Guerras Arcanas, capítulos 28 -30
Capítulo 28
Os outros pelotões de abutres e batedores chegaram nos dias que se seguiram, até que a legião apareceu na estrada, com o ruído característico de cascos de animais e pés de seres humanos, de metal e madeira, de relinchos e zurros, de gente gritando e conversando.
Ao lado de Ren, Phillipa observada o outro lado do rio, pensativa. "Ren, o que os batedores disseram?"
"Nenhum animal ou besta se aproximou da outra margem, senhora". O cavaleiro respondeu, com sua voz calma, um barítono aveludado e quente.
"Isso não está certo. Ainda que muitos monstros não sejam estúpidos de se aproximar de nós, todos precisam de água. Água de chuva não dá conta de saciar animais grandes ou manadas." A jovem torcia as mãos. "Você provavelmente pensa o mesmo que eu, não é?"
"Provavelmente há ali, um predador maior ou mais perigoso. Concordo que será preciso cautela." Ele podia farejar algo diferente no vento, porém não seria tolo de explicar isso a ninguém.
As carroças e pelotões se distribuíram aos poucos pela campina, e eles identificaram o grupo que escoltava o Grão Duque, com o brasão do corvo de três cabeças estampado no estandarte. Donovan montava seu cavalo, igualmente enorme, e se destacou dos companheiros, se dirigindo à esposa.
Ele parecia mais magro e abatido, a enorme figura um pouco mais envelhecida, talvez. O rosto barbado, os olhos verdes um pouco opacos. Imediatamente ela soube que ele precisava descansar, e não poderia esperar pela montagem de sua tenda. Sinalizou com a cabeça a Reinfeld, que se retirou: era hora de chamar escudeiros e valetes, para preparar banho e roupas para o Senhor do Ninho dos Corvos.
Na azáfama, esbarrou com Ollie, cujo olhar se encompridou para os alojamentos da Senhora. Por alguns instantes ele quase se solidarizou à dor do rapaz, uma vez que ambos desejavam a mulher do Grão Duque, ambos partilharam do leito dela, e nenhum dos dois poderia reclamar qualquer posse, qualquer tipo de direito ou afeto, além do que receberam.
A legião começava a se amontoar na margem do rio, próxima a uma ponte caída. Era o ponto ideal de passagem, onde os magos se dedicariam poucos dias a reconstruir, a custa de muita mana, o que muitos homens construíram a custa de muito suor, engenharia natural e, quem sabe, suas próprias vidas.
Parte das fundações ainda estavam firmes no leito do rio, o trabalho não seria tão difícil, ela pensou. Enquanto isso, Donovan recuperava uma aparência mais gentil, e era servido uma refeição quente.
"Pelo jeito, eles só terminarão a sua tenda amanhã...", ela comentou.
"Aqui é apertado, mas dá para eu me acomodar com você. Venha, deixa eu te olhar direito." ele soltou os cabelos dela. "Faz tempo que eu não vejo a minha mulher."
Ela se deixou tocar, se deixou despir, se deixou ser beijada pelo homem. A cicatriz da maldição no flanco do marido parecia pulsar, como um segundo coração, e ela a acariciou. Donovan gemeu, como um gato bocejando, um gato grande, um tigre ronronando, e a penetrou, e a cada metida, ele retirava dela um bocado de mana.
A pele dele não tinha a elasticidade e o lustre da pele de Paul ou de Oliver, na verdade era como um couro curtido, com uma aparência rude e toque áspero. Ela passeou os dedos sobre o braço dele, que pesava como uma árvore caída sobre seu corpo, e foi afastando-o um pouco.
"Eu vou cortar um pouco essa merda de cabelo! Grande demais!", ela pensou, passando a mão pelos cabelos fartos e compridos, que lhe iam pela metade das costas. Examinou a maldição, agora silenciosa, no flanco do esposo, e se quedou pensativa... energia escura ou mana de sombras era o ideal para maldições como aquela, no entanto, aquela coisa tinha três camadas.
Em breve crusariam o rio e aquilo marcava pouco mais da metade da longa jornada até a fenda.
Enrolada em um robe fino, ela se pôs a escrever para o irmão e para os enteados: havia muito o que planejar, se ela quisesse ficar realmente livre após o termo do contrato de casamento.
Capítulo 29
"Duquesa! Duquesa! Encontramos!" gritou o jovem escudeiro para ela. O rapaz gesticulava agitado enquanto seu mestre içava das profundezas do rio, as últimas rochas para reconstruir o pilar rompido. Sterling e Sir Reinfeld estavam à beira do rio, com água pelos joelhos, cercados de magos.
Em poucos dias eles completariam a reconstrução da estrada para Amêndoa Dourada.
"Bom ver a senhora sorrir, Dona Phillipa", Oliver apontou, o olhar um tanto nostálgico, para o rosto dela. Eles se viam todos os dias, mas era como se estivessem a reinos de distância, graças à presença do Grão Duque. "Mas a senhora ainda está desconfiada, com relação à outra margem, não é?"
