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Olhando, Ouvindo e Registrando

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Não sou uma pessoa muito calorosa.  Sendo brasileira e carioca, isso é bem pouco usual! Não sou aquela pessoa que se oferece prontamente a apertos de mão, abraços e beijos no rosto, embora não os recuse, por educação. Com o tempo, os amigos mais chegados, consciente ou inconscientemente, percebem esse meu jeito e seguram a onda das manifestações mais esfuziantes de afeto. Isso não significa, de jeito nenhum, que eu não goste das pessoas, nem que eu não goste de locais públicos... eventualmente. Eu adoro... eventualmente. Tenho meus momentos, é claro, e as únicas pessoas com quem eu sou realmente carinhosa são meu filho e meu namorado, mesmo assim, confesso que não sou grudenta. Em tempos de epidemia, acho que isso é uma bênção! Cabreira com notícias do oriente, e atendendo às minhas obsessões, eu passei o carnaval bem quietinha esse ano, e, como eu não sou dada a essa coisa de muita proximidade física, cá estou relativamente saudável, me sentindo quase poderosa e capaz d...

Grim Gretta, é fake

Cá estava eu, meio assistindo, meio ouvindo o noticiário, quando ouço a tal da Greta Thurnberg acusar o mundo adulto de ter roubado a infância e a juventude dela. Levanto a cabeça do meu Kindle e falo: como é que é????? Eu confesso que não presto muito atenção a essa menina. Acho uma coisa bizarra e midiática. Da imagem ao discurso, não há nada dela de verdadeiro ou realmente útil a causa ambiental, mas até aí morreu neves. O que está me irritando é a arrogância crescente. Ninguém roubou a infância ou a juventude dela, ora bolas. Ela nasceu na escandinávia, não é e nunca foi pobre, não sabe e nunca soube o que é nascer num local onde as condições de saneamento são pífias, se existentes, não sabe o que é viver sem coleta de lixo, com pouco acesso a alimentação de qualidade, saúde e educação, ela tem uma perspectiva hoje, de emprego, que qualquer latino não sonha, imagine um africano, ou boa parte das crianças da idade dela nascida na ásia? A sociedade na qual ela vive se beneficia...

Triste dia dos pais.

Pai é uma palavra que soa estranha na minha voz. Ora soa falsa, ora amarga. Mãe é uma palavra cujo significado só melhorou um pouco quando eu me tornei uma. Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente. Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades. No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele di...

Figos maduros apodrecem

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"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém." Nelson Rodrigues Uma citação de Nelson Rodrigues é sempre algo que me trás um sorriso aos lábios. Um sorriso meio cúmplice, pois ele se propôs a dizer o que não é para ser dito e das piores maneiras possíveis. O Anjo Pornográfico tinha o olhar atemporal, agudo, cruel, mas também passional que somente os jovens no coração são capazes de ter. Esse modo de ver a vida me persegue. Nunca consegui expulsá-lo de dentro de mim. Ter sido uma menina com problemas respiratórios me fez ficar mais em casa, e meu temperamento observador não resistia ao hábito que a família tinha de comentar sobre os problemas uns dos outros, dos vizinhos e até de si mesmos.  Eu gostava de ouvir as conversas, e também de cruzar informações mentalmente, adorava observar os gestos, as expressões faciais, os olhares...

Dona M e os cachorros

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Dona M adora músicas românticas, mas ela não crê no amor. Não, de jeito nenhum. Homem nenhum presta, pontifica do alto dos seus 70 anos, e todo homem trai. Trai, porque homem é bicho, está com você mas pensando na outra. E és uma burra se iludindo ser a única! Resta a mulher aceitar a traição ou a solidão. É escolher o que ela achar menos doloroso, ou mais ou menos (des)honroso. O amor verdadeiro da mulher é os filhos. Homem trai nem que seja para não passar por viado diante de outros homens, e ela imagina um homem falando para o outro "aí, cara, não vai pegar não? por causa da namorada? aí, agora é viado?". De certa maneira, o respeito não está na fidelidade conjugal, mas em não trazer doença pra casa, não fazer filhos fora de casa e nem ter um relacionamento que seja estável o bastante para dar azo a divisão de bens com a outra. E nada disso a mulher precisa saber, pois o bom marido mantém a esposa na mais feliz ignorância. Ela se arrepende de ter abandonado o marid...

A indomável Dona L

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Dona L é uma pessoa e tanto. Não há dúvidas. É olhar para ela e saber. Meu analista diz que leu ou ouviu uma vez que sempre há uma Dona L em todas as anedotas judaicas engraçadas. E a contar pela que eu conheço essa é uma mishigne memorável. Chamar alguém de maluco numa sala de espera de um consultório de um médico psiquiatra não é exatamente a coisa mais delicada do mundo, mas para pessoas como eu e Dona L é algo que arranca uma troca de olhares significativa e sonoras gargalhadas. A bem da verdade eu adoro pessoas como ela, que demonstram no olhar todas as suas emoções, pessoas explosivas tanto no afeto quanto nos rompantes de raiva mas que até nestes parecem ser extremamente afetuosas de um jeito estranho. Eu amo ouvir pessoas que viveram suas vidas de forma intensa e riem disso. Não que não tenham sofrido pois cada um sabe de suas cicatrizes, do quanto elas doeram do quanto elas fizeram sofrer, ou mesmo não tem tanta noção do sofrimento que causaram, mas estão aí da...

A dream of a past long gone and dead

Dreams are fickle, they elude us. Once we dream, they are gone, and regardless of all our attempts to pick the dream where we have left it or to dream it again, all we do is to remember, and we add or take a few things from the original experience until it is nothing like it was; it is a memory made again, a memory of nothing. No more a dream than a fantasy. I don´t know why I woke up thinking of you. I was in this park or garden; the day was grey and the grass was neatly cut, like a football pitch I suppose, there were gentle slopes and happy flats, and small ponds, and these small squat trees, of a green that I can´t quite say was dark or if the dark hue was lent by the grey sky.  There was this mother and son, and they looked very much alike, they even dressed like each other: auburn hair, very fair skin and fine pointy features, plain and slightly chinless.  The boy stared at what seemed nowhere and the mother stared at the boy. Neither talked to me or seemed t...