Guerras Arcanas - Interlúdio 2

Os jovens corvos. Adrian Sterling. 


Adrian Sterling tinha dezoito anos e a alegria de morar sozinho em Áurea Lux, longe do ducado e dos olhares dos empregados. Seu irmão mais velho acabara de sair da academia e, portanto, ele tinha esse ano para aproveitar fora da sombra de outro Sterling!

Saíra do dormitório cedo e cumpriu as obrigações na ala dos magos de luz, e se dirigiu ás aulas do dia, que acabaram cedo. Pela hora do almoço, conseguiu escapar e pegou um bonde até a casa comercial que fazia distribuição das essências e cristais que a expedição no norte coletava. Ele precisava de alguns ingredientes, e também de alguns presentes. O empregado entregou duas poções de cura de alto nível, e ele três potes de mel vindo da vila onde seu pai estava estacionado, com os cumprimentos da Jovem Duquesa, acompanhadas da mensagem "usar com cautela", além de algumas receitas de bebidas.

"Phillipa é tão atenciosa!" , ele sorriu, colocando tudo numa sacola de pano.

Ele e o irmão de sua madrasta concordaram em reduzir as vendas de certos materiais para evitar a depreciação. Foi uma boa medida! Ele vinha pensando em ir até a garganta para ver de perto as estufas de plantas de mana, pois pretendia comprar algumas propriedades e cultivar, quem sabe? Não era o herdeiro do título de duque e nem tinha talentos militares, logo, era bom ele encontrar um caminho melhor do que ficar às custas da família!

Saiu da loja por volta das quatro da tarde e tomou um bonde que o levou ao distrito residencial mais elegante da cidade. A mansão dos Sterling na cidade era no quarteirão nobre, e ele estava recebendo seus dois primos, primogênitos do Marquês Sterhaas e do Conde Delmas, que estavam na cidade de folga de seu serviço militar na expedição do Primeiro Príncipe.

"Albert, meus primos já chegaram?" inquiriu o mordomo.

"Sim, jovem mestre, e já estão nos seus quartos."

"Qual será o cardápio de hoje?"

"Carne como prato principal, a entrada é um consomé simples, já que o tempo está esfriando, e a sobremesa é um créme brulée"

"Isso, sempre muito simples. Ah... prepare peixe, sirva duas carnes ao mesmo tempo, peixe marinho. Eles passaram muito tempo no interior e talvez sintam saudades desse ítem. Há frutas? Pode dispor com creme? Deixe uma água cítrica para adicionar ao licor de baunilha. Dona Phillipa enviou esse mel... deve ser especial. Deixe à mesa. Quero experimentar depois da sobremesa."

Como Adrian detestava o ambiente rude do sul, o frio excessivo, as pessoas grosseiras, sem educação!

Antes de entrar no banho, purificou todos os utensílios com magia de luz, e finalmente se despiu e tirou as luvas.

Porque Adrian usava luvas o tempo todo, desde a infância e poucas pessoas sabiam a razão. Talvez seu pai suspeitasse, mas não conversavam sobre isso. Para tocar qualquer coisa, era preciso que essa coisa fosse purificada, e, mesmo assim, poderia não funcionar, e ele sofrer. No entanto, ele até conseguia suportar mais, agora adulto, do que quando menino.

O mais novo dos Sterling tinha o dom, ou a maldição, de ler, involuntariamente, a memória das pessoas e dos objetos com que entrasse em contato. Ao longo dos anos, foi aprendendo a lidar com esse problema. Um antigo servo do templo, empregado como tutor dos Sterling, o ensinou que esse era um dos dons mágicos dos Maximus, e que o próprio imperador e os príncipes usavam luvas, embora se treinassem para não o fazer.

Somente com a idade, Adrian compreendeu que era esse dom que dava uma relativa vantagem a um príncipe sobre outro. E ele aprendera isso recentemente.

Os sorrisos que não correspondiam aos pensamentos o assustavam, na infância. As imagens incongruentes, as memórias, muitas vezes perversas, tristes e trágicas, eram demais para que ele conseguisse compreender e processar emocionalmente. As roupas e as luvas eram a barreira protetora dele, e, quando sua magia de luz aflorou, ele conseguiu ter algum alívio. Por outro lado, depois que seu pai se casou, observou que seu irmão ficou mais irritado e reativo.

Acidentalmente, tocou, sem luvas, pertences dele e percebeu que Janus estava com medo! Comentava que talvez a "garota fosse engravidar e se enfiar no castelo, no lugar da futura esposa dele!", e coisas do gênero. Considerando tudo o que o pai deles passou, a última coisa que Adrian queria era ser herdeiro, e ele tinha confiança que Dona Phillipa pensava a mesma coisa.