"E não é para estar?" Ela não era uma guerreira, era apenas maga, e uma caçadora de monstros. Aquilo não tinha lógica, só que as pessoas somente pareciam a ouvir quando autorizados pelo grande lorde do sul.
Após alguns dias, Sterling estava saudável novamente. Seu mago e seu clérigo pessoal comentavam o seu lorde parecia revigorado.
Phillipa sabia o quanto de mana ela dividia com ele, mesmo quando ele não a tomava.
Nos últimos dias, ele havia designado Ren para o esquadrão dela. Alguém havia mencionado sua intimidade com seus caçadores. Nunca imaginara seu marido um homem ciumento, até por ele raramente demonstrar carinho ou ternura por ela.
"Ah, se casamentos arranjados fossem como os de novelas baratas! Eu queria ao menos ser amiga do meu esposo, mas para ele, amizade real é algo restrito aos homens. Bom a verdade é que não existe amizade entre homens e mulheres, se a mulher não for absolutamente repulsiva, o homem sempre nutrirá a possibilidade de levá-la a cama!", ela murmurou, sem passar despercibida pelo seu cavaleiro.
Ollie deu uma risadinha baixa, tentando ser educado. "É, senhora, eu até gostaria de protestar, mas... é assim mesmo, para todos nós. Os que negarem são apenas falsos."
"Gosto da sua honestidade, Sir Elton. Não que ela te faça melhor do que os outros homens..."
Ele esboçou um beicinho, como que ofendido, mas logo sorriu, o mesmo jeito expansivo e brincalhão de sempre. Ambos caminharam para a área dos ferreiros, que estavam ocupados atendendo aos cavalariços, e outros, mais especializados, realizando reparos em armas. Os armeiros, uma especialidade tanto mágica quanto de metalurgia, eram um grupo de elite daquele meio.
Os dois ziguezagueavam pelo imenso acampamento, quase como um pequeno povoado ambulante, e enfim, chegaram aos fornos dos armeiros. Ela precisava acompanhar os novos arcos, e os rifles de munição mágica, carregados de mana de monstros de baixo nível, refinadas. Seu esquadrão seria um dos primeiros a partir em patrulha adiantada, uma vez que a ponte estivesse pronta.
José Castilho, natural de Fazenda dos Touros, era o armeiro da expedição. Um homem de estatura mediana, de pele clara, olhos e cabelos castanhos, e um tanto corpulento. Suas mãos, entretanto, manejavam as menores peças com agilidade e delicadeza, sob seu olhar atento por trás de óculos de aros metálicos escuros.
O rosto do armeiro traiu o desconforto dele com a presença da jovem Duquesa, afinal, durante as pausas todos pareciam correr aos ferreiros para reparar suas armas, mas a dama não apenas quis ter o pequeno arsenal do seu esquadrão particular consertado, mas também aperfeiçoado e acrescentou detalhes. Sua pioridade era para os que sairiam em patrulha assim que a ponte fosse aberta, ele pensou, e a duquesa vai sempre à frente do esposo. "Essa mocinha mal fica com a legião, ela vem, descansa, e sai com os seus a trucidar monstros!", por outro lado, os cristais de mana de fogo, que ela mesma havia caçado, naquele momento sustentavam as fornalhas que, outrossim, teriam de depender de carvão ou da mana dos ferreiros. A maldita ainda providenciou os círculos mágicos de controle para ele!
"Que se dane os cavaleiros então, vamos à facas, pontas de setas, rifles de caça, e a essa munição enriquecida." ele resmungava, enquanto separava, caixas e caixas do material precioso. "Que o Duque não me pegue fazendo isso!"
"Então teremos a nossa munição completa pronta antes de partirmos? Fico feliz, Don José! Podes ter certeza que, se eu vir algo de seu interesse privado, eu separarei para o senhor."
"Não precisa se importar com isso, minha Senhora, esse é o meu trabalho..." ele coçou o queixo barbado.
"Não estou me preocupando, afinal, sendo bom para você e para todos nós, é apenas natural!" E ela cochichou algo para seu cavaleiro. "Meus rapazes virão buscar o que já está pronto mais tarde."
"Entendido. Tenha uma boa tarde, Sua Graça!"
"Os novos arcos curvos ficaram bons, e será mais fácil colocar a corda nova, caso seja preciso trocar com rapidez." Oliver Elton a ouvia planejando a expedição do esquadrão, como quem ouve música.
Observaram o acampamento dos aventureiros que se juntaram à legião, suas roupas estranhas, e seu modo de treinamento brutal. Aqueles haviam sobrevivido ao embate com o Grão Duque, e preferiram aderir a campanha, em troca de uma boa posição no norte, dessa vez, de maneira legal.
