíno, e isso a intrigou.

"Eu sou tão difícil de ser apreciada assim, professor?" ela perguntou, enquanto acompanhava os soldados e servos terminando de carregar as carroças.

"Você me lembra muito a sua mãe. Como eu poderia não gostar de você? Só que eu nunca soube o que podia fazer a sua mãe feliz, e nem a você. Espero que você encontre a felicidade, minha menina." Roster a olhava com a ternura que ele só lhe dirigia quando estava um tanto embriagado, ou em épocas do ano que ela aprendera a identificar e a tirar vantagem, como o início do outono, o solstício de verão...

Um tanto desajeitado, ele se inclinou e a abraçou, e se despediu.

Phillipa subiu no seu cavalo e se encaminhou para o estandarte dos Cassel, onde Ollie e os outros a esperavam, assoviando e rindo.  


Capítulo XXVI 

Em algum momento, em Guerras Arcanas, aquele mundo sofreria uma grande transição tecnológica. Lembrando da contagem de anos, ainda demoraria umas duas gerações, ela pensou. Em meio a isso, uma grande nave surgiria nos céus de diversos países, a maior sobre Áurea Lux, e se declararam como sendo a Raça Arcana que havia semeado aquele planeta há milênios e que retornavam para ver a colheita.

Os Arcanos eram humanoides, cuja forma real era vista apenas por poucas pessoas, que os definiam como os verdadeiros Elfos da mitologia mais antiga. Traziam novas tecnologias, mudanças de comportamento, porém rapidamente, dominaram as nações do mundo, pois uniam uma tecnologia extremamente avançada à magia, coisa inédita. Viajantes das Estrelas, Semeadores de Mundos, porém, podiam ser conhecidos também como Ceifadores, em eternas guerras e migrações planetárias.

Gaia era só mais uma vítima, e seus habitantes, reservada de alimentos e de mana.

A Casa Cassel, uma obscura casa de média nobreza de Póllux, localizada em uma região de tempestade de mana, seria o berço da maga que, ao lado do Príncipe Cavaleiro, iniciariam a rebelião no continente. Monstros, masmorras, dragões e alienígenas: tudo tão louco, e ela estava vivendo aquilo.

Se alguma mulher da Casa Cassel fosse produzir uma santa, não seria ela, mas sim Lelia ou uma filha sua, pois ela, Phillipa, não seria ancestral de nenhuma santa! A personagem protagonista das prequels era uma moça corajosa e inocente, que só teve um amor na vida, e que conquistava as pessoas pela sua nobreza de sentimentos. O verdadeiro herói, o grande protagonista, era o Príncipe, que sai da sua zona de conforto e aprende a olhar para a tirania e o horror, e se dispõe a crescer como pessoa e a lutar.

A mulher reencarnada como Phillipa Cassel não tinha a menor intenção de engravidar. Entre os suprimentos que seu irmão lhe providenciou, havia um bom estoque de remédios contraceptivos e abortivos.  Os termos do contrato a faria uma duquesa, caso ela produzisse uma criança, ou lhe garantiria bens o bastante em caso de divórcio ou viuvez, restando o problema de como usar isso num mundo onde as leis a limitavam tanto.

Ela estava apostando nas hipóteses que lhe garantiriam alguma liberdade, e ela sabia que a probabilidade do marido morrer era grande! Lhe intrigava que ele não estivesse perdendo a saúde. Ela às vezes passava uma semana em caça avançada, e quando voltava, ele estava muito abatido. Mal ela descansava, ele a tomava, e em pouco tempo estava forte e saudável, como um touro! Há muito ela suspeitava que ele roubava sua mana, e nessa fase da viagem ela teria oportunidade de provar essa teoria!

A estrada para Amêndoa Dourada já tinha sido mapeada, e os pelotões se alternavam na limpeza do terreno. Quanto mais distantes de Sollisburgo, mais a paisagem ficava mais desbastada, com vegetação mais baixa, grandes campinas e bosques apenas ao redor dos cursos de água, e em pequenas serras. Ainda assim, as árvores altas e imponentes eram escassas. Não faltava chuva, apenas a terra drenava mais facilmente para centenas de rios e riachos. Eles tinham a sorte de não haver nenhum cânion ao norte, como havia ao sul da garganta: seria preciso anos para limpar uma região dessas, de monstros, todavia, as dezenas de fazendas abandonadas e vilas desprovidas de seres humanos era um horror à parte.

