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Quando eu descobri que ser menina, era ser menos do que um menino

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  Nasci menina, e até uma determinada idade, eu me sentia muito feliz assim. Eu tinha avós maravilhosas, minha avó materna me mimava de todos os jeitos, meus avós homens eram muito legais, o materno então era super carinhoso, falava comigo como se eu fosse "grande". Aprendi a falar e andar muito cedo, eu aprendi a ler sozinha muito cedo, e a observar as pessoas de maneira crítica bem precocemente. Venho de famílias de mulheres fortes, e na minha família paterna então... elas são como titãs, desafiadoras do seu tempo, e eu adorava. Na minha cabeça, eu poderia fazer o que eu quisesse. Meu pai me levava pro quartel, eu tinha até minha boina da PQD, eu brincava com os meninos e meninas, saía na pancadaria, mesmo sendo baixinha, magrinha, perebenda e com bronquite. Então minha mãe engravidou. Eu fiquei feliz pois ia ganhar uma irmã no dia do meu aniversário, mas meu pai insistia que seria um menino, pois estava obcecado com a idéia de ter um filho homem, macho! Minha mãe deixou mi...

O ano em que fiz parte de estatísticas e COVIDei.

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No dia 30 de abril de 2020 eu tentei dar minha aula a distância, por meio de video, mas consegui apenas usar apenas o instrumento de chat, pois falar foi impossível. Eu estava cansada, sem ar, a garganta dolorida, mas nada me dizia, naquele momento que eu já estaria com covid-19. No dia seguinte eu amanheci sem sentir cheiro algum, ainda assim saí para cumprir tarefas no dia seguinte, dia 3. Eu ainda me sentir bem, o que me incomodou foi a perda do olfato, e parcialmente do paladar. Mas já no domingo eu tombei, com muito cansaço, e respirar se tornou uma enorme dificuldade.fa E foi assim que eu entrei para as estatísticas brasileiras como um caso confirmado de infecção por sars-cov-2. Fui ao trabalho, onde colheram meu RT PCR, ajeitei a mesa e vim me embora. Descobri que outro colega que havia trabalhado comigo havia pego também. Fiquei preocupada com minhas tias, a quem eu tinha dado assistência poucos dias antes, e com a senhora que trabalha comigo, que vinha passando mal - pedi...

Olhando, Ouvindo e Registrando

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Não sou uma pessoa muito calorosa.  Sendo brasileira e carioca, isso é bem pouco usual! Não sou aquela pessoa que se oferece prontamente a apertos de mão, abraços e beijos no rosto, embora não os recuse, por educação. Com o tempo, os amigos mais chegados, consciente ou inconscientemente, percebem esse meu jeito e seguram a onda das manifestações mais esfuziantes de afeto. Isso não significa, de jeito nenhum, que eu não goste das pessoas, nem que eu não goste de locais públicos... eventualmente. Eu adoro... eventualmente. Tenho meus momentos, é claro, e as únicas pessoas com quem eu sou realmente carinhosa são meu filho e meu namorado, mesmo assim, confesso que não sou grudenta. Em tempos de epidemia, acho que isso é uma bênção! Cabreira com notícias do oriente, e atendendo às minhas obsessões, eu passei o carnaval bem quietinha esse ano, e, como eu não sou dada a essa coisa de muita proximidade física, cá estou relativamente saudável, me sentindo quase poderosa e capaz d...

Grim Gretta, é fake

Cá estava eu, meio assistindo, meio ouvindo o noticiário, quando ouço a tal da Greta Thurnberg acusar o mundo adulto de ter roubado a infância e a juventude dela. Levanto a cabeça do meu Kindle e falo: como é que é????? Eu confesso que não presto muito atenção a essa menina. Acho uma coisa bizarra e midiática. Da imagem ao discurso, não há nada dela de verdadeiro ou realmente útil a causa ambiental, mas até aí morreu neves. O que está me irritando é a arrogância crescente. Ninguém roubou a infância ou a juventude dela, ora bolas. Ela nasceu na escandinávia, não é e nunca foi pobre, não sabe e nunca soube o que é nascer num local onde as condições de saneamento são pífias, se existentes, não sabe o que é viver sem coleta de lixo, com pouco acesso a alimentação de qualidade, saúde e educação, ela tem uma perspectiva hoje, de emprego, que qualquer latino não sonha, imagine um africano, ou boa parte das crianças da idade dela nascida na ásia? A sociedade na qual ela vive se beneficia...

Triste dia dos pais.

Pai é uma palavra que soa estranha na minha voz. Ora soa falsa, ora amarga. Mãe é uma palavra cujo significado só melhorou um pouco quando eu me tornei uma. Meus pais se separaram quando eu tinha por volta de onze anos, e, em meio a uma separação difícil, meu pai abandonou a mim e a minha irmã, constituindo outra família. E minha mãe descontou toda a raiva na gente. Ele simplesmente virou as costas, mal pagava pensão. Abandono emocional é pouco. Não quis saber se estávamos bem, se estávamos mal, doentes ou saudáveis. E olha que eu tinha uma bronquite grave. Não se importava se tínhamos educação, moradia, o que vestir ou comer. Se sofríamos abuso. Ele tinha outra família e outras prioridades. No início a prioridade dele e de minha mãe era brigar entre si, depois a dele era a família dele, algo que ele e a esposa deixaram bem claros. Nas poucas tentativas de aproximação, o tratamento foi frio, numa tentativa de ligar para ele, embora eu ouvisse a voz dele ao fundo, a esposa dele di...

Figos maduros apodrecem

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"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém." Nelson Rodrigues Uma citação de Nelson Rodrigues é sempre algo que me trás um sorriso aos lábios. Um sorriso meio cúmplice, pois ele se propôs a dizer o que não é para ser dito e das piores maneiras possíveis. O Anjo Pornográfico tinha o olhar atemporal, agudo, cruel, mas também passional que somente os jovens no coração são capazes de ter. Esse modo de ver a vida me persegue. Nunca consegui expulsá-lo de dentro de mim. Ter sido uma menina com problemas respiratórios me fez ficar mais em casa, e meu temperamento observador não resistia ao hábito que a família tinha de comentar sobre os problemas uns dos outros, dos vizinhos e até de si mesmos.  Eu gostava de ouvir as conversas, e também de cruzar informações mentalmente, adorava observar os gestos, as expressões faciais, os olhares...

Dona M e os cachorros

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Dona M adora músicas românticas, mas ela não crê no amor. Não, de jeito nenhum. Homem nenhum presta, pontifica do alto dos seus 70 anos, e todo homem trai. Trai, porque homem é bicho, está com você mas pensando na outra. E és uma burra se iludindo ser a única! Resta a mulher aceitar a traição ou a solidão. É escolher o que ela achar menos doloroso, ou mais ou menos (des)honroso. O amor verdadeiro da mulher é os filhos. Homem trai nem que seja para não passar por viado diante de outros homens, e ela imagina um homem falando para o outro "aí, cara, não vai pegar não? por causa da namorada? aí, agora é viado?". De certa maneira, o respeito não está na fidelidade conjugal, mas em não trazer doença pra casa, não fazer filhos fora de casa e nem ter um relacionamento que seja estável o bastante para dar azo a divisão de bens com a outra. E nada disso a mulher precisa saber, pois o bom marido mantém a esposa na mais feliz ignorância. Ela se arrepende de ter abandonado o marid...