Havia o roupeiro e o sapateiro, que consertavam os calçados dos legionários, e providenciavam reparos mais complexos nas vestimentas. Sim, pois agora usavam vestimentas feitas de materiais diversos, mágicos e não mágicos. Couro de diferentes espécies, escamas de metal e de ossos de monstros, pelos de monstros trançados, ou usados para compor fórmulas que impermeabilizavam as vestes necessariamente mais leves que precisavam usar, naquele clima mais quente.
Mais um ano sem ver a geada, para os que vieram da Garganta, mais um inverno sem neve. Apenas chuva, um sol mais ameno, e mal se imaginaria que era inverno no extremo sul.
Quando voltaram à beira do rio, o grupo de magos, exausto, havia conseguido restaurar todos os pilares e vigas de sustentação da ponte de pedra. No dia seguinte, moldariam a pista, cobrindo os buracos, e essa era parte mais rápida. O rio não era largo, porém, a correnteza forte atrapalhou o trabalho de conserto. Agora o trabalho era todo acima da correnteza.
Era a essa a fonte de agitação no acampamento: a perpectiva de que se moveriam novamente depois de um mês e meio parados, descansando, recuperando equipamentos, animais, e acalmando a mente dos homens, que vinham há mais de um ano na estrada.
Phillipa não esperaria a conclusão da ponte. Estava se preparando para partir antes. Sua proficiência em magia espacial era tanta que podia transportar todo o seu esquadrão para o outro lado, com os equipamentos, sem a necessidade de portal.
Depois de discutirem acaloradamente por alguns dias, concluíram que eram precisos esquadrões de patrulheiros experientes para compreender o silêncio do outro lado. O único esquadrão com mobilidade imediata era o dela.
Foi para a sua tenda, a que agora dividia com seu esposo, que fazia questão de tê-la na cama todas as noites, e tomou um banho, lavou os longos cabelos, se cuidou ao máximo, e depois começou a separar as suas roupas e equipamentos mais íntimos de patrulha: o principal, Ollie e os rapazes arrumava para ela.
Em cada pequena vila ou fazenda abandonada, ou onde algum grupo humano tinha permanecido, eles deixaram postes, com discos de comunicação, combinando magia espacial e elemental de ar. Assim, não era preciso um grande dispêndio de mana para se comunicar com os castelos de Cassel, ou com o ninho dos Corvos. Com as coordenadas certas, podiam projetar a magia para qualquer lugar.
Ela se sentou na cama e abriu a caixa com o disco de comunicação, com as coordenadas de Cassel e imbuiu seu mana. Demorou alguns minutos, mas a imagem de Paul, surgiu diante dela, pequena, em três dimensões, em preto e branco. A voz, por outro lado, não apresentava distorções significativas.
"Oi, meu irmão! Como está você e meu pai? E sua esposa?" ela perguntou, enrolada no seu roupão.
"Está sozinha? Estamos bem. Melhor agora que estou falando com você. Geralmente falo com seu marido ou outro assecla dele."
"É que eu fico caçando adiante da legião, então não consigo ter tempo para mim."
"Cheguei a pensar que você não queria falar comigo." Paul fez uma pausa. Passou a mão sobre os cabelos, e apertou os lábios... ela sabia que ele tinha algo a contar. "Phillipa, Lelia está grávida,"
"Que bom, meu irmão, agora você poderá ter o seu primeiro filho ou filha, cumprir sua obrigação de dar continuidade da Casa Cassel. Não precisa esconder sua felicidade de mim."
"Mas eu não estou feliz!" A imagem de Paul tremeu, e ela o viu passar a mão nos cabelos, o hábito charmoso que ele tinha, quando ficava irritado ou ansioso. "Até hoje eu nunca havia pensado seriamente nisso, essa obrigação de dar herdeiros à casa, menos ainda com a Lelia."
"Vou fingir que eu acredito que você é um tolo, pronto. Ainda assim, parabéns, e espero conhecer a criança!"
"E quanto à nós dois?"
"Nós somos irmãos, nada mudará isso, Paul. Você vem em primeiro lugar para mim, e eu espero vir em primeiro lugar para você, é claro, depois de seus filho ou filha. Pois nós, que compartilhamos sangue, temos uma história juntos."
"Eu pretendo te encontrar em Amêndoa Dourada"
"Só faça isso se a colheita tiver sido muito boa no planalto, se o nosso portal tiver dando lucro, já competindo com Ília, para trazer alívio para a legião e para os que ficaram para trás. Precisarão de sementes para plantio, procure o barão de Amêndoa Dourada que ele te ajufará, e será importante ele voltar a terra."
Um outro vulto apareceu no círculo, um homem, parecido com seu irmão.
"Oi, sou eu, seu pai, Marcus. Dennis lhe entregou os diários, não entregou, Lipa?" o tom distante permanecia o mesmo.
"Sim, recebi, e já os li. Quanto montarmos o novo portal, o senhor poderá tê-los de volta."