Apesar de nunca ter sido muito povoado, o norte era uma região bastante rica em agricultura e pecuária. Os animais que restaram, tinham se acasalado com suas versões divinas, bestas de mana, e não eram diferentes de animais selvagens. Seria preciso muito tempo e investimento para que aquela região florescesse novamente.

"Ouvi Branson dizer que o Duque encontrou um assentamento de aventureiros."

"Ha! O velho então teve oportunidade à beça de usar os rifles dele! Aqueles filhos da puta podem ser piores do que monstros!"

"Porra, Caio, olha a língua!" Joyce deu um chute no nortenho.

"Não tem problema, ele não está errado, meu marido gosta dos seus revólveres e canhões mesmo!" ela respondeu, estirada à sombra. Já era outono, quase inverno, e eles ainda não tinham chegado à maldita cidade.

Em breve completariam um ano de campanha!

"Finalmente podemos cobrir mais terreno, não é, senhora? Agora que o calor infernal acabou?" Ollie passou para ela o cantil.

"Verdade, eu não aguentava mais!!" ela sorriu para o amigo e tirou uma soneca, enquanto os outros montavam o acampamento e faziam algo para comer.

Como regra, eles não acampavam junto aos rios, pois, assim como eles, animais e monstros precisavam de água. Com a queda da temperatura, o que tiveram foi apenas um clima mais ameno, ainda assim, ela quis se lavar, então que gastassem mana com segurança para o perímetro!

Aos poucos um por um foi recuperando a aparência e o cheiro de seres humanos, e uma refeição quente lhes forrou o estômago. Deixaram carcaças suficientes no caminho para que os Abutres, os que faziam a coleta de corpos de monstros e os pelotões de segunda onda, os achassem.

Cada pilha de corpos, mesmo que eles tivessem retirado a maioria dos cristais de essência, atraía outros monstros ou animais carniceiros. Os pelotões que se moviam no encalço deles, fazia justamente esse rescaldo, e recuperava os materiais valiosos das carcaças e as enterravam. A limpeza era reafirmada quando o resto da legião, que levava o seu suporte, se movia, e seus patrulheiros matavam o que quer que tivesse escapado.

Dessa vez ela esperaria pela Legião, mesmo que levasse mais dez dias. Ficaria por ali caçando, esperando os pelotões Abutres, e somente então veria a cara do seu esposo.

De barba feita, Ollie lhe estendeu uma caneca com chá frio, que ela aceitou. "Acho que vai chover. O pessoal está reformando o acampamento. Ninguém quer ficar no molhado."

"Ah, a maravilha de ter magos como companheiros de caçada, não é? Vocês, quando querem ficar num lugar por algum tempo, dão logo um jeito de ficar mais confortável" ela bebeu o líquido açucarado. "eu já disse hoje que você é um anjo? Tá adoçado ao meu gosto!"

Com tantos monstros mortos, ela deixava que os seus patrulheiros usassem as essência de valor comercial mais baixo para suplementar mana e dar conforto ao acampamento deles.

"Jay e Joy, eles se adoram, né?" ela comentou, admirando os modos dos dois homens um com o outro.

"Eu achava estranho, mas sim, eles se dão muito bem." Oliver riu baixo e cochichou "e eles são discretos com as coisas deles."

"Mais do que o Duque é comigo..." ela murmurou, pensativa. "Pode ser franco, você está a meu lado há mais tempo do que todos aqui;"

"Jura? Você antes passava mais tempo no acampamento, não ficava tanto tempo em caçada. É cansativo pra gente, mas... quem apontou pra gente que você poderia estar fugindo do Duque foi justamente o Jay." ele olhou a sua dama iluminada fracamente por uma pedra de mana, enquanto o vento era mantido parcialmente fora do perímetro do acampamento por um círculo. Ela encolheu os ombros e ele continuou. "Eu suspeitava disso, só que tentei ignorar. Eu sabia do Lorde Paul com a senhora e eu não podia fazer nada, sei do duque e não posso fazer nada. Eu só posso lhe seguir."

"Senhora! Senhora! Recebemos mensagem que a legião já está se movimentando, e que Sir Ren chega primeiro, com os abutres." um dos rapazes do norte gritou para ela.

"Se Ren está vindo, então ele chegará, no máximo, depois de amanhã." ela sorriu fracamemente. Depois do rio, logo adiante, era o último estirão até Amêndoa Dourada. "Tá chovendo muito forte, vamos nos recolher, para que eles possam encolher o círculo."

