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Triste dia dos pais.

Pai é uma palavra que soa estranha na minha voz. Ora soa falsa, ora amarga. Mãe é uma palavra cujo significado só melhorou um pouco quando eu me tornei uma. Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente. Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades. No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele di...

Figos maduros apodrecem

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"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém." Nelson Rodrigues Uma citação de Nelson Rodrigues é sempre algo que me trás um sorriso aos lábios. Um sorriso meio cúmplice, pois ele se propôs a dizer o que não é para ser dito e das piores maneiras possíveis. O Anjo Pornográfico tinha o olhar atemporal, agudo, cruel, mas também passional que somente os jovens no coração são capazes de ter. Esse modo de ver a vida me persegue. Nunca consegui expulsá-lo de dentro de mim. Ter sido uma menina com problemas respiratórios me fez ficar mais em casa, e meu temperamento observador não resistia ao hábito que a família tinha de comentar sobre os problemas uns dos outros, dos vizinhos e até de si mesmos.  Eu gostava de ouvir as conversas, e também de cruzar informações mentalmente, adorava observar os gestos, as expressões faciais, os olhares...

Dona M e os cachorros

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Dona M adora músicas românticas, mas ela não crê no amor. Não, de jeito nenhum. Homem nenhum presta, pontifica do alto dos seus 70 anos, e todo homem trai. Trai, porque homem é bicho, está com você mas pensando na outra. E és uma burra se iludindo ser a única! Resta a mulher aceitar a traição ou a solidão. É escolher o que ela achar menos doloroso, ou mais ou menos (des)honroso. O amor verdadeiro da mulher é os filhos. Homem trai nem que seja para não passar por viado diante de outros homens, e ela imagina um homem falando para o outro "aí, cara, não vai pegar não? por causa da namorada? aí, agora é viado?". De certa maneira, o respeito não está na fidelidade conjugal, mas em não trazer doença pra casa, não fazer filhos fora de casa e nem ter um relacionamento que seja estável o bastante para dar azo a divisão de bens com a outra. E nada disso a mulher precisa saber, pois o bom marido mantém a esposa na mais feliz ignorância. Ela se arrepende de ter abandonado o marid...

A indomável Dona L

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Dona L é uma pessoa e tanto. Não há dúvidas. É olhar para ela e saber. Meu analista diz que leu ou ouviu uma vez que sempre há uma Dona L em todas as anedotas judaicas engraçadas. E a contar pela que eu conheço essa é uma mishigne memorável. Chamar alguém de maluco numa sala de espera de um consultório de um médico psiquiatra não é exatamente a coisa mais delicada do mundo, mas para pessoas como eu e Dona L é algo que arranca uma troca de olhares significativa e sonoras gargalhadas. A bem da verdade eu adoro pessoas como ela, que demonstram no olhar todas as suas emoções, pessoas explosivas tanto no afeto quanto nos rompantes de raiva mas que até nestes parecem ser extremamente afetuosas de um jeito estranho. Eu amo ouvir pessoas que viveram suas vidas de forma intensa e riem disso. Não que não tenham sofrido pois cada um sabe de suas cicatrizes, do quanto elas doeram do quanto elas fizeram sofrer, ou mesmo não tem tanta noção do sofrimento que causaram, mas estão aí da...

A dream of a past long gone and dead

Dreams are fickle, they elude us. Once we dream, they are gone, and regardless of all our attempts to pick the dream where we have left it or to dream it again, all we do is to remember, and we add or take a few things from the original experience until it is nothing like it was; it is a memory made again, a memory of nothing. No more a dream than a fantasy. I don´t know why I woke up thinking of you. I was in this park or garden; the day was grey and the grass was neatly cut, like a football pitch I suppose, there were gentle slopes and happy flats, and small ponds, and these small squat trees, of a green that I can´t quite say was dark or if the dark hue was lent by the grey sky.  There was this mother and son, and they looked very much alike, they even dressed like each other: auburn hair, very fair skin and fine pointy features, plain and slightly chinless.  The boy stared at what seemed nowhere and the mother stared at the boy. Neither talked to me or seemed t...

Feminismo? Coragem e Integridade!

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Não tenho saco pra feminismo de sovaco cabeludo e tetas de fora na rua. Não tenho tempo para isso, nunca tive. Estava preocupada demais vivendo. Me inspirei em outras coisas para ser a mulher que sou, Eu tenho a sorte e a benção de ter convivido com mulheres que não se conformaram com os papéis que a sociedade das décadas de 50, 60, 70... lhes atribuíram e, com apoio e muitas vezes sem, resolveram fazer o que quiseram e puderam das suas vidas. Pude testemunhar essas mulheres estudando a noite e trabalhando de dia, assumindo que não gostavam de criança e não queriam ter filhos; eu as ouvi dizer que casamento não era para elas, ou que não estavam dispostas a permanecer em casamentos infelizes; eu as ouvi dizer e as vi trabalhar e lutar para subir na carreira; e abandonarem carreira também; casar várias vezes; morarem sozinhas e em repúblicas; eu as vi serem chamadas de putas, de egoístas, de solteironas, de pessoas ruins, quando na verdade apenas ambicionavam coisas que homens ambi...

O taxista do Bolsonaro contra os paraíbas

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Há pouco mais de um ano, antes da eleição do Jair Bolsonaro, eu peguei um táxi do trabalho para casa, e, como é do meu feitio, fiz o trajeto conversando com o motorista. Eu gosto de ouvir as pessoas, nas filas dos bancos, mercados e repartições públicas, nos transportes, onde haja oportunidade. É interessante como estranhos podem falar animadamente sobre suas vidas, sobre suas idéias, e até coisas bem pessoais. Nesse dia, comentamos o último tiroteio, como estava difícil ir e vir na região, e o senhor veio com uma idéia complicada, que a razão não era o tráfico de drogas, ou a pobreza, e o desemprego, ou talvez a ruindade ou a influência do demônio... o problema eram os nordestinos! Eu fiquei chocada, mas respondi "aham... é mesmo?" E o istepô continuou animado, dizendo que a família dele tinha vindo para o Brasil na segunda metade do século XIX, de maneira que ele era carioca há mais de seis gerações e notou que a coisa ficou feia quando os "paraíbas"...