"Então a teoria de Clermont estava certa:você conseguiria abrir o selo com facilidade... porque tem a magia de sua mãe!"
"Não apenas isso, mas também a de meu pai verdadeiro," Ela acrescentou baixinho.
"Como?" Marcus se sentou e indicou a porta para o filho, empurrando-o para fora.
"O senhor se lembra do seu pai como um homem de meia idade, quase velho, não é, meu pai Marcus?"
"Sim, algo assim."
"Meu avô se dedicou a lutar pela terra, para manter o castelo, para defender os lordes que não enviavam filhas ao harém, e acabou perdendo a idade ideal para se casar, Seu irmão mais jovem, se apressou a se casar com a filha do barão de Ília, que havia entregue a filha mais velha ao rei." Seu tom era monótono, ela vinha praticando esse resumo fazia alguns dias.
"Enfim, vovô se apaixonou por uma mulher alta, de cabelos e olhos pretos, em Ponta de Areia, quando em viagem de lazer, para apresentar o irmão aos bailes de debutantes, Ele já tinha quase quarenta anos, pois era filho do primeiro casamento, e conheceu uma mulher estranha, alta, de cabelos e olhos pretos, pele trigueira, que ele considerava bonita, e que vivia na favela à beira mar. A mulher era muito culta e ganhava dinheiro dando aulas particulares para as crianças ricas das cidade. Nosso avô Grigori a perseguiu, até que conquistou o coração dela, e levou para Cassel. Nossa bisavó pegou o filho mais novo e levou para casar com Helena Ília."
"Eu não cheguei a conhecer a minha avó"... Marcus coçou o queixo, pensativo.
"E nosso avô ficou muito feliz com a esposa estranha dele. Até que ela engravidou, e coisas começaram a acontecer. Para proteger a criança, a Cassel, ao esposo, minha avô fez algo trágico e sumiu. Meu avô jamais a esqueceu. Passou um tempo solteiro, mas acabou sendo induzido por outros a casar com a babá da minha mãe, que eventualmente deu luz ao senhor, Marcus Cassel. Minha mãe fugiu de casa em virtude de maus tratos da madrasta, apesar de saber que o pai a queria como Condessa, que se danasse a tradição." Phillipa fez uma pausa, respirando fundo. A leitura dos diários havia feito com que ela repensasse o seu papel e a sua posição.
" Minha mãe voltou comigo no bucho depois de anos, e essa é uma história, que será melhor você mesmo ler, quando receber o livro destrancado." coçou o nariz e continuou. "Sabe pai, ainda tenho de estudar a história dos Maximus para tentar saber qual deles... E veja a coincidência, estou casada com um deles agora."
"Você tem sangue real?" Marcus parecia incrédulo.
"De acordo com as anotações de mamãe, sim. E por isso ela fugiu da capital e voltou para casa"
Marcos começou e compreender a frieza do pai com relação a ele. Grigory Cassel amou muito a mãe de Mia, e ao que parecia, não havia sido abandonado, como sua mãe lhe contou, mas sim vitima de uma tragèdia. Mia e Philippa pareciam um pouco com o Patriarca dos Cassel, mas também com uma única pintura de um rosto de mulher, dentro de um relógio do homem, os mesmos cabelos escuros, a pele pálida, que se transformava em oliva sob o sol, os olhos muito pretos e os cabelos feitos de noite sem lua, ondulados, mulheres de estatura mediana, para altas, de ombros retos, porte quase marcial, rostos angulosos, finos, patrícios.
"Talvez o senhor tenha uma vida amorosa melhor do que a do seu pai e de sua irmã, meu pai Marcus. E será certo, que Paul também seja mais feliz."
Os dois ficaram em um silêncio constrangido, ambos uma pequena imagem holográfica em preto e branco, diante um do outro.
"Combinei com Dennis de segurar o fluxo de pedras, para não deixar o preço cair, ok? Somos os grandes fornecedores. Mesmo que a expedição do príncipe coloque uma enxurrada de material no mercado, o melhor é ir segurando, e desenvolver produtos mágicos, semi-mágicos, e não mágicos." Ela resolveu quebrar o silêncio, mudando de assunto.
"Você está me saindo muito madura. Temo que o Grão Duque não queira se apartar de ti."
"Essa opção seria apenas se eu engravidasse, e eu não fui punida com um fruto no meu ventre!"
"És seca, minha filha?", perguntou, preocupado.