As barracas para duas pessoas estavam já com seus residentes, a fogueira apagada, com apenas um cristal iluminando e alimentando o círculo. Silenciosamente, Phillipa puxou Oliver para sua barraca, que ela tinha somente para si.

"Vai tira o sapato. Me responde, Ollie, eu sou tão difícil assim de ser gostada?" a conversa com Sir Dennis e os cadernos que ela havia lido a assombravam.

"Difícil?" o homem arregalou os olhos. "Não! Não mesmo!" ele se sentou no chão coberto de pele, o cheiro dela impregnado em todos os lugares. 

Ela mostrou a ele dois cadernos, "Esses são dois cadernos de diários da minha mãe e do meu avô. Acho que nenhum dos dois teve muita sorte com o amor, ou com o que quiseram fazer da vida deles."

"É difícil para a gente, assim, mulher que não precisa da gente pra nada. Na prática, você poderia fulminar qualquer um de nós. Eu sei que o caso dos lordes é diferente, ainda assim... eles provavelmente tem certeza que, se a questão é magia, você não precisa deles. E ainda assim, precisa, pois eu sei que mulher precisa de homem, vi pela minha irmã."

"Sir Pervo. Lembra?"

"Lembro, Mago Phil! A gente era muito moleque"

"Ainda somos. Promete apenas cuidar de mim e me confortar?" ela tremeu um pouco, enquanto, puxou a camisa dele por sobre a cabeça, expondo o torso magro e musculoso, as partes mais bronzeadas em contraste com as pálidas. Ele tirou a própria blusa e se virou de costas. "Pode me ajudar a tirar isso?" e ele desatou um dos nós da faixa que ela usava para proteger os seios.

"Por favor, não, eu ainda sou homem, eu náo consigo..." a voz dele parecia dois tons mais graves.

"Eu sei que você é homem."

De tão queimados pelo sol, os cabelos dele tinham as pontas mais claras e seu rosto tinha pequenas sardas. Sem ser uma beleza de chamar atenção, Ollie era um tank clássico, alto e espadaúdo, que podia receber e causar bastante dano no oponente. Se não fosse por ela lhe fornecer produtos básicos, ele cheiraria ao sabão preto do povo pobre do norte, mas ela gostava que seus companheiros usassem coisas boas, pequenos luxos, então ele cheirava a sabonete com um leve aroma verde.

Comparado a Donovan, um gigante de mais de dois metros de altura, com musculatura e agilidade de uma fera, boa parte dos homens pareceriam delicados. Ollie fez com que ela parasse e olhou nos olhos dela. "Por favor, não faça isso, pois eu gosto realmente de você. Bebi muito, apanhei muito dos meus amigos para entender o meu lugar, e..."

"Eu quero fazer isso com alguém que goste de mim."

"E você? Gosta de mim?" ele a olhou, ansioso.

"Eu quero você ao meu lado a vida inteira, e te quero feliz, mas eu sei as nossas limitações." E|la pegou a blusa para se cobrir.

Ele teve namoradas, frequentou bordéis e até as moças do acampamento. A única coisa pura, ou, melhor dizendo, puramente pecaminosa, era o desejo e devoção que ele nutria por sua senhora, desde que ele tinha dezoito anos e ela doze. Ele havia visto aquela criaturinha dizendo ser um menino, mas imediatamente se sentiu atraído: os traços finos, o olhar atrevido, a coragem... Havia algo de feminino naquele suposto rapazote, mas ao mesmo tempo, feminino, o olhar e atitude desassombrada de uma mulher adulta. Ao longo dos anos ele aprendeu a ver a vulnerabilidade e a fortaleza daquela moça, e a desejar estar com ela.

Sem ela, ele não teria evoluído tanto como mago e soldado, não teria ganhado dinheiro o suficiente para ser mais rico do que seu pai, e, se quisesse, escolher a moça mais bonita de Mudwater para se casar. Sem ela, Oliver Elton não existiria.

Ele a segurou pelos ombros, e puxou para si. A beijou, inseguro, temeroso de não estar agradando. Então sentiu que ela relaxou em seus braços, e que a boca hesitante, reagiu à dele, voraz. "Então ela se entrega ao prazer assim?" Ele beijou o pescoço dela... quantas vezes se imaginara fazendo aquilo? Ela se sentou no colo dele, e ofereceu os seios, que ele primeiro examinou, à meia luz: eles cabiam em suas mãos, como duas pêras, e ele podia abocanhá-los, e brincar com os bicos que, de planos, ficavam rijos e arrepiados sob sua língua. Ela estava magra, ele tinha de fazê-la se alimentar melhor, pensou.