Memórias que coletou de pertences do pai, enviados ao sul para reparos, mostraram a Adrian que, por muito pouco, ele mesmo poderia ter acabado casado com a menina dos Cassel! E outras memórias que ele preferia não ter visto, afinal, ninguém quer ver o pai em situações íntimas!

Ao invés de usarem a grande sala de jantar, ele e os primos jantaram na sala privada dos aposentos do Duque, que ele estava ocupando, no segundo andar da mansão, que dava para uma varanda privativa com vista para o jardim. Quando chegou, Stefan e Daniel se encontravam sentados num sofá, descontraidamente conversando, em roupas informais.

"Boa noite, meus primos, que bom vê-los assim, saudáveis e tão à vontade!", ele saudou e indicou a mesa.

"Quem diria que o nosso priminho estaria governando a mansão do pai assim, não é Daniel?"

"Não se importe com Stefan, sua hospitalidade é impecável, Adrian." 

Os três se sentaram à mesa e aquele delicado ballet de servos se iniciou, servindo aos três varões de importantes Casas de alta nobreza.

"E como é a campanha ao lado do Primeiro Príncipe?" Adrian perguntou, em meio à garfadas no seu medalhão.

"Nós praticamente limpamos calabouços, dungeons. Raramente temos uma onda de monstros, então... é um trabalho lento, pois eles reaparecem." Stefan explicou, atracado com o peixe.

"E nem podemos reclamar muito, afinal, ninguém fica preso por tanto tempo assim nos acampamentos, são tantos magos e cavaleiros servindo, em rodízio... infelizmente, apenas o próprio príncipe não pode retornar à capital antes de tudo terminar." Continuou o jovem Sterhaas.

"E quanto ao seu pai? Os calabouços do sul não são tão rentáveis quanto as mercadorias que ele vem enviando para o ducado..." Daniel estava realmente curioso. Os magos reais não explicavam muito acerca da expedição do norte, nem a razão dos calabouços do sul serem menos pródigos em materiais e minérios, mas sempre retornarem.

"Parece que ele está na última fase da missão. Descansando as tropas numa cidadezinha chamada Amêndoa Dourada..."

"Nunca ouvi falar!" Sterhaas e Delmas exclamaram quase em uníssono.

"Acho que ninguém ouviu. O norte não é tão grande, mas é tão rústico! Enfim, ela me enviou um mel especial para degustar..., vamos tomar juntos?" Albert serviu uma taça de chá gelado de pêssego, adoçado com mel e perfumado com flores, temperado com um toque de vinho tinto.

"Hahahaha, isso é realmente bebida de moças e crianças! Quem enviou? Seu pai?" Sterhaas tomou um gole.

"Não, a esposa dele..." Adrian respondeu, enquanto ele e Delmas beberam de seus copos.

Rapidamente a comida desapareceu da mesa, e logo veio a sobremesa. Albert serviu mais da bebida, refrescante, e delicada.

Quando o mais velho, Stefan, tentou se levantar da mesa, quase caiu. "Opa!"

Daniel estava sorrindo, e brincando com o primo, mas também quase caiu ao se levantar. Os empregados os ajudaram a se sentar nas poltronas. E Adrian pediu que abrissem as portas para a varanda.

"Foi essa bebida?" Daniel olhou para o copo na sua mão... e bebeu mais um pouco.

"Bem que ela disse para ter cuidado..."

"Então foi a menina que seu pai carregou por aí, que te enviou isso?"

"Ahã" Adrian sentiu o seu corpo flutuar, as inibições desaparecerem. Ficou aliviado de ter contratado companhia feminina para os primos. "Ei, contratei entretenimento para vocês mais tarde."

"Ah, garoto! Você é esperto. Melhor do que a gente ficar pelos puteiros e cabarés!" Daniel podia ser o mais bruto dos Sterlings quando bêbado, e naquele momento, eles estavam positivamente drogados.

"Agora me conta, essa garota aí? Ela é da sua idade, não é? Teu pai dá conta dela?"

"Porra, Dani, Tio não é nenhum fracote! Por outro lado... ela pelo menos é bonita, não é? Porque vergonha... não tem nenhuma. Mulher seguindo tropa? Puta!"

"Albert, traz a minha pasta. Está no escritório ao lado." Adrian não pensou muito, ele mesmo gostava de rever aquelas coisas. "Ela foi para caçar, meus primos..."