"Que eu saiba não, muito pelo contrário! Eu previno gestações, tomo garrafadas, faço lavagens, e já até forcei descer, quando atrasou um pouco. Páre com isso, pai! Eu só não quero ficar com esse homem! Quero a compensação e a liberdade!", nada a irritava mais do que conversa de filho. "Bom, preciso falar com Adriel, saber como estão os contatos no sul. Um abraço afetuoso para o senhor, para o Paul e para a bá"
Ela esperou um pouco, pegou mais um pouco de chá de maçã com canela, e aguardou: O rosto amistoso de um jovem de idade semelhante à dela surgiu. Imberbe, apesar de anguloso, o rosto de Adriel Sterling parecia delicado, feminil, ou então bem mais jovem do que seus vinte anos. Os cabelos lisos, louros dourados, penteados para trás, teimavam em deixar uma mecha cair, como uma espécie de franja rebelde. Ele usava óculos de aros redondos, e não chegava a atrapalhar a expressividade.
"Minha querida madrasta. Como é bom ter notícias de você e de meu pai! Onde está ele?" o sotaque sulista dele era mais suave do que o de Sterling, indicando mais contato com as pessoas da região central.
"Que bom lhe ver também, meu querido enteado. Ele se encontra com água pela cintura, dentro do rio, ajudando a terminar de levantar as vigas e pilares, para que terminemos a ponte em, no máximo, uns quatro dias."
"E a senhora?"
"Eu atravesso amanhã de manhã, com meu esquadrão. Vamos começar a patrulhar." ela sorriu para o rapaz de sua idade como se realmente fosse bem mais velha. "Me conte, como foi a temporada de outono e as preparações para o inverno!".
"Ah, o país está todo em guerra contra monstros, não é? Então a movimentação está meio reduzida. Ainda assim, Stefan, meus tios e primos, conseguiram estabilizar a região e tivemos festivais, e boa colheita. Eu devo ir à Áurea Lux, me encontrar com algumas empresas comerciais. Seu irmão me encontrará lá e iremos juntos."
"Que bom! Que emocionante! Como eu queria poder ir com vocês" ela se pegou sorrindo, batendo palmas como uma criança.
"Só lembrem da questão de manter uma relativa escassez, e de procurar, engenheiros não mágicos, e criadores de produtos, mágicos ou não, para trabalhar para nós. Vender material bruto é vender barato. SE nós mesmos fizermos os produtos, nós ganhamos muito mais," ouviu ruído de passos do lado de fora e sabia que era o esposo. "Seu pai está voltando, quer falar com ele?"
"Nâo precisa, ele deve estar cansado. Foi bom conversar, minha madrasta,"
O Grão Duque chegou a ouvir a voz do seu caçula se despedindo.
"Ta vendo, mulher, já somos uma família." O homem entrou e tirou as botas enlameadas, e se enfiou na banheira, que ainda tinha água que a esposa havia usado, para tirar o grosso do suor e da lama do corpo. "Adriel não presta para nada em caça ou batalha, mas é um jovem inteligente e esperto. Ele será um grande suporte para o irmão."
"Sim, ele me parece também muito gentil." ela arrumou os papéis e fechou a caixa com o disco de comunicação. "Ele tem se dado muito bem com Paul."
Donovan a olhou de soslaio. Claro que ele ficava feliz dela se entender com seus filhos, mas não ficava confortável com essa proximidade toda com o mais novo, talvez por não esquecer que um dia ele pensou em casá-la com ele. "Ridículo! Adriel é só um rapazote!" ele pensou, tentando afastar da mente a imagem dos dois conversando. Os dois tinham a mesma idade e temperamentos parecidos, um tanto introvertidos, só que Adriel era mais... doce?
Quem iria imaginar uma criatura tão... urbana, como Adriel, ao lado de uma moça tão... rude, como Phillipa? Ela se aproximou dele e o ajudou a se lavar, ensaboado os cabelos dele. Ao final, jogou água limpa sobre ele, e lhe entregou uma toalha.
Limpo e cheiroso, a puxou para a cama e a tomou, ciente de que não a teria nos braços por umas boas semanas.
Capítulo 30
O dia amanheceu fresco, e um pouco nublado, porém firme. O esquadrão e seu suporte, suas mulas e cavalos, caçadores e escudeiros, se alinharam na margem do rio, em paralelo à ponte em construção, e aguardaram pela jovem Duquesa Sterling, que para eles, era a Raposa de Cassel.
Magia espacial era uma das prediletas de Phillipa. Ela usava poucos círculos ou qualquer apoio material: era como se fosse uma extensão dos extremos de emoções que ela tinha em si mesma. Seus portais não eram de uma escuridão profunda, como os imperiais, mas sim, em gradientes de laranja até o preto, com azuis, púrpura, lilás, vermelho, em manchas minúsculas, verdareiros fractais. Ela podia cortar corpos e objetos ao meio, simplesmente abrindo e fechando um portal em alta velocidade, podia abrir vários portais em locais diferentes em frações de segundo, e era algo orgânico, que fazia com pouco esforço. Naquele dia, ela abriria um caminho para seu esquadrão atravessar o rio, algo que levaria poucos minutos, na verdade, e eles cobririam pouco mais de três kilômetros. Vinte pessoas, montarias e carga.
