Guerras Arcanas - Interlúdios 1

Um herdeiro para a Casa das Raposas.

Lelia andava rápido pelos corredores da torre noroeste, seguida de suas duas damas de companhia, que trouxera da casa de seu pai. As moças podiam ser mais altas que ela, mas certamente não eram mais ligeiras. Somente havia sido avisada naquela tarde do retorno do esposo de Sollis: Paul chegara na noite anterior e ainda não a havia visitado.

Desde que ela se casou, ela se mudou para a torre noroeste, enquanto o marido morava na torre principal, com seu pai, onde, na verdade, "aquela criatura", um dia morou.

Justamente depois de casados, o esposo resolveu que os Cassel deveriam seguir o padrão de separação de sexos das casas mais abastadas, segregando as vidas cotidianas das mulheres e dos homens. Quando deviam cumprir as obrigações como um casal, Paul e Lelia se encontravam, ou então quando ele a visitava, uma vez por mês, que era o mínimo das funções do varão.

Apesar de todos os esforços dela, Paul não se aproximara mais dela, cada vez mais ocupado com os negócios da família, inclusive em Ília e em Áurea Lux.

No mês anterior, a chegada de um nobre e seu escudeiro sacudiu o castelo: Lucien Clermont fez uma visita de surpresa, surgindo do portal que ligava Cassel a Ponta de Areia, um dos novos portais. Ele havia enviado outros servos e carga de navio, para Áurea Lux, e ficou curioso com o novo portal e resolveu "visitar a jovem Lady Cassel".

Para surpresa dela, e apenas dela, a tal jovem não era ela, mas sim Phillipa. Para piorar tudo, ele ainda perguntou se haviam gostado dos presentes que ele e o lendário jovem Leto Miúra enviaram aos irmãos Cassel todos esses anos.

A briga entre pai e filho sacudiu o antigo castelo, e Lelia, obviamente, tentou ficar ao lado do sogro, que, entretanto, disse que ela "não devia se meter em assuntos de família"... ela não era família?

"O que aquela bruxa fez para enfeitiçar até nobres da capital?" ela reclamou com suas damas. Uma serva, uma velha que vivia há décadas no castelo, tentou intervir: "ahahaha, por favor, eles eram apenas crianças, Jovem Senhora. Acho que os dois mestres achavam os dois irmãos bonitinhos."

Lelia fez cair sua ira sobre a serva: a informalidade dos servos não seria tolerada ao redor dela!

Naquela manhã ela não tinha tempo para ficar de cara fechada, ela tinha boas notícias para dar ao marido: ela estava grávida! Todo o dinheiro gasto com poções de fertilidade havia valido a pena! Ela carregava um fruto do amor deles.

Cruzou o pátio e o átrio, depois o corredor, e chegou ao estúdio do marido, e pediu que as suas damas abrissem a porta sem anunciá-la: ela seria mãe da próxima geração da família!

Paul sempre a desconcertara. Ela sempre foi o centro das atenções, por ser bonita e rica. Loura, os cabelos muito claros e lisos, emoldurando um rosto angelical, de tez branca e bochechas e lábios rosados, ela tinha uma face simétrica, pela natureza moldada a magia e cura: seu pai jamais deixaria que ela fosse algo menos do que perfeita.

Baixa, e com cintura fina, os seios grandes, porém proporcionais, e educada com o primor que cumpria a qualquer dama de alta sociedade, ela sabia bordar, cantar, dançar, preparar chá, organizar recepções, sabia sobre a saúde de crianças, sabia como falar, andar, comer... O próprio Lucien Clermont a elogiou comparando-a a um passarinho e a uma borboleta!

O homem estava sentado perto da janela, os olhos perdidos, quando ela entrou. Seu marido tão bonito, tão galante, tão inteligente! 

"Meu marido, eu tenho uma notícia a lhe dar. Mas queria lhe dar em primeira mão, antes de anunciar a todos!" ela anunciou, com sua voz suave, treinada, um tanto infantil, de pé, em frente a mesa, esperando que ele dissesse para ela se sentar.

Paul virou os rosto para ela mecânicamente, o olhar vazio. "Eu já sei, Lelia. Fico feliz por você."

Marcus entrou na sala apressado, e encontrou a cena triste. Acenou para as damas deixarem os três a sós. 