A deitou e tirou as calças dos dois, e beijou os pés dela, ouvindo a risadinha baixa, tão conhecida, de tantos anos, dessa vez, cheia de prazer. Beijou as panturrilhas e as coxas cansadas e as abriu, mergulhando naquele mundo que ele tanto sonhou. Ela era amarga, salgada e doce ao mesmo tempo, o assaltando de sabores e texturas, e ele a queria explorar, mas, principalmente, que ela soubesse o quanto era desejada, querida, amada. 

Sem ter noção do tempo, em dedos e língua, a fez gozar, e sentiu seu rosto melado da umidade dela. Finalmente, se ergueu para ver o rosto tão adorado, e ela parecia ainda mais cheia desejo, esticando as mãos em direção à sua vara. Ele, timidamente, deixou que ela o tocasse: não era nenhum cavalo, era apenas mediano, bem sabia. Só que ela o acariciou e o sugou com uma proficiência que o assustou um pouco: não era apenas técnica, era vontade!

Quando ela pediu que a penetrasse, a insegurança novamente o abalou, ainda que por minutos. Ela o puxou para si, e o ajudou a meter, e, como quem calca as esporas em um cavalo, o puxou mais fundo para dentro de si. Ambos perderam o ar, e ele quase ejaculou depois de meter duas vezes com força, naquela buceta apertada, quente, molhada. Recuperou o fôlego e foi mais devagar e deliberado, saboreando cada metida, com a mulher rebolando sob ele.

"Tá gostando?" ele perguntou a ela.

"..." e sufocou um gemido Ela o fez ficar parado enquanto ela rebolava sob ele, e então ele sentiu o quanto ela o apertava e percebeu que ela estava gozando. Fê-la mudar de posição, de quatro, e o traseiro dela, de quadris largos, mas não volumosa, a cintura, as costas com os cabelos longos... ele afastou os cabelos dela, para que pudesse ver melhor o pescoço, e penetrou, fundo.

Ela se moveu para acomodá-lo, e implorou baixinho para que ele metesse e a enchesse de porra. Era mais do que ele podia suportar: ele começou lentamente, e, levado que demonio que habitava na pele dos dois, meteu até ejacular dentro dela, 

Os dois se deitaram suados na barraca, deixando o suor secar sobre os seus corpos, e recuperando o fôlego. Apenas nesse momento ele prestou atenção ao próprio braço: seu meridiano de mana brilhava levemente, quase como uma marca d´água sob a sua pele! Ela inteira tinha um certo viço, emanando do suor. Sim, ela era deliciosa na cama, como fêmea, e tinha um efeito inesperado sobre a mana e seu movimento.

Geralmente tão distante, e avessa à toque, Phillipa se sentiu realmente à vontade com Ollie. Era uma intimidade semelhante à que ela compartilhara em sua vida anterior com outros amantes.  "Você era tão magricelo aos dezoito anos... confesso que mais de uma vez que fiquei admirada como você conseguiu se tornar um tanque! Seu corpo tende ao delgado, então os ombros largos te salvam..." Pelo tom da voz, ele sabia que ela o estava elogiando, pois, além de falar, ela passeava as mãos sobre o corpo dele.

"Você podia ter me dito isso antes, né?" A sensação do corpo dela junto ao seu era um sonho, e ele acariciou as coxas dela, entrelaçadas com as dele.

"Pra quê? Você já tinha mulheres demais te elogiando!" 

"Não, não é verdade! Só depois de ficar mais forte e ter o que gastar!" as memórias das viagens até a mansão dos Poiret, no litoral, eram mais do que suficientes para que ele lembrasse que ele podia ser o cara mais interessante para as garotas de Mudwater, ou no máximo, para as garotas de Cassel - fora da muralha - mas ele ainda era um cara do interior, mediano e sem um grande nome. 

"Não seja tolo! Mulheres e homens tem exigências diferentes. Eu não atraio a atenção de ninguém."

"Você é tão inteligente e tão burra! Beleza é importante, é claro, mas isso aqui" e ele acariciou as coxas dela, "também é, e muito. Não tem fórmula. Muitos homens tem amantes feias, vão procurar putas que não são bonitas, e tem mulheres lindas em casa!" 