O portal se abriu ao seu lado e imediatamente do outro. De frente para ele., já era possível ver a campina verde. Dois a dois, marcharam, e a dama passou por último, fechando o portal, que ronronou como um gato manso, durante o processo, obediente e gentil.
Se não fosse a praga de monstros, dali até a fronteira com o deserto, seria uma marcha de, aproximadamente, trinta dias, um pouco mais, com as pausas para descanso. No entanto, com as caçadas esse tempo poderia se estender indefinidamente se não traçassem objetivos claros. Chegar a Amêndoa Dourada significava estar na reta final e ela mal podia esperar.
Eles calcaram as esporas nos flancos dos cavalos e seguiram em frente, buscando o local da próxima base de caça. Marcharam por horas, até o sol se por, parando para que as montarias descansassem um pouco e bebessem água. Já distantes o suficiente para que a margem do rio não fosse visível nem pela luneta, e com o sol se ponto, avistaram uma formação rochosa singular em meio à campina, grandes placas rochosas em meio a terra, em níveis um pouco acima do chão, e num patamar um pouco mais alto, uma rocha oval de uns seis metros de altura por quatro de largura, equilibrada caprichosamente sobre a uma de suas faces menores, quase como um ovo repousado sobre a planície, em meio a placas de rocha, cujas concavidades coletavam água das chuvas.
Fizeram seu acampamento ali, em meio às rochas. Enquanto Phillipa purificava a água das bacias rochosas, os rapazes montavam as tendas, que eram apenas uma lona para protegê-los do vento, dois a dois, três, a três, com face aberta virada para a fogueira que alimentavam em turnos, vigiando o perímetro e os animais.
A comida era um caldo grosso, de vegetais e carne seca, alguns grãos e temperos, tudo muito rústico, que visava fornecer mais calorias do que sabor. Apesar de ser a única mulher, Phillipa dormiu ao lado de Ollie, e chamou Ren para se revesar com o rapaz. Ali era tudo tão aberto que não havia como fazer nada de suspeito.
Ren e Phillipa ficaram de vigia primeiro, e aproveitaram para ler os mapas, tentando localizar a fonte de água limpa mais próxima, onde firmariam o acampamento seguinte. A lua minguava no céu, permitindo que as estrelas brilhassem com mais nitidez, e, quase como uma segunda lua, Atlas, o planeta mais próximo, depois de Gaia, brilhava em tons de púrpura.
Atlas era capaz de suportar vida humana... em algum nível! Não como Gaia, é claro, mas ainda assim... "Chega de pensar tolices!" ela pensou e voltou a se preocupar com seu futuro a médio prazo. De certa maneira, ela se sentia comprando uma carta de manumissão para longe de Cassel, para poder viver nas cidades onde havia iluminação não mágica nas ruas, e bondes, e trens. Ela queria poder ver os navios mais modernos, e as coisas mais novas, e sair da região agrária e de fronteira.
No Reino de Póllux a diferença entre os grandes centros urbanos e as cidades periféricas era brutal. Áurea Lux, Fazenda dos Touros, Chancy... eram cidades infinitamente mais avançadas tecnologicamente do que o resto do país. As cidades fundadas pelas Casas Maximus, Miura e Clermont.
Ainda não existiam carros, e a magia era muito importante, porém ela queria se misturar às pessoas comuns e aproveitar o privilégio do dinheiro que estava ganhando. Nesse mundo ultra patriarcal ela haveria de cavar um lugar para si.
Trocaram de turno com Jayce e Joyce e se recolheram, se deitando junto a Oliver, que roncava debaixo de sua manta. Ninguém havia se lavado, ou trocado de roupas, mal haviam cuidado dos pés! Ela dormia mal nesses acampamentos de caça, na verdade, ela sempre dormiu mal, e essa vida da estrada era péssima para a saúde dela. Entretanto, se ela conseguisse se ver livre...
Ren se virou para ela e jogou uma de suas pernas sobre o seu corpo, como se ela fosse um travesseiro. Atrás de si, Ollie dormia pesado, de barriga pra cima, roncando. Nada é menos romântico do que a rotina, do que um saber que o outro está defecando num buraco atrás de um arbusto...
Lipa odiava dormir com outras pessoas, mas essa era a vida de caçadores, especialmente quando eles poderiam se tornar a caça. Ainda assim não conseguia deixar de estudar o rosto do cavaleiro. Um homem bonito, de maneira discreta e suave, que não chamava atenção para si. Apesar da noite ter esfriado, o calor da fogueira e dos corpos juntos não era totalmente desagradável, e ela se pegou sonolenta.
Subitamente o chão começou a tremer sob eles. Não como um terremoto, onde tudo parece perder a estabilidade e o centro de equilíbrio das pessoas desaparece por alguns segundos, mas sim como se um trem passasse por baixo deles, algo sólido simplesmente estivesse abrindo caminho sob a terra, e eles estivessem sobre o seu trajeto.
Talvez os humanos tivessem sido os últimos a perceber, uma vez que os animais já estivessem agitados, os vigias acordando os outros para ajudá-los a conter os cavalos e mulas, que não paravam quietos.
Phillipa se levantou, e os seus dois parceiros de tenda a seguiram, alertas. Os magos de terra e ar, buscando sentir o ambiente ao redor, quando um dos cavalos deu um pinote, e puderam ver uma bocarra se abrir sob ele!
O cavalo correu ligeiro, porém na noite e à luz da fogueira era difícil enxergar direito.Todos estavam apavorados.
"Levem os animais para cima das pedras!! Ren ordenou, com mais presença de espírito do que todo mundo. E ficaram separados, nas pequenas ilhas rochosas, enquanto a terra tremia o redor.
Ao lado de Ren e Oliver, ela ficou numa rocha relativamente pequena, onde os três mal conseguiam se sentar. O cheiro de terra revirada subia, misturado a lama e estrume.
"Isso parece ser um verme..." Ren murmurou.
"Uma minhoca?" a voz de Ollie soou um pouco fina de surpresa e medo. Sim, medo, pois aquela criatura havia ficado silenciosa o dia inteiro. Aliás, eles marcharam o dia inteiro sem ter visto qualquer ser vivo. Como Lipa tinha observado, há dias não se avistava nenhum animal ou monstro daquele lado do rio, e lá estavam eles, como caça, ao invés de caçadores.
"Será que a luz o espanta?" ela lançou uma esfera de luz em meio ao acampamento, bem a tempo de verem o verme se esgueirando em direção a um dos escudeiros que pelejava para acalmar um cavalo.
O bicharoco era como um verme gigantesco, que conseguia engolir homem e cavalo inteiros, a boca cheia de dentes, e a pele com uma aparência de couro. Se movia mais silenciosamente do que se imaginaria, para um monstro daquele tamanho, e não se intimidou com a luz.
Os homens dispararam alguns tiros de carabina, que assustaram um pouco o verme, o qual, outrossim, não pareceu ferido, e se enfiou novamente sob a terra.
A fogueira se apagou e o acampamento mergulhou na noite. Os animais pisoteavam as pedras, agitados, os homens gritavam uns com os outros, assustados. Sobre sua plataforma de pedra, Phillipa tremia, o coração acelerado, a pele grudenta de suor, um suor gelado. Ela ignorava os dois homens ao seu lado, sentindo-se desamparada. "Pedir ajuda a algum deles? Todos parecem tão ou mais apavorados do que eu!", ela pensou consigo mesma.
A terra tremia sob eles com mais intensidade, agitando mais ainda os animais. Um dos cavalos se soltou e saiu dando pinotes. O ruído de ossos se quebrando, junto aos relinchos sofridos do animal indicavam que ele havia sido pego pelo monstro.
"Ao menos sabemos que essa coisa pode ser bem rápida, não é?" ela murmurou. Oliver segurou a mão dela. As mãos dele também estavam suadas, porém estava claro que ele buscava uma coragem que não tinha, buscava parecer forte e capaz, certamente mais capaz e mais forte do que o Grão Duque. A escuridão ocultou o sorriso amargo no rosto de Phillipa: quantas vezes ela vira homens salvarem mulheres mais jovens e belas em detrimento de mulheres mais velhas e ou mais feias, que estavam mais próximas, e, portanto, mais faceis de serem salvas.
Não, o herói salva aquilo que ele valoriza. Em qualquer outra situação ela seria deixada para trás. Ali, naquele momento, ela não era a mulher desejada por ser bela, mas apenas a mulher do Duque, o troféu na competição por tamanho de falo entre homens.
Ela só contava consigo mesma, sempre fora assim: fora assim quando ela viveu num outro mundo, e era assim naquele mundo fantástico, porém tão igual - ou até pior, por ser mais escancarado no machismo e no sexismo - a tudo o que conhecera.
Phillipa precisava sobreviver àquela noite, pois durante o dia seria mais fácil lutar, afinal, é sempre mais fácil lutar contra um inimigo que podemos ver. Os inimigos ocultos na escuridão são apenas a materialização bizarra dos inimigos ocultos pelas palavras doces, ou pelos sorrisos amistosos.
O globo de luz que lançou apenas aprofundou as sombras e fez com que os olhos dos homens se ressentissem mais da escuridão... devia haver uma solução.
Ren se abaixou e tentou localizar o verme com sua magia de terra. "Ao menos ele não parece tão inútil", pensou, e isso a tirou da paralisia.
Ainda tremendo, ela se agachou ao seu lado. "Consegue sentir alguma coisa?"
"Está difícil, esse monstro parece se misturar com a terra..." ele resmungou, irritado.
Apesar de tantas afinidades e dos tutores levados de Áurea Lux, quem mais recebeu educação havia sido seu irmão, e não ela. A frustração multiplicou a ansiedade e o medo. No meio da escuridão, a magia escura começou a brotar de dentro dela involuntariamente, e a inundar o chão ao seu redor, dando à terra uma qualidade densa, espelhada: as estrelas começaram a se refletir no chão, como se ele fosse feito de água.
O medo, misturado à angústia e raiva, verteu de dentro dela para o ambiente e, por acidente, ela localizou o monstro! Pequenos cristais de essência enfileirados, alguns já muito fracos, pulsavam em meio à escuridão, e se moviam naquele breu: o monstro digeria lentamente as vítimas e suas essências!
Tomada de ira, a mistura de magia brotou de dentro de Phillipa como um monstro, em tentáculos, em deformidade, e em descontrole. Multicoloridos, e densos, o ser que a moça projetou no ambiente, exercia tremenda pressão, a ponto da maioria dos homens e animais ficarem paralisados.
O coração dela batia no peito com força e ela o ouvia alto, como se somente ela e sua caça existissem no mundo. Não, não era uma caça, mas um inimigo!
O monstro se contorcia sob a terra, tentando mergulhar cada vez mais fundo porém foi um esforço inútil! Ele foi arrancado do chão, emergindo da superfície negra espelhada, guinchando e se contorcendo, um verme de aproximadamente vinte metros de comprimento e uma bocarra que conseguia engolir um homem inteiro. Ren acordou do transe que foi testemunhar aquela demonstração de mana e magia brutas, desmedidas e descontroladas, e pulou sobre o monstro, e Oliver o seguiu de perto.
Lanças, flechas e espadas, imbuídas da mana e magia de seus donos, lutaram para penetrar a pele resistente do verme, que finalmente se rasgou e despejou um líquido viscoso no chão. Enfurecida, Lipa gritou para que afastassem e criou uma lança de fogo que enfiou na ferida aberta pelos homens, finalizando o monstro.
De pé, perto daquele verme, ela parecia ainda menor, os olhos selvagens, cheios de ira e medo, o pulsar do seu próprio sangue ecoando nos seus ouvidos, alheia ao silêncio dos homens ao seu redor, ela parecia um ser alienígena, envolta em névoa de mana.
Aos poucos a calma e a consciência foi retornando e ela olhou para o céu estrelado. O céu belo e indiferente à sina dos humanos, a abóbada celeste tão plena e imutável, comparada a fugacidade da vida humana. Seu corpo finalmente sentiu o rebote da tensão e, trêmula, ela caiu ao lado do corpo da fera, e vomitou.
Talvez tenha sido sua reação, tão humana e vulnerável, mas os outros saíram do seu estupor, e começaram a conversar entre si, trocando as impressões de medo, ansiedade e pavor. Reinfeld, se dando conta do vácuo de comando, assumiu a liderança e começou a gritar ordens: "onde estão as montarias?", "alguém verifique os suprimentos!", "acendam fogueira!", "estabeleçam perímetro novamente!", "Oliver, verifique se houve baixas ou feridos!".
Ouvindo a assertividade na voz do cavaleiro, Phillipa teve inveja. Não, ela não queria ser protegida, nem queria estar no lugar dele! O que ela queria era não precisar que alguém fizesse o que era trabalho dela, e nem precisar estar ali... para poder escapar de Cassel e ter uma chance de se libertar, ainda que não soubesse o que poderia ser e fazer naquele mundo, tão surreal para ela... ficar num castelo num território ermo e menos desenvolvido era como estar sepultada viva.
Aos poucos os homens restauraram um mínimo de organização ao acampamento. Ela podia sentir o olhar de Reinfeld a estudando.
"Sir Ren, esse não é o único verme..." ela tinha certeza que haviam outros, talvez não muitos. A escassez de monstros indicava que não era apenas um predador, por outro lado, ela intuía que eles teriam a tendência de devorar uns aos outros. Ela queria que o dia raiasse logo, para poder estudar melhor o cadáver da fera.
O cavaleiro a pegou nos braços e a levou para o abrigo sobre a pedra. "Ei, eu sou pesadinha!"
"Eu sei, mas também deve estar exausta depois de usar tanta mana!", ele tinha o cenho franzido de preocupação.
"Nem tanto. Acho que estou mais sentindo o rebote da tensão", ela confessou.
"Não está acostumada a confiar nos outros, não é?" ele perguntou, gentilmente.
Ela meneou a cabeça, confirmando seu comportamento arisco, e ele a colocou no chão, sério. "Está certa, não confie. Confie primeiro em você. Sempre em você."
O dia começou a clarear preguiçoso, simplesmente o azul se tornando mais claro e translúcido, até que o sol rompeu o céu com raios brancos e dourados, e o medo atávico da escuridão foi aos poucos aliviado do coração de todos, trazendo uma maior sensação de controle.
O sol da manhã anunciando a sobrevivência aos perigos que se escuridão. Finalmente, ela colocou uma trouxa de roupas no chão e dormiu por algumas horas.
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