"Uma mulher?"

"Sim! O irmão dela me enviou algumas imagens, que ela achou úteis para meus estudos na academia, em troca de alguns livros... olhem só." Ele sacou uma caixinha com alguns cristais engastados em discos de metal, uma vez ativados, projetavam imagens holográficas. Aquilo era um material muito raro e caro, porém Phillipa montou com bastante facilidade ao lado do irmão, e usava para trocar informações com Adrian, que podia ativar facilmente com magia de luz.

"Ei, que feitiço de ar é esse?" Delmas ficou impressionado com a bolha de pressão reversa que ela demonstrou. "Essa é a garota?"

"Sim, essa imagem é antiga, é do início da expedição. Sir Ren gravou."

"Uau, isso aí é magia espacial... diabólica! A menina é rápida, natural..." Sterhaas, que tinha magia espacial e nunca desenvolvera apropriadamente ficou encantado.

"Esse é o mais recente, de quando eles estiveram em Sollisburgo e montaram um portal" Era um trecho da cerimônia de despertar de magia que ela promoveu.

"O que você pretende fazer com isso?" Stefan perguntou.

"Levar para a academia, é claro, estudar!"

"Não, não essa última. Stefan, você reconhece esse círculo?"

"Como não? É igual ao daquele demônio."

A conversa passou a girar em torno dos anos deles de academia, quando conheceram o herdeiro do Arquiduque Miúra, Leto, e o círculo que garantiu a ele a formatura muito antes de todos. Daniel falava do rapaz com uma admiração contida e estranha... quase apaixonada, enquanto Stefan demonstrava um certo temor.

"Se ela sobreviver ao seu pai, quem sabe eu não posso tomá-la como segunda esposa?" Stefan sugeriu, de pé na varanda.

"Esquece isso, primo. E ela é feia, não é?"

Os três riram, como bêbados.

"Sim, minha Alice é mais bonita, e provavelmente a mulher que você reservou para mim também, no entanto... um filho com ela teria grandes chances de ter magia de alto nível..." Os três olharam para o céu.

"Esquece, primo. Aquela ali me parece que não quer nada com o sul. Além do mais... segunda esposa? O irmão dela jamais permitiria."

"Vou me retirar, boa noite aos dois!", Daniel saiu do salão, tonto, amparado por um empregado. E logo foi seguido por Stefan. Finalmente, Adrian teve coragem de tirar as luvas. Ele deslizou as mãos pelas poltronas que os primos usaram, pelos copos... pela toalha da mesa... Imagens vindas das memórias dos dois o inundaram. Em qualquer outro momento, aquilo teria sido insuportável, no entanto, entorpecido por aquela bebida fresca e doce, ele apenas deixava aquela torrente passar por ele, sem o afetar.

Era como se finalmente ele conseguisse ser apenas um espectador, e não um participante, das emoções alheias. Ele viu Stefan comendo a esposa, uma mulher mediana, tanto quando a moça Cassel, afinal, nobreza significa casamentos endogâmicos, e endogamia redunda em problemas físicos, mentais, e... menos beleza do que se imagina, geralmente corrigidas a custa de muita magia. "Ele pensou nisso quando mencionou a Alice...", só que ele parecia frustrado. Já tinha um filho, um bebê... um pequeno Sterhaas.

Daniel e seus amigos, suas orgias... como sempre, o hedonismo assustador, oculto no militar disciplinado. Ele pode sentir a sensação de assombro e desejo do primo por um garoto de aparência estranha, que o ignorava na academia. "Que bonitinho! Pelo jeito, não sou apenas eu que não faço sucesso com quem eu quero!"

Adrian foi até a varanda e se despiu, deixando a brisa fria de outono acariciar seu corpo. Pareciam realmente acariciá-lo, e ele olhou para o céu, menos brilhante do que o do interior, por causa das luzes da cidade. Se tocou, e era só o que havia feito até aquela idade, por medo de tocar outra pessoa. Acariciou o pau, e deslizou a mão sobre ele, em todo o comprimento, com firmeza, e com a mão esquerda, ajeitou as bolas. Sem parar, alternando velocidade, se punhetou, até que o gozo jorrasse no piso da varanda, a cabeça latejando, os ouvidos zunindo, as pernas bambas.

Somente então se deu conta que estava nu ao relento. Olhou para trás e ficou aliviado ao ver que os empregados discretamente deixaram os aposentos. "Como é bom viver com esse conforto!"

Não chegou a alcançar o quarto, se quedou no sofá, e se cobriu com uma manta, para acordar apenas no dia seguinte.


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