Ela subiu até o pescoço dele e começou a cheirá-lo e mordê-lo. " E eu começo a entender o velho: você é gostosa. Você fode bem e é gostosa. "

"Cala a boca e me fode, Sir Pervo!" e eles começaram novamente, a segunda vez, muito melhor do que a primeira.

*

Ollie se esgueirou para fora da tenda e acendeu o fogo, antes de todos, para fazer o café. Ambos estavam cansados e felizes pela noite, e ele nunca amaldiçoara tanto um amanhecer quanto aquele. Em breve, todos sairiam das suas barracas e começariam os afazeres: coletar água para beber e cozinhar, organizar as refeições, cuidar dos animais e limpar as armas, contabilizar os cristais e materiais coletados, patrulhar o entorno. Não poderiam ficar desperdiçando cristais, portanto, começariam a dormir em turnos de vigia no acampamento.

Uma noite de sonho. Seria isso e só isso o que teria? 

Do seu assento, avistou o outro lado do rio, que tinha subido um bocado de nível com o temporal. Por que razão nenhum animal ou monstro vagava por ali. No lado em que estavam eles mataram um bocado, porém, do outro lado, mal se viam animais ordinários. Isso era incomum.

Com os pelotões espalhados, e se encontrando em pontos determinados, o corpo de apoio da legião se movia muito mais rapidamente. Eles vinham conseguindo limpar bastante terreno, uma vez que até ali, era praticamente campina, onde há até uns dois anos grandes plantações de grãos e pastagens

"O que aconteceu?" Maurício, um dos nortenhos que os acompanhava perguntou, ao vê-lo encarando a outra margem do rio insistentemente.

"Nada. Isso é que me preocupa." Ollie tomou uma caneca de café quente e foi cuidar das armas. 

*

"Senhora, tem alguma idéia como vamos atravessar esse rio? A ponte está imprestável!" Francisco já tinha ido e voltado da ponte várias vezes, verificando a estrutura.

"Não sei. Pode ser que possa ser usada como base para os magos de terra. Magia espacial nessa capacidade demanda portal, ou alguma instabilidade poderia colocar todos em risco. Provavelmente Donovan e os dele tem mais experiência do que nós."

O acampamento, localizado numa rocha que eles erguiram da terra parecia até bem confortável. Ao longe ela viu um dos rapazes trazendo de volta os cavalos que ele tinha levado para um pasto mais farto, e os dois caçadores, Jayce e Joy, trazendo um saco de essências de monstros menores, que haviam passado a tarde caçando.

"Quando os abutres chegarão?" perguntaram a Ollie.

"Pela quantidade de carcaças que deixamos, deveria demorar mais uns dois dias, mas Sir Ren vem liderando o grupo" ele respondeu pensativo, lembrando do cavaleiro do sul, e em como ele era bizarramente eficiente e brutal, em contraste com sua aparência tranquila. "No máximo amanhã de manhã eles chegam."

"Ah, vamos preparar um rancho bom para eles!" os outros rapazes se uniram à tarefa de juntar os alimentos. Havia uma certa vaidade daquele grupo, de encontrar os abutres, sempre cansados e famintos, com comida farta. De maneira geral os Onze de Cassel eram vistos com suspeita por boa parte dos capitães, como um bando de caçadores, não melhores do que aventureiros. Demonstrar eficiência e fartura era uma forma de dizer que eles eram uma elite em comparação ao resto da legião.

Phillipa não sabia dizer quando eles começaram com essas atitudes, mas não as reprimiu, pois, se aquilo unia a equipe, era ótimo para que tivessem um desempenho cada vez melhor.

O tempo continuava tempestuoso, com pancadas de chuva intensas, e o céu cinza chumbo, fazendo com que o dia ficasse com um clima tenso.

Naquela noite, Oliver e Phillipa dividiram o leito, ela podendo encontrar nos carinhos e no corpo dele, o conforto que não achava do esposo, porém, sabendo da chegada dos outros soldados, ele foi instado a deixar a tenda da dama mais cedo, acordando ao lado de um homem fedido e com bafo alcoólico.