"Sim, querida, claro que sabemos que está grávida, o médico me avisou logo depois de ter lhe contado o resultado do exame." o Conde fez a nora se sentar.

"Mas eu pedi a ele que guardasse segredo, sogro!"

A voz dela fez Paul revirar os olhos de nojo. Ele havia acabado de retornar de Sollisburgo, e a companhia da irmã lhe era revigorante. A saudade que sentia dela o torturava. Ela era sua cúmplice, sua parceira de caçadas, sua amante. Em algum lugar no norte, ela estava se deitando com aquele velho, e, ele tinha certeza, o cavaleiro dele andava esticando olhares gananciosos em direção dela. Como não desejar? 

"Marido, nós teremos um filhinho. Tenho certeza que será um menino, um herdeiro para o condado! Eu sou saudável, forte, e ele será um grande mago, como você! Farei o meu melhor!', novamente, as palavras confiantes numa voz delicada, frágil, infantis. Aquela mulher que fingia dizer não, quando queria dizer sim, e fingia ter nojo, quando queria se entregar ao prazer, mas não conseguia... Ah, e não, ela não era forte, e aquele ventre dificilmente daria a luz a um grande mago. Os Poiret eram conhecidos pelo dinheiro mas não pela magia.

"Ah, sim, sim... um herdeiro. Eu vou valorizar essa criança, tenha certeza!" Intimamente ele pensou em Phillipa, pois, se ela não quisesse engravidar, o trabalho de dar continuidade a linhagem já estaria feito. "No entanto, minha esposa, temo que sua gestação deva ser cercada de cuidados."

"Como assim, filho?" Marcus franziu o cenho.

"Ora, pai. Lelia tem uma constituição pequena e frágil, e precisará de todos os cuidados, e as melhores poções e círculos mágicos para chegar ao final da gestação com boa saúde, não é? E dar ao senhor um neto com muita mana?" O sorriso de Paul não lhe chegava aos olhos. O olhar trocado com o pai, fez com que o Conde se arrepiasse.

"Deixe que eu cuido disso, Paul"

"Como cuidou de todas as coisas deixadas pelos meus avós, pela minha tia, dos presentes... não, o senhor pode deixar que eu organizo a saúde da minha esposa e do meu herdeiro, querido pai!"

Lelia se sentiu disputada pelo esposo, uma sensação nova! "Me coloco sob seus cuidados, meu marido!"

Paul se levantou e caminhou até a mulher. Delicadamente se inclinou e beijou sua cabeça, diante do próprio pai!Era um ato de familiaridade quase... erótico para ela, que ficou vermelha. Marcus notou a reação da nota e suspirou, frustrado, pensando como aquela megera, que fazia da vida dos servos um inferno, podia ser tão imbecil diante do marido.

"Agora volte, vá descansar e se alimentar bem, vá!", e indicou a porta.

Ela se levantou e saiu, feliz, ao encontro das damas, falando baixinho, rindo.

Os dois homens ficaram sozinhos, sentados um diante do outro.

"Pai, se ela tiver essa criança, o senhor me deixa em paz? Foi esse o trato!"

"Já é hora de você superar sua irmã..."

"Ela não é e nunca foi minha irmã. E eu não tenho de superar nada!"

"Pare de se comportar como uma criança mimada, ela deve estar à vontade com o duque. O homem parece gostar dela!" Marcus insistia no mesmo argumento.

"Ha! Ela mal pode esperar pelo fim do contrato ou pela morte dele! Eu a conheço muito bem!" 

"Eu realmente acredito que casamentos arranjados são melhores. Os contratuais, melhores ainda. O casal tem a oportunidade de construir a relação sobre alicerces mais fortes do que desejo e a paixão. Fico triste que você e Phillipa não tenham compreendido isso e fechado os corações para os seus parceiros."

"E o senhor veio correndo socorrer Lelia?" Paul indicou o envelope no bolso do pai.

"Ah, recebi essa mensagem. É de Leto Miura. Ele quer conversar conosco. Parece que também está retornando ao país, e quer algumas informações da expedição da legião."

"Miúra? Se ele quiser passar aqui por Cassel será muito bem vindo, não é?" Paul observou.

"Claro que sim!'

Enquanto Marcus estava tranquilo imaginando Phillipa no norte, em meio a monstros, seu suposto habitat natural, Paul se empenhava em como impedir que sua irmã escapasse mais e mais para o sul... 


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