A medida tinha sido sábia, ele considerou, ao ver os Abutres liderados por Sir Ren se aproximando, logo no início da manhã. "Esse doido forçou os outros a trabalhar dia e noite?", pensou, já sabendo a resposta: sim. Os que trabalhavam sob Reinfeld sabiam que ele não permitia que acampassem, que eles teriam de viver em constante tensão e com intenso trabalho braçal até terminarem de cobrir o território. O cavaleiro nunca demonstrava cansaço, e sua natureza reservada com a maioria das pessoas, lhe granjeou uma reputação quase sinistra, pois mais de um legionário morreu acompanhando suas campanhas.

A visão das carroças, o pelotão de homens armados, e, principalmente do cavaleiro em sua armadura de couro de orc, leve e flexível, um chapéu de abas largas protegendo o seu rosto, marchando à frente do grupo, não significava que a coluna da Legião chegaria no dia seguinte, mas sim que as duas noites de sonho haviam se encerrado.

Reinfeld trouxera carroças grandes e pesadas com couro, pele, ossos, dentes, órgãos internos preservados em jarros, olhos, e outras partes que não cheiravam nada bem, e que precisavam ser tratadas com urgência para melhor conservação. Acampar com os Onze seria excelente para ambos os lados, pois poderiam se proteger enquanto faziam o árduo trabalho de preservar os valiosos espólios que carregavam.

Assim que desmontou, cumprimentou os outros homens e se dirigiu à tenda da Senhora, onde se apresentou.

Imundo, suado, com a barba já se anunciando no rosto atraente, porém não exuberante, Ren ainda assim se destacava, pois, era mais baixo apenas que o senhor Grão Duque, e de ombros largos, musculatura mais pesada, compatível com a de um homem de trinta anos, ao invés do moleque, que suou arduamente para ganhar massa e se tornar um tank.

Ollie era um vanguarda apenas para um grupo de caçadores, sabia bem que não poderia se comparar aos grandes tomadores de dano, e, Reinfeld, mesmo sendo um mago de vento, a pior das especialidades, era considerado um cavaleiro completo, robusto o suficiente para receber dano, e habilidoso para desferir dano.

Como cavaleiro pessoal de Phillipa, Oliver o acompanhou, e viu o homem descer a um joelho e saudá-la. "Como ele não tem um nariz quebrado, uma cicatriz no rosto, nada!", pensou, afinal, Lipa tinha suas cicatrizes, já que sempre treinou com rapazes.

"Encontraram muitos monstros em torno das carcaças?" ela perguntou, estendendo ao recém chegado uma caneca de chá gelado.

"Confesso que o seu grupo matou bastante, ainda assim, achamos muitos monstros e bestas carniceiras: nada que não pudéssemos dar conta." Sir Ren se sentou do lado de fora da tenda, suas pernas e braços longos relaxados. Ele soltou o colete de couro de orc, e deixou a pele respirar.

Fora o cheiro do sangue das feras, o homem não exalava nenhum odor desagradável, era o oposto.

"Ren, meu querido, você marcha com tanta intensidade que qualquer hora matará de exaustão outro subordinado..." a advertência da Duquesa era sincera.

"Não vejo virtude em uma marcha lenta e tranquila, quando podemos nos esforçar, e estar aqui mais cedo." - Aquilo era um beicinho adolescente? pensou Oliver, ao ouvir a reclamação do homem.

"Vão descansar um pouco, tomar banho, trocar de roupas. Oliver, peça aos rapazes para assumirem um pouco o trabalho de conservação dos espólios: nossos companheiros estão exaustos e nós estamos mais descansados." 

Os dois homens se afastaram da tenda da senhora, caminhando juntos. 

"Sir Ren, nós separamos uma área para vocês: erguemos o terreno, pois tem chovido bastante. Acho que podemos ajudar a montar o acampamento de vocês." Não havia uma diferença de idade abissal entre os dois, no entanto Oliver se sentia uma criança, comparada a alguns dos cavaleiros da Casa Sterling.

"Meu grupo é todo de magos, Elton, montamos o acampamento rapidamente. Mas... agradeço uma ajuda com a comida e o cuidado com os animais. Só preciso que alguém libere meu mago de água, para ele descansar. Refrigerar essas carcaças todas não foi fácil." e deu um tapinha nos ombros do rapaz.

Só que o tapinha leve se converteu em um apertão no ombro, e o olhar tranquilo e sereno de Ren turvou-se por alguns segundos, transbordando sentimentos de raiva que o jovem nunca havia visto. Rapidamente o cavaleiro mais velho se recompôs e foi se banhar no canto que eles haviam separado para isso à margem do